Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

28 de Março de 2015, 10:42

Por

Angola, a opinião pública e a oligarquia

diamantesQuanto começou o julgamento em Luanda de Rafael Marques,o jornalista que escreveu “Diamantes de Sangue”, o autor e a editora Bárbara Bulhosa, da Tinta da China, decidiram disponibilizar o livro online em acesso livre. Quiseram assim facilitar a leitura de um documento importante sobre a realidade angolana, sobre a captação de recursos e sobre a oligarquia que dirige o país. A defesa de Rafael Marques é a opinião pública. O processo foi discutido no PÚBLICO por Francisco Teixeira da Mota.

Em Portugal, o país cujo ministro dos estrangeiros promete às autoridades angolanas uma intervenção para que a justiça portuguesa não os incomode, esta atitude contrasta.

No entanto, temos toda a informação para saber. Filipe Fernandes publicou recentemente mais um isabelcontributo, o livro “Isabel dos Santos – Segredos e Poder do Dinheiro” (2015, Casa das Letras), que descreve como se formou uma das maiores fortunas de África.

Alexandre Abreu, no Expresso e no blog Ladrões de Bicicletas, completa o retrato, do outro lado, a partir de uma artigo do New York Times, mostrando a pobreza infantil, a perda de vidas que é o resultado de uma distribuição criminosa dos recursos de um país rico com tanta gente miserável e condenada a não poder viver.

Basta saber olhar para saber.

 

Comentários

  1. Angola é um país imenso, geograficamente, pela diversidade étnica e acima de tudo pela sua matriz popular. Angola não é Luanda e de Luanda até ao resto de Angola pode-se demorar nalguns casos mais de três dias de carro a conduzir. O sistema político em Angola está em fase de maturação, ainda há uns escassos 5 anos havia quem defendesse uma oposição mais “militarizada” (Abilio Camalata Numa). As fronteiras só nos últimos anos foram estabilizadas com uma estratégia de ocupação de território, combate à caça furtiva e “garimpo mineral” praticado issencialmente por estrangeiros no passaporte mas com a mesma origem étnica que os do lado de cá da fronteira política…confusões em África que estão na origem na maioria dos conflitos armados (Congo, Ruanda, Nigéria, Uganda, Zâmbia…etc). Não é fácil manter a ordem a estabilidade e um programa de progresso num país cujo a independência tem uns escassos 40 anos, 2/3 dos quais com diferentes conflitos armados, ora para disputa do poder nacional e hegemonia política, ora na disputa internacional pela influência geopolítica dos dois blocos da guerra fria e por fim pela estabilidade nacional e fim de uma guerrilha há muito longe de princípios ideológicos e cada vez mais ao sustento do banditismo que só mesmo João Soares parece querer negar. O trauma geral causado pela guerra, pela economia planificada e pela instabilidade fronteiriça parece ser superior (para a maioria dos angolanos) do que as regras mais elementares da democracia européia, isso tira importância a Rafael Marques? Claro que não! O debate pela liberdade de imprensa (de qualidade) é premente assim como o é a independência da justiça, aliás que começa agora a dar passos significativos como o provam alguns dos últimos casos (BNA, Quim Ribeiro, Riquinho…etc) e a livre expressão e opinião. No caso de Angola o ritmo da transformação social tem que ser sempre acompanhado do necessário músculo pela estabilidade para que se evite exemplos perpetuados no Congo, Nigéria, Mali, Ruanda, Sudão e por mais de outros 30 países africanos com conflito armado presente…isto porque valerá a pena não comentar os atropelos à humanidade do Kosovo à Ucrânia como se a infantilidade de governação fosse exclusiva dos africanos.

    1. Concordo com a noção de que a defesa da estabilidade implica responsabilidade, justiça e liberdade de imprensa. São as únicas defesas do povo contra a oligarquia.

  2. O desconhecimento que a esmagadora maioria dos portugueses tem acerca do gigantesco roubo das riquezas angolanas por parte da oligarquia que o domina há décadas demonstra a porcaria de comunicação social que temos.
    A RTP, por exemplo, tem desde há alguns anos em Angola um gordo que cá nunca passou de um “jornalista desportivo” de segunda categoria. Nunca ninguém viu uma reportagem desse jornalistazeco acerca das misérias de Angola, pela simples razão de que ele nunca as fez. O próprio Rafael Marques, que eu me tivesse apercebido, nunca foi entrevistado na RTP.
    Esta auto-censura que os media impõem a si próprios, de forma a garantirem umas migalhas por parte dos poderosos senhores corruptos, é a maior vergonha das sociedades modernas.
    Nos medievais tempos do Salazar as coisas eram mais claras: havia lápis azul e Pide. Agora é tudo muito mais sofisticado e, por isso mesmo, mais difícil de combater. O poder económico domina a comunicação social e sociedades inteiras só sabem aquilo que esse poder permite.
    O filme “Diamantes de Sangue” foi feito há quase dez anos e retrata o escândalo e a tragédia da exploração de diamantes em zonas africanas – sobretudo a Serra Leoa – dilaceradas por guerras, vendidos para financiar essas guerras, com a compra de mais e mais armas. Ora, a Serra Leoa produz muito menos diamantes do que Angola, o que significa que a realidade angolana é muito pior. Se bem lembro, no final do filme, aparece um texto dizendo que foram tomadas medidas no mundo ocidental para evitar a compra desses “diamantes de sangue”.
    Como se vê pelo caso angolano – é só ler o livro do Rafael Marques – isso é uma descarada mentira.
    A comunicação social não presta, mas as pessoas lavam as suas consciências com muita – demasiada – facilidade.

  3. Pelo desculpa por colocar um novo comentário, mas os números são de facto esmagadores ao compararmos a TMI de Angola, por exemplo com Portugal.
    Em Portugal morrem em média 3,4 crianças por cada mil nascimentos. Em Angola morrem 1 (uma) em cada 10 (dez) crianças.

    1. É para esse detalhe e para as opiniões que o interpretam que a caixa de comentários é aberta. Obrigado.

    2. De acordo com o referido artigo do NYT, mais de 16% das crianças nado-vivas, faleciam antes dos cinco anos de idade!

    3. La estamos nós a “fazer demagogia”. Como sabemos, não se pode comparar o que não é comparavel. A mortalidade infantil, em Angola, como aliás tudo o resto, pode e deve ser comparada com iguais parametros nos paises africanos. Não passará pela cabeça de ninguem, minimamente informado e intlectualmente honesto,comparar o Togo, o Niger ou o Congo, com a Suécia ou o Canadá.
      Esquecer este “detalhe” é confundir quem lê e enganar todo o processo de análise. Se formos sérios na forma de abordagem detes assuntos, não podemos distorcer as questões, por razões que, eventualmente, a razão desconhece. Pergunto-me com frequencia, porque motivo, Moçambique, estará a salvo destas raivinhas crónicas. Está ainda por demonstrar que, quando comparado com Angola, seja menos problemático ou merecedor de criticas, por exemplo. Para que conste, gosto e sinto-me bem em ambos os países. Desvalorizo e tenho igual falta de respeito, por quem fala do que não sabe, ou seja, diz que sim….só porque sim ou porque ouviu dizer. Muito haveria para dizer, sempre neste registo. Sugestão: por uma vez, deixemos de “dar tiros nos pés” e de confundir “estrada da Beira com beira da estrada”. Não nos fica bem e só diz da nossa permanente e infeliz forma de estar na vida. Pelo menos a avaliar pelas opinióes publicadas (que felizmente, raramente condizem com as publicas. Por mais que aquelas se esforcem)

  4. Não se admite. Eu tinha a ideia que em Angola havia um grande desigualdade de condições de vida, mas pensava que a prosperidade tivesse permitido melhorar um pouco as condições de todos. Porém este indicador (a taxa de mortalidade infantil), estudado pelo jornalista Alexandre Abreu é muito claro acerca das condições reais de desenvolvimento.

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