Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

23 de Março de 2015, 15:23

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É melhor levar a sério o que é a sério

Em França, a direita ganhou, mas a muito direita não ganhou e portanto o centro respira de satisfação, com a esquerda a contar menos ainda. O resultado deste descalabro é um falso alívio em França e na Europa (como certeiramente escreve hoje Rui Tavares).

O alerta já não é de ontem. Em 2002, o pai Le Pen foi à segunda volta das eleições presidenciais contra Chirac, eliminando Jospin, o candidato dos socialistas. Era um bufão, era uma relíquia do passado, a república juntava-se contra ele, disse-se tudo e o certo é que perdeu por muito. Anunciou-se então que a Frente Nacional nunca mais teria uma segunda oportunidade para criar a primeira boa impressão. Pequeno alívio e de curta duração.

le pen2Pois, se fosse assim, então porque é que a filha Le Pen ficou em segundo lugar nas eleições departamentais, antes ganhou as europeias (ver o gráfico com os resultados anteriores) e agora aparece como a melhor colocada nas sondagens para a primeira volta das presidenciais? Simplesmente porque a Frente Nacional está a polarizar uma parte do descontentamento popular, incluindo de eleitores de esquerda, está a desagregar a direita tradicional e está a enxugar o centro. Desse ponto de vista, o resultado de domingo é o melhor que Le Pen poderia esperar: não aparece como demasiadamente ameaçadora e a vitória de Sarkozy oferece-lhe o melhor adversário que poderia ter pela frente. Sarkozy, de facto, não será capaz de juntar os campos republicanos como no passado aconteceu com Chirac e, se a disputa presidencial for entre os dois, o segundo presidente mais desacreditado pode ainda ganhar mas fica contar os dias da degradação do sistema partidário. Todo o poder presidencial será pouca coisa. Perdido por cem e perdido por mil.

le penA crise do sistema partidário francês será a que terá maior impacto na Europa, não a de Itália, Grécia ou Espanha. E será crise, por duas razões. A primeira é que o PSF corre para a divisão e para o desvanecimento como alternativa de poder. Ela é muito provável, sobretudo se Hollande desistir de se recandidatar – uma séria hipótese, dadas as sondagens (Le Pen tem o tripla da intenção de voto de Hollande, veja ao lado o gráfico publicado pelo Financial Times). Nesse caso, Martine Aubry e Manuel Valls poderão criar dois partidos opostos. E, se Hollande for candidato, o mais certo é nem ir à segunda volta. Perdido por cem e perdido por mil.

A segunda razão é que Le Pen tem um seguro de vida, que não se chama Sarkozy: chama-se Merkel. A perda de papel da França na Europa e a secundarização da sua política e da sua economia geram um turbilhão identitário que a extrema direita tem polarizado. Enquanto a Europa se germanizar, para utilizar a certíssima expressão de Paz Ferreira, em França será a extrema-direita quem se candidata ao poder.

Comentários

  1. Porque ´é que é para levar a sério (e é) um extremo e não é para levar a sério (e também é) o outro?…
    A Europa pós guerra foi construida ao centro, tanto esquerda como direita, com uma matriz de democracia formal representativa.
    Serem partidos com a mesma matriz criou os laços de confiança que aproximou os povos e os estados num projecto comum, a União Europeia.
    Não se entende como esta construção pode permanecer de pé, com um movimento centrífugo em torno de ideologias alternativas em extremos opostos, de matriz nacionalista.
    E que buscam apoios, politicos, militares e financiamentos em outras potências extra comunitárias.
    O modelo politico-social e económico da Europa está ameaçado pela subida, em vários graus, de opções extremas; mas isso só acontece (o “esvaziamento do centro”) porque o centro e os seus eleitores se deixaram convencer que que ser centro bastava, que não era preciso exigir responsabilidade e rigor, que se podia criar burocracia em cima de burocracia, formar comissão em cima de grupo, tolerar interesses cruzados em cima de corrupção, deixar andar a UE sem fazer avançar a UE, permitir várias vozes em vez de um perfil externo comum.
    Não se entende como não haverá um aumento da conflitualidade entre os estados ainda comunitários quando cada um for governado pela sua extremidade, quando vários estiverem em pontas soltas opostas.
    Porque é que é para levar a sério um extremo e é para levar a brincar o outro?
    Porque não é para levar a sério o que está na origem deste fenómeno de hipervalorização dos extremos: a desatenção desleixada com que se encara a falência e o esvaziamento dos centros?

  2. A direita e ou extrema-direita, na maioria das vezes ganham por que são fortes e organizados. Dois processos que a esquerda e ou extrema-esquerda, por vezes não coneguem ser e, quando conseguem é por curto prazo. Quando há uma bandeira para carregar ao ombro que seja para todos da equipe. Uma bandeira solitária, na maioria das vezes não sobrevive entre os leões!

    1. Claro que a França tem esquerda, o PS ganhou as últimas eleições. O problema é que o Hollande chegou ao poder e iniciou a auto-destruição do partido, como a mairoia dos partidos de centro-esquerda na Europa têm feito. Porquê? Porque as políticas económicas de centro-esquerda são hoje em dia ilegais na União Europeia, por tratado. É literalmente ilegal governar à esquerda na Europa.

      Ao longo das últimas decadas, e especialmente nos últimos anos, a direita (na sua variante germânica, não tanto a anglo-saxónica, e muito menos a católica-conservadora dos nossos arredores) conseguiu impor a sua idealogia nas leis básicas da zona Euro sem sequer se ter dado ao trabalho de ganhar um mandato democrático para o fazer. A esquerda pró-europeia (em que eu normalmente me revejo) rendeu-se totalmente. O Syriza é o único partido de poder neste momento que está a enfrentar de frente este problema (e a falhar completamente), e parece-me que o Renzi está a tentar subverter as leis sem as alterar, mas de resto é uma vitória esmagadora da direita.

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