Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

24 de Março de 2015, 12:00

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A dívida da Alemanha à Grécia

indexNa conferência de imprensa de ontem, Merkel reafirmou que a Alemanha considera encerrada a questão das dívidas de guerra e Tsipras reafirmou que há uma “questão moral” não resolvida. O tom foi mais conciliador, mas o problema está colocado, seja em Atenas, seja em Berlim.

Como foi lembrado no PÚBLICO, o acordo de 1953 entre a Alemanha e os seus credores, permitindo uma gigantesca reestruturação da dívida alemã e garantindo as condições para a recuperação do país, não incluiu as reparações de guerra, que ficaram adiadas para um futuro tratado. Esse esse tratado só foi estabelecido em 1990, quando da reunificação das duas Alemanhas, e foi assinado com as potências aliadas de 45 anos antes, os EUA, a Inglaterra, a França e a União Soviética. Juridicamente, as autoridades alemães clamam que este acordo encerra a questão, mas essa não é a opinião dos Estados que nem participaram nessa negociação nem assinaram esse tratado. Reconhecendo esse problema, a Alemanha negociou em separado com a Polónia uma reparação, que foi paga.

Em 1960, tinha havido um acordo com vários países europeus, para o pagamento de indemnizações a vítimas da guerra. A Alemanha desembolsou então 71 mil milhões de euros (em termos da moeda de hoje), dos quais 57,5 milhões de euros às vítimas gregas, ou, como alguém disse então, 2,5 euros por cada dia em Auschwitz. No entanto, esse acordo não indemnizou o empréstimo forçado, ou seja a pilhagem do banco central grego, pelas autoridades nazis: 476 milhões de marcos da época, ou 11 mil milhões de euros hoje, pelos quais assinaram um título de dívida, que ainda vale.

Nesses anos 1960, o chanceler Ludwig Erhard garantiu mesmo que pagaria esse empréstimo quando da reunificação da Alemanha, porventura esperando que a promessa nunca tivesse que ser chamada à pedra. Mas houve a reunificação e o tratado de 1990, mas a dívida ficou por pagar.

A Grécia tem portanto razão do ponto de vista do direito internacional. É certo que o pagamento desta dívida não resolveria as suas contas públicas (outra coisa seria se fossem liquidadas as reparações de guerra). Mas significaria que a negociação seria diferente no tempo (os próximos meses estariam assegurados) e na relação de forças (a Alemanha ficou a dever durante 70 anos). E, o que não seria menor, a história seria corrigida segundo o princípio da responsabilidade.

Comentários

  1. Creio que o Francisco Louçã se refere ao “Acordo de Londres”, assinado a 27 de Março de 1953 (s.e.o.) pela Alemanha e 26 outros países (não: Portugal não entrou nisto). Cumps

  2. A Alemanha de Hitler também tinha um plano para os 1000 anos de paz após a vitória do Eixo – tinha o sugestivo nome de «Nova Ordem Europeia». Nesta Nova Europa, a Alemanha deteria, claro, o papel principal, enquanto as relações entre Estados evidenciariam as assimetrias percebidas entre o centro político (“nórdicos”, com a primazia da alemã) e as periferias (sobretudo fornecedoras de matérias-primas e mão-de-obra – onde se incluíam parte dos latinos e, descendo na escala “racial”, os eslavos)…
    O sonho pan-germânico do III Reich não foi adiante… mas a Europa, essa, viria a ter a entrar numa “ordem nova”: CECA, CEE e, após a reunificação alemã, na União Europeia! E, já se percebeu que por mais politicamente sofisticada, integrativa e centralizada que pretenda ser a “União” (deixando para trás antiquados preceitos “raciais” – não obstante, recordemos!, as polémicas declarações do Presidente do Parlamento, Martin Schulz, aquando a visita de Passos Coelho a Angola há 2 ou 3 anos atrás), a verdade é que a “ordem nova” da Europa prossegue com a grande e rica Alemanha mandando e as pobres periferias obedecendo… E, no caso de Portugal, não há Império e quase não há Atlântico, e, menos ainda um velha Aliança a ser jogada com o Reino Unido no contrabalançar dos poderes continentais europeus… Ah, que jeito daria termos um Reino Unido mais forte na Europa (não propriamente no directório burocrático da UE, antes na geografia alargada do EEE), porventura relançando politicamente ao atlântico a EFTA – e talvez a distribuição de poderes dentro da própria UE se fizesse de outra forma…
    É que por vezes a melhor forma de olhar para o futuro é melhor compreender o passado…

  3. Parabéns Dr. Louçã, por ter dado estas explicações.

    Muita gente pensa que esta exigência da Grécia é uma espécie de vingança. Mas não é.
    Este assunto é mais velho do que muitos dirigentes europeus actuais.

    Pode ter ficado esquecido, porque a Grécia apesar de ter sido um dos vencedores da 2WW, não foi tratado como tal. Aliás, foi abandonada aos fascistas, como se se tratasse de um país fascista neutro, como Portugal e Espanha.

    Quanto aos comentários maldosos, não ligue. 85% dos comentários na internet são de ódio. Normal por isso.

    1. Compreendo que há muitos comentários maldosos na net. Uns vem da direita e outros da esquerda. Alguns são de jihadistas, de xenófobos, de homofóbicos. Alguns de benfiquistas e portistas. Outros apenas porque sim. Mas 85%? Onde é que foi desencantar essa percentagem?

  4. Se os factos trazidos por Francisco Louçã no texto estão correctos, então tem razão nas suas conclusões. Se não tem, então seriam de esperar correcções, fontes mais fidedignas. Pena que quem discorda sejam uns poucos de psicopatas que nada de novo trazem à discussão.

  5. Os artigos do Francisco Louçã, o Syriza português, são de tal maneira tendenciosos que deveria ser impedido de debitar a verborreia que persistentemente verte no jornal Publico. Será que não há quem veja isto?

    1. Ser tendencioso, dogmático, propagandístico, falacioso, sugestionador, enfim, dotar-se de todos os artifícios e instrumentos retóricos que a linguagem oferece, é uma prerrogativa do autor para expor o seu pensamento, a sua crença, o seu sistema de valores. É um artigo de opinião – não um resultado de estudo científico – para o qual não se exige factualidade, objectividade, isenção, imparcialidade. Podemos concordar ou discordar, crer ou descrer. Silenciar nunca.

    2. Louçã é uma das raríssimas vozes lúcidas, informadas e inteligentes do espaço público deste país.
      Lê-lo é para mim fonte de informação fidedigna e acima de tudo pertinente.
      Obrigado Louçã por não desistir, nunca por favor.
      Artur
      (para os cínicos: não sou do BE e voto sempre em branco; não me revejo em nenhuma força política)

    3. E o sr. Pedro Silva teria capacidade de dizer o quê que neste artigo nâo é factual? Ou é apenas por o homem ser de esquerda? Faça o favor de compartilhar a sua clarividencia!

    4. As fontes factuais do artigo, citadas e linkadas para todos lerem, são o jornal Público e a revista The Economist. Percebo que elas incomodem, mas a vida é assim mesmo.

    5. Há, sim, há muita gente a ver “isto”, a ver que, em desespero, há já quem defenda abertamente a censura. Estes são, contudo, os mais estúpidos, não conseguindo esconder o jogo. Mas diz muito do ambiente instalado por este governo salazarento, convencido de que tudo lhe é permitido, mesmo gabar-se de que tem os cofres cheios com o roubo a crianças, velhos, doentes, a todos nós.

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