Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

16 de Fevereiro de 2015, 13:45

Por

Guerra civil, ”guerra híbrida”, ou ambas?

Na Ucrânia, há muitas dúvidas sobre o conflito no leste do país e sobre a forma como o governo ucraniano tem agido. De acordo com notícias vindas a público, o exército ucraniano sofre deserções e quebras de disciplina em massa, tendo o parlamento aprovado recentemente uma lei que permite aos oficiais disparar sobre desertores i.e., em teoria, matar arbitrariamente e na hora quem procurar desertar do exército – prática bárbara que se pensava há muito abandonada por exércitos de países civilizados.

O governo de Kiev, apesar de ter convocado 78000 homens entre 18 e 60 anos (entre 50 e 60 é facultativo), não tem conseguido atingir os objectivos de recrutamento de soldados, porque muitos não comparecem às chamadas e desertam para países vizinhos – para a Rússia, em particular. Há protestos tensos nas aldeias contra o recrutamento obrigatório de maridos e filhos.

Kiev estaria, inclusive, a pensar introduzir o serviço militar obrigatório para mulheres entre 20 e 50 anos.

Um jornalista de televisão ucraniano, muito conhecido, Ruslan Kotsaba, foi preso, acusado de traição – o que poderá resultar numa pena de prisão de até 15 anos – por ter colocado um vídeo no youtube, que foi visto 300 000 vezes, em que é citado a afirmar: “prefiro ir para a prisão por me recusar a ser recrutado para o exército do que começar a matar os meus ‘concidadãos que vivem no leste’”.

O Presidente da Ucrânia, Poroshenko, afirma que irá introduzir a lei marcial, se o cessar fogo, acordado em Minsk, falhar.

Alguns membros do parlamento de Kiev procuram inclusive demonstrar a todo o custo, recorrendo a fotografias falsas, que se trata de um conflito entre Ucrânia e Rússia.

E surgem dúvidas, por exemplo neste artigo da BBC, se algumas das mortes nos protestos que levaram à queda do anterior governo pró-russo de Kiev, não teriam sido causadas por elementos que pretendiam uma mudança de governo e que apoiam o actual governo.

Para o governo de Kiev, o conflito não é uma guerra civil. O governo não declarou guerra contra um país vizinho, mas queixa-se da agressão da vizinha Rússia. E, é muito provável que as notícias que referem a presença militar russa ou o apoio militar russo no leste da Ucrânia tenham fundamento, num tipo de guerra designado por “guerra híbrida” (“hibrid warfare”).

Que tipo de conflito é este?

 

 

 

P.S.- Em aditamento ao post anterior, chama-se a atenção para este artigo na revista Der Spiegel, em que alguns ex-responsáveis dos EUA e da Rússia argumentam que os riscos de um conflito nuclear entre Ocidente e Rússia são na actualidade mais elevados do que durante a guerra fria.

 

Republicado a 17.2.2015, 21:30: Corrige texto e acrescenta link

Comentários

  1. Escreve o senhor Ricardo Cabral no início do segundo parágrafo o seguinte: “O governo de Kiev, apesar de ter chamado todos os homens entre 18 e 60 anos”. Isto não é uma opinião do autor. Deveria ser um facto mas é uma mentira. Ou seja, os responsáveis do Público querem acabar de vez com a pouca credibilidade que ainda resta ao jornal dando guarida a pessoas mentirosas. Uma coisa é respeitarmos opiniões e eu faço por isso. Outra é engolirmos mentiras e isso eu não faço. Não há por aí nenhum jornalista que possa confirmar esta chamada em massa de todos os ucranianos com idade entre os 18 e os 60 anos e depois disso corrigir o texto?

    1. Sr. Rui Ricardo,

      Várias fontes referem o recrutamento de ucranianos entre 18 e 60 anos. A Newsweek, no link indicado pelo Emanuel Fernandes, que eu também citava no meu artigo original, mas também a RT.com, por exemplo, (http://rt.com/news/224347-ukraine-mobilization-intensified-shelling/), que se refere ao recrutamento de reservistas (entre 25 e 60 anos).

      Reconheço que o meu texto pode induzir em erro e, por isso, substituí a palavra “todos” por “convocado 78000 homens entre 18 e 60 anos (entre 50 e 60 é facultativo)” indicando a respectiva fonte. Segundo a citação que tinha utilizado da Newsweek (http://www.newsweek.com/ukraine-armed-forces-set-call-female-citizens-aged-20-50-new-recruitment-cycle-304276), o governo ucraniano pretende recrutar 200.000 soldados em 2015.

      Agradeço, por isso, o seu comentário. Mas o insulto é desnecessário.

  2. A grande maioria dos portugueses desconhece por completo essa realidade. Por isso é com agrado que leio o seu artigo, que nos dá a conhecer o outro lado. Coisa rara nos media portugueses..

  3. ufa, depois de ler este artigo fiquei mais descansado.
    Afinal, ao contrário do que a imprensa livre e independente anda por aí a apregoar, não é o Putin que anda a expandir o império russo (a crimeia, a georgia, a ossétia e a abekazia foram, certamente, apenas episódios), é a Alemanha, que esquece a sua vergonha do nazismo, e que colocou uns nazis no poder, incluindo um perigoso fabricante de chocolate como presidente.

    antes ainda vacilava, mas agora não tenho dúvidas: Putin merece o nobel da paz. Ou dois. Ou um por cada “província” recuperada. E deveria mandar umas nukes para cima de kiev, só para os gajos da maidan saberem que não se brinca com a URSS, perdão, com a Rússia

    Mas, espera: o Putin não é comuna. É qualquer coisa ditatorial que se eterniza, mas de comuna apenas replica o estatismo da URSS. Tipo “estaline com facebook”. Ora bolas, e eu a imaginar uma marcha triunfal de proletariado. Raios. Não faz mal. Peço ali ao komite para abrir uma excepçãozita

    1. A ingestão massiva de ” imprensa livre e independente” dá nestes comentários. Mas é carnaval ninguém leva a mal.

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