Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

6 de Fevereiro de 2015, 22:11

Por

Xeque-Mate?

 

“”Tit for Tat” (“olho por olