Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

2 de Março de 2015, 10:00

Por

Os bancos maus desta Europa

Não são só os bancos portugueses que se metem em sarilhos. Por exemplo, na Alemanha, em 2008, o principal banco público da Baviera (Bayern LB), com activos perto de 6 vezes a dimensão do Novo Banco, teve de ser salvo com dinheiros públicos (injecção de capital de 10 mil milhões de euros e garantias de 4,8 mil milhões de euros).

Esse banco tinha uma filial na Áustria – o banco Hypo Alpe Adria – que registava enormes perdas resultantes de empréstimos no leste da Europa e nos balcãs. O Hypo Alpe Adria, com activos de cerca de 60% do Novo Banco, teve de ser nacionalizado pelo governo Austríaco, tendo este injectado 1,4 mil milhões de euros em 2008 e 2009.

Em Outubro de 2014, após a venda de subsidiárias noutros países, o nome do banco foi alterado para “Heta Asset Resolution”.

Contudo, este fim-de-semana foi conhecido que o auditor do “Heta” detectou um buraco adicional de 7,6 mil milhões de euros. O governo Austríaco já veio dizer que não vai injectar mais capitais públicos no “Heta”apesar deste ser um “banco mau” 100% público. Ou seja, vai aplicar a um banco público um processo de resolução bancária – vulgo “bail-in” – em que os principais credores vão ter os seus créditos (empréstimos obrigacionistas) convertidos em acções.

O interessante é que o governo de um país “rico” – a Áustria, que regista uma dívida pública de 87% do PIB, era um dos poucos países com rating máximo AAA, tendo a Fitch baixado o rating em Fevereiro de 2015 (as duas outras agências de rating já o tinham retirado em 2012) – opta por não meter nem mais um tostão de dinheiros públicos num banco 100% público.

A comparação com o caso português é irresistível embora haja diferenças: com uma dívida pública de cerca de 128% do PIB, saído de um duro processo de financiamento da troika que deixou fortes sequelas na sociedade e na economia, o Banco de Portugal com o apoio do governo português não hesitou em meter 3,5 mil milhões de euros no Novo Banco, o governo prorrogou garantias estatais de idêntico montante por um ano, tendo ainda governo e Banco de Portugal decidido privatizar o Novo Banco o mais cedo possível.

Será que é só uma questão de culturas diferentes?

Comentários

  1. Concordo. Mas não percebo como ainda escreve que um banco “teve de ser salvo”, outro “teve de ser nacionalizado”. Foram salvos, nacionalizados. Foram decisões políticas que poucos questionaram na altura.

    Isto só vai acabar quando considerarmos os bancos empresas como as outras, que passam de vez em quando pelos processos schumpeterianos de destruição criativa. Graças ao Bundesbank temos na UE hoje uma espectacular cascata de responsabilidade: accionistas, credores, grandes depositantes. Só falta responsabilizar os administradores.

    1. Concordo em parte com o seu comentário. Foram de facto decisões políticas. Deveriam ter adoptado processos de resolução bancária.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo