Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

28 de Fevereiro de 2015, 09:05

Por

Aristóteles tão actual

Captura de tela 2015-02-27 10.06.54Ainda a Grécia. Neste caso, a clássica. Aristóteles – sempre hodierno e pedagógico – deixou-nos na obra Retórica a sua tese sobre a argumentação. Fê-lo com base em três conceitos: Ethos, Pathos e Logos.

Ethos que se exprime numa argumentação radicada no carácter do orador. Diríamos hoje, baseada numa praxis de valores, princípios de conduta e virtudes. Através do ethos, o discurso torna-se digno de confiança e de credibilidade. É a consagração da retórica por via da personalidade do comunicador.

Pathos significa uma retórica centrada na emoção, no estado emocional do auditório. Aquilo a que hoje associamos o dom do carisma e da capacidade de convencimento, através da inteligência emocional e da persuasão por via dos sentimentos que induzam à receptividade de quem ouve. Se for exclusivo na retórica argumentativa, o pathos pode degenerar facilmente em manipulação e demagogia.

Diferentemente do ethos, centrado na pessoa do comunicador e do pathos, percepcionado do lado do receptor da comunicação, o logos valoriza a própria comunicação e argumentação. Apela por isso à razão, à logica e estruturação da linguagem e à solidez baseada no saber e no conhecimento.

É bom regressar a esta profunda actualidade aristotélica e percebermos o que se está a passar comunicacionalmente no mundo contemporâneo. Na coisa pública, sobretudo, mas não só. E observarmos como é escassa a conjugação plena do ethos, pathos e logos em tanta e prolixa argumentação que nos invade o dia-a-dia. E como escasseiam os exemplos e as personalidades que preencham estes três requisitos, com a inteligência e sensatez da razoabilidade. Ou, em política, como se faz a diferença entre um vulgar político, um esforçado líder e um denso estadista.

Com base nestas três exigências aristotélicas da boa retórica argumentativa, podemos imaginar uma matriz com todas as suas combinações possíveis. Convido-me e convido cada um dos leitores a preenchê-la com personalidades de ontem, de hoje ou de sempre

Captura de tela 2015-02-27 10.11.48

Por mim, seja-me permitido apenas exemplificar a parte da matriz relativa à plenitude do ethos, do pathos e do logos com uma pessoa bem marcante nos tempos de agora: Papa Francisco.

Comentários

  1. Concordo plenamente na análise efetuada, creio que os valores pessoais estão subvertidos; Os modelos escasseiam, e de um modo geral os cidadãos não encontram referências que verdadeiramente sirvam de farol, no meio das águas agitadas. A verdadeira liderança pelo Ser para o Ser, na minha opinião, deveria ser também uma ambição política; Infelizmente não é isso que tenho assistido. Portugal poderia ser um país efetivamente melhor.

  2. Gostei do artigo! Explicação muito clara, com a vantagem de ser sintética. Tenho curso de Filosofia, mas não foi esse o caminho que segui profissionalmente. Não sei se foi acertado. Foi fruto de condicionalismos. As escolhas são sempre limitativas. Mas permanece a formação e o interesse. Concordo com o exemplo que usou. O papa Francisco reúne as três vertentes em que se baseia a argumentação segundo Aristóteles. Dos políticos actuais, poucos fazem o pleno. Eu escolheria Bagão Félix como uma das poucas personalidades, que também o atingem!

  3. É absolutamente fundamental educar, instruir, informar os cidadãos sobre as técnicas e estratégias de comunicação de massa tendo por objectivo uma comunidade mais esclarecida e crítica. É do interesse público formarmos cidadãos com competências adequadas à desconstrução da retórica demagógica, manipuladora; cidadãos capazes de fazerem a guerrilha semiológica proposta por Umberto Eco. É absolutamente decisivo.

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