Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

25 de Março de 2015, 13:15

Por

Conversas daquele lado da direita

fernandesJosé Manuel Fernandes, director do Observador, o jornal online mais arreigadamente de direita do planeta Portugal, dedicou um escrito ao seu próprio espanto pelas palavras de Marine Le Pen, em entrevista ao concorrente Expresso. “Ele há coisas extraordinárias”, escreve Fernandes. “Estava eu este fim-de-semana a ler uma longa entrevista a um jornal de referência e eis que me deparo com um discurso que, facilmente, poderia ser subscrito por gente de muitos e diferentes quadrantes. Gente variada e importante”. Estava ele portanto no fim de semana a ler um jornal que se esqueceu de citar, e ficou impressionado com a “coisa extraordinária” dos dizeres da senhora Le Pen, que mistura alegremente racismo e defesa da pena de morte com oposição ao euro e à União Europeia. Fernandes decidiu então usar as frases da senhora para demonstrar o seu ponto, porque há sempre um ponto: ela e a esquerda partilham um “ódio à democracia”. Não são iguais, claro, mas são tudo gentalha perigosa.

A prova do pudim é prová-lo, explica Fernandes: “Primeiro, porque há uma real coincidência de pontos de vista na sua oposição ao liberalismo, aos odiados mercados abertos e concorrenciais, à globalização (ou mundialização, como lhe chamam os franceses). Depois, porque existe uma comum fúria antiausteritária e uma comum vontade de considerar que a origem dos problemas está sempre nos outros, nunca em nós próprios ou na forma como organizámos as nossas sociedades e as nossas economias”.

Ficou provado que são discursos coincidentes, ou que convivem no “ódio à democracia”? Oh, meu caro Fernandes, deixou soltar o seu preconceitozinho com demasiada facilidade. Criticar o liberalismo, criticar a União Europeia ou recusar os constrangimentos da austeridade e do empobrecimento não significa “ódio à democracia”, pois não?

Leia por exemplo um outro cronista albergado no seu jornal tão plural, João Marques de Almeida: “A ‘nova’ Europa está a ajudar a destruir o poder que a ‘velha’ Europa deu a muitos, a maioria no PS e no PSD. Se a ‘Europa’ deixou de garantir automaticamente votos e de distribuir dinheiro para as clientelas partidárias, não admira que a oposição à União Europeia tenha aumentado. E a questão decisiva passou a ser: será possível reconstruir um amplo apoio à União Europeia? Não sei se será”. O malandro do Marques de Almeida terá ódio aos “mercados livres e concorrenciais”, que acusa de “distribuírem dinheiro para as clientelas partidárias”? Vamos listá-lo na categoria dos lepenistas?

E o que dizer de Vítor Bento, cuja contenção o leva a não concluir a óbvia e irreparável proposta de saída de um euro que não convém a Portugal, mas que explica detalhadamente porque tal é inevitável, com a evidente e indisfarçada anuência do capitão do Observador, que esquece por um momento a jura de fidelidade ao “mercado livre e concorrencial”? Outro lepenista, odiador da democracia?

Os seus catálogos de “gente variada e importante” são uma forma muito maoísta de arrumar os ódios de estimação, caro Fernandes. Sugiro-lhe por isso que deixe lá a conversa da Le Pen e se concentre na resposta democrática à sua ameaça. Atacar Viriato Soromenho Marques, Mário Soares, João Galamba, Jerónimo Sousa, Bagão Félix (tanto ódio no Observador contra Bagão Félix!), Carvalho da Silva, Freitas do Amaral e este seu criado como coincidentes com Le Pen só exibe a sua listinha, mas não a virtude do argumento. Se se poupasse a essa humilhação, talvez então pudesse perceber que Merkel é a melhor aliada de Le Pen, que cada vez que ela humilha a França ou que Hollande se submete ao vexame são votos para as políticas de fechamento nacional e que a desagregação da União é o caldeirão dos populismos. Um bom panegírico dos mercados “livres e concorrenciais” fará decerto maravilhas na mobilização do povo em defesa dos seus grandes, mas talvez convenha mais que a democracia seja democrática e ajude a resolver os problemas da democracia: o desemprego e o enfraquecimento das redes de solidariedade e de responsabilidade.

Só se vence o populismo com soluções populares que resolvem as dificuldades das pessoas. Caso contrário, ficamos presos às proclamações sobre a beleza dos “mercado livres e concorrenciais”, apoiadas por uma listinha de inimigos da democracia, que evidentemente, foi inventada por esses mercados encantadores. Haverá de reconhecer, caro Fernandes, que isso é muito pouco para os tempos de aflição.

Comentários

  1. “ou na forma como organizámos as nossas sociedades e as nossas economias”

    Pois… o modelo é o mesmo,só que este é feito para umas terem sucesso e outras muito pelo contrário. Basta analisar os vários acordos de comércio livre para lá chegar.

  2. Hitler aplicou políticas keynesianas quando chegou ao poder? O Keynes era fascista, parece ser esta a lógica de José Manuel Fernandes. Na verdade, foram as políticas de austeridade do Chanceler Brunning, provavelmente o último democrata que ocupou a Chancelaria antes da vitória eleitoral de Hitler, que guindaram os Nazis ao poder. Só que infelizmente não é só JMF que debita tais opiniões. Pessoas respeitáveis no PSD e até no PS atacam quem quer que assuma uma posição euro-céptica contra esta Europa como alinhados com a Sra. Le Pen. Lembrar que os mecanismos de decisão democráticos ainda passam pelo voto popular nacional e que não existe uma democracia europeia mas sim um directório europeu no qual a França já nem conta nada, parece ser prova de um vigoroso reaccionarismo. Se a Esquerda abandonar a defesa da vontade popular contra os ditos directórios, essa bandeira será capturada pela Extrema-Direita, que lhe imporá o cunho nacionalista e xenófobo do costume…

  3. Depois do papel vergonhoso a que se prestou na propaganda à guerra no Iraque, o sr. JMF não pode ser credor do respeito intelectual do leitor quem consome informação publicada, e não raciocina no resto binário de “zeros” e “uns”.

  4. José Manuel Fernandes é o Karl Rove da nova direita portuguesa.Como dizem os psicanalistas pariseenses, a perversidade é pior do que o Mal! E JMFernandes refina e revela um obstinado fascinio pelos gurus que serviram Rumsfeld e GW Bush na cruzada diábólica contra o Iraque. Estudou milimetricamente o legado dos Neo-Cons USA- que já vai na Terceira Geração-e aglutinou toda a galera de sociólogos e politológos que foram crescendo sob o magistério de JC.Espada e Ramos.O projecto do Observador exibe e postula esse sonho: o de reconstruir uma Direita post-liberal e postada a executar os diktats dos inconfessáveis objectivos ideológicos de um ” wilsonismo marcial ” ,avatar monstruoso que dissimula uma vontade de poder sem limites nem preconceitos.

  5. Porque ´é que é para levar a sério (e é) um extremo e não é para levar a sério (e também é) o outro?…
    A Europa pós guerra foi construida ao centro, tanto esquerda como direita, com uma matriz de democracia formal representativa.
    Serem partidos com a mesma matriz criou os laços de confiança que aproximou os povos e os estados num projecto comum, a União Europeia.
    Não se entende como esta construção pode permanecer de pé, com um movimento centrífugo em torno de ideologias alternativas em extremos opostos, de matriz nacionalista.
    E que buscam apoios, politicos, militares e financiamentos em outras potências extra comunitárias.
    O modelo politico-social e económico da Europa está ameaçado pela subida, em vários graus, de opções extremas; mas isso só acontece (o “esvaziamento do centro”) porque o centro e os seus eleitores se deixaram convencer que que ser centro bastava, que não era preciso exigir responsabilidade e rigor, que se podia criar burocracia em cima de burocracia, formar comissão em cima de grupo, tolerar interesses cruzados em cima de corrupção, deixar andar a UE sem fazer avançar a UE, permitir várias vozes em vez de um perfil externo comum.
    Não se entende como não haverá um aumento da conflitualidade entre os estados ainda comunitários quando cada um for governado pela sua extremidade, quando vários estiverem em pontas soltas opostas.
    Porque é que é para levar a sério um extremo e é para levar a brincar o outro?
    Porque não é para levar a sério o que está na origem deste fenómeno de hipervalorização dos extremos: a desatenção desleixada com que se encara a falência e o esvaziamento dos centros?

    1. Não será antes que o modelo está a implodir por força da sua própria realização? O liberalismo conduz à desagregação social, à polarização económica, ao empobrecimento da maioria e ao desemprego estrutural. Como está bom de ver.

    2. O liberalismo é mau, mas o mundo, e Portugal em particular, já experimentou o anti-liberalismo e nao se deu bem. Qual é entao a soluçao ? Qual é o bom modelo que ainda está por descobrir ?

    3. A União Europeia não pode resultar, com ou sem Euro, se não houver transferência de riqueza entre regiões, por um período suficiente de tempo ( décadas ). E, não serão as escolhas políticas, mais à esquerda ou direita que podem determinar o sucesso económico e social da União. Uma União que não é uma União, uma tentativa de Federação que não é Federação, enfim, tudo a meio-caminho, em que as desigualdades são tantas ( e, não só a nível económico ), que vão determinar o falhanço do projecto. Tudo isto, num Mundo em que o 1º Mundo está a perder poder, riqueza e a envelhecer perigosamente.

      Mais vale reconhecer que o projecto tem falhas irreparáveis.
      Teremos que ter duas gerações a comer pão e cebola, sair do Euro e recomeçar.

    4. Nao é uma questao de dinheiro; Portugal tem recebido bastante dinheiro da Uniao Europeia; 22 mil milhoes a fundo perdido só no periodo 2007-2013 (2% do PIB em media anual) e vai receber outro tanto no periodo 2014-2020. É antes uma questao de bom governo, administraçao publica eficiente e investimento na qualificaçao das pessoas. É isto que faz toda a diferença para a sorte de um país.

    5. Importa distinguir entre o liberalismo clássico, cuja desconfiança em relação a um Estado omnipotente e omnipresente na economia (e em outros aspetos da vida social) foi plenamente justificada pelas experiências do chamado ‘Socialismo Real’, e a atual espécie de neo-feudalismo que pretende esvaziar o Estado de todas as suas funções, exceto aquelas que forem úteis aos interesses das mega-corporações que pretendem estabelecer-se como novos senhores feudais, desta vez a nível planetário. À falta de um modelo alternativo melhor, o capitalismo regulado de matriz social-democrata ainda é o modelo económico mais capaz de melhorar a vida das populações. A criação de alternativas viáveis a esse modelo que permitam que passar sem o carácter hierárquico inerente ao capitalismo é trabalho para a Esquerda Radical do futuro (Radical no seu sentido etimológico de raiz, fundamento), mas por agora, como defendia o malogrado Tony Judt, importa perceber como poderemos evitar mundos piores… Enquanto nos entretemos com a resolução da crise económica, somos confrontados com o problema muito mais grave do aquecimento global e da sustentabilidade do planeta no médio prazo…

  6. De facto já estou como diz o leitor Mário Pereira, “gabo-lhe a paciência para ler o Fernandes” e acrescento mais, não só lê-lo, perder tempo com ele. O JMF é dos “intelectuais” mais desonestos que conheci na comunicação social portuguesa, assim de momento não me lembro de um pior. Aliás, depois da questão da invasão do Iraque, das escutas do governo Sócrates a Cavaco, o JMF se tivesse um pingo de vergonha já tinha posto a “viola no saco” e pedido um outro emprego a um dos seus conhecidos que ele tanto bajulou. Por Amor da Santa, Francisco Louçã, escreva sobre outras coisas de onde possamos extrair algo de mais interessante, não gaste o seu “latim” com um tal JMF. O regime de Salazar e Caetano tinha a servi-lo tipos muito mais cultos e honestos que o JMF, aliás, quem é o JMF?

  7. Francisco Louçã, não sei como ainda se dá ao trabalho de ler e comentar artigos desse pasquim. O único cronista que se aproveita lá é o Miguel Tamen, veja lá a pobreza daquilo.

  8. Artigo interessantíssimo, com o qual concordo globalmente, mas aquela colagem de Angela Merkel a Marine Le Pen fica atravessada na garganta a qualquer pessoa de bom senso. Sai-se, e muito bem, pelo discurso racional, de uma caricatura efetivamente… caricata, para cair logo de seguida, e acriticamente (não ouso aventar irresponsavelmente), noutra, absolutamente impensável! É no entanto certamente possível criticar eficientemente Angela Merkel sem cair nesses exageros fáceis, a meu ver.

    1. Nenhum exagero, o argumento é este: se a Alemanha predomina na Europa sem contrabalanço, o discurso identitário em França vai reduzir Hollande e aumentar o peso de Le Pen. Como se verifica. Isto nunca aconteceu nesta proporção.

