Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

22 de Março de 2015, 08:10

Por

A sedução das palavras

Hoje deu-me para jogar com palavras. Um jogo que gosto de praticar. Porque gosto de desfrutar a curiosidade de as testar, de as seduzir. Porque a palavra – num “paralelismo à Ortega y Gasset” –  é ela e a sua circunstância. Com lógica e paradoxos. Com musicalidade e fantasia. Sempre poliédrica, sempre convidando-nos a descobrir um qualquer sentido do outro lado do biombo de cada uma das palavras. Uma espécie de “segunda derivada” lexical.

Por que razão quando desfalecemos, não ressuscitamos? Será que antes estávamos falecidos?

Por que razão chamamos úteis aos dias de trabalho? Será que os outros são inúteis?

Por que razão se diz de uma certa pessoa, que ela é muito humana? Será que há quem só seja animal?

Por que razão dizemos que quando alguma coisa ficou em pedaços, o negamos dizendo que ficou despedaçada?

Por que razão se diz que fazemos a barba quando a deixamos de ter? Será que, quando a deixamos crescer, a desfazemos?

Por que razão, os contribuintes ou pagadores de impostos são, na lei fiscal, chamados sujeitos passivos? Será que os sujeitos activos são os especializados em evasão ou fraude tributárias ou – para usar uma expressão tecnocrática – os que fazem um planeamento fiscal agressivo?

Por que razão insistimos, neste tempos de crise, em falar do país real? Será que é uma nostalgia sebastiânica?

Por que razão se diz “daqui a oito dias” para significar uma semana e “daqui a quinze dias” (oito mais sete) para significar duas semanas?

Por que razão se diz que um casal se desquitou, quando queremos dizer que se quitou?

Por que razão se diz que ao descair, voltamos, afinal, a cair?

Por que razão há quem diga redobrar para multiplicar por 2, sendo que está a multiplicar por 4?

E será que com o aquecimento global, quando o Oceano Índico subir, o Bangladesh?

E será que, em termos de género, blasfémia não deveria ser, às vezes, “blasmacho”?

Comentários

    1. No caso de despoletar é mesmo um erro. Por isso, desencadear é sinónimo de espoletar.

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