Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

21 de Março de 2015, 10:02

Por

O desabafo de Miguel Torga em 1992. E nós, em 2015?

getimageHoje, volto literalmente a “Tudo Menos Economia”. Literalmente e literariamente. Através da escrita de Miguel Torga. Escrita profunda, telúrica, desassombrada, límpida, questionante, genuína, radicalmente livre. O pseudónimo Torga reflecte, aliás, a sua verticalidade granítica, pois que é o nome de uma urze bravia, de fortes raízes incrustadas na dura rocha e com um caule imponentemente rectilíneo.

Diário XVI, 19 de Março de 1992: “Ninguém me encomendou o sermão, mas precisava de desabafar publicamente. Não posso mais com tanta lição de economia, tanta megalomania, tão curta visão do que fomos, podemos e devemos ser ainda, e tanta subserviência às mãos de uma Europa sem valores, incapaz de entender um povo que nela sempre os teve e com eles espiritual e singularmente a dignificou

Passados 23 anos, este texto de Torga continua a fazer-nos pensar. Ainda mais.

 

Comentários

  1. A escrita de Torga coloca-me no tempo e no lugar da narrativa de modo em que me sinto testemunha imediata dela. Deixo de dar conta da escrita impressa no papel, como se tratasse de uma transmissão directa de ideias e representações.

    Em a “Criação do Mundo”:

    ” – Está resolvido. Vais até ao Brasil.

    Mas quando íamos a Paradela tratar do caso – tirar dinheiro a juros, e ver se um de lá me levava e arranjava emprego – , encontrámos o senhor prior que vinha dum enterro em Gouvinhas. Parou o cavalo, meteu conversa, quis saber o destino que levávamos, e meu Pai foi-lhe franco.
    – Tolo!- disse, meio zangado. -Porque não me falaste há mais tempo? Empenhar-te, para quê? O Brasil é em Lamego, no seminário!”

    Entretanto, desde a criação do mundo, muita coisa mudou: Os partidos políticos passaram a ser o novo Brasil e a cumprir o papel dos seminários. Os “seminaristas” são da mesma estirpe e, em boa verdade, eternos; aqui e em toda a parte: para quem lê no relato de Torga uma evidência do provincialismo típico português, temos para o desmentir a escolha de Julien Sorel entre o vermelho da farda militar e o negro da batina.

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