  9. “Só se vence o populismo com soluçoes … que resolvem as dificuldades das pessoas”, é certo, mas se o antídoto contra Le Pen fossem politicas de facilidade em materia de despesa publica, ou a reduçao por decreto das horas de trabalho, como a França conheceu desde os anos 80, então a França nao teria produzido o fenomeno Le Pen. Nao foi Merkel ou o euro que geraram Le Pen, e mal iria o povo francês se se deixasse iludir com falsos bodes expiatorios em vez de procurar soluçoes de bom senso para os seus verdadeiros problemas.

  10. O que menos importa ao Observador e aos seus cronistas, é o respeito pela liberdade e pela democracia.
    Não passa de um jornal de fascismo científico, disfarçado de um mero ‘think tank’ neoliberal inofensivo.

    Desenganem-se. Basta dar uma vista de olhos pela ficha técnica, para tirarmos logo qualquer ideia de democracia da cabeça.
    Parece uma lista de horrores.

    Não é por acaso que a direita e a direita reacionária os segue atentamente.

    Ao princípio pensei que aquilo não passava de uma oportunidade de negócio, para aproveitar o conservadorismo fascista escondido em Portugal.
    Mas enganei-me.

    1. Sem esquecer a forma como perseguem e anulam comentadores de esquerda, que ousem participar na discussão. Foi o meu caso.

  11. Ora vivas Sr Chico Louçã, tenho respeito e muita admiração do seu grande intelecto e da sua grande sabedoria .(não quero dar graxa , mas já pensei em vê-lo ou gostaria de velo, como primeiro ministro)
    Não sei ou não percebo , a relação politica ou ideológica entre si e a do Sr Bagão Félix .
    Preciso de comer muitos bifes para entender o que o sr bagão félix defende em relação há descriminação positiva, ainda me lembro quando este senhor, defendia a tal descriminação positiva, numa altura em que não se falava ou não se ouvia falar tanto, de crise económica.
    Não tenho nada contra as amizades que as pessoas teem, mas o sr Bagão, faz-me sentir um pouco ou tanto triste e isso deixa-me frustrado levando-me a uma depressão digna de se tratar no júlio de matos.

    1. Não há relação política e ideológica: simplesmente, respeito opiniões sólidas, concorde ou não com elas. E esse valor vale.

  12. É sintomático o facto de José Manuel Fernandes, “publisher” do “Observador”, fazer sempre eco de todas as ´”notícias” que o CM publica em títulos garrafais, em primeira página, relativas a possíveis acusações ao Sócrates.Os verdadeiros populismos da direita mais trauliteira sempre se encontram!

  13. Gabo-lhe a paciência para ler o Fernandes. Não é por as ideias dele serem de direita, é por não ter ideias nenhumas. E isso não é de agora, já vem do tempo em que ele era um radical de esquerda.
    Umas vezes parece a voz do dono, outras é só bajulador, mas quanto a ideias que valham a pena ser discutidas, nicles batatóides.
    A malta de direita gosta dele porque a direita portuguesa é, também nisso, o oposto da esquerda: cegamente unida.
    Ideias poucas, idealismos zero, a conversa deles resume-se aos malditos “mercados abertos e concorrenciais”, mas na versão portuguesa, muito bem caracterizada há mais de cem anos por Rafael Bordalo Pinheiro e que se resume a uma simples palavra: mama. Verdade seja dita que também há uma grande parte da esquerda, muito bem representada pelo PS, que também gosta muito.
    Quanto ao “ódio à democracia”, a esmagadora maioria das pessoas de direita em Portugal ainda suspira de saudades do Salazar…

  14. o “observador” destila ódio contra muita gente ,incluindo os citados acima,e tambem contra jornalistas deste jornal.Nesse jornal on line ninguem quer dialogar ,bem pelo contrario ,eles querem impor uma forma de pensar ou de fazer politica(alias,eles “explicam”..lá esta,eles são os donos da razão.).Na verdade o “observador” nasceu para fazer propaganda ao actual governo de Portugal.Na verdade,jornalismo populista já existe em Portugal,é o CM(outro que faz muita propaganda ao actual governo,porque será?)

    1. O actual governo manipula toda a comunicação social, caso contrário já teria caído há muito tempo e já teria parado de prejudicar tanto o nosso país. A RTP, a SIC, a TVI, a ETV, a CMTV é mais alguns só convidam pessoas e dão orientações para que os seus programas políticos sejam todos a favor do governo. Os jornais são a mesmíssima coisa…. basta abrir o CM, o DN, o E é mais alguns. Estamos mesmo entregues á mediocridade….

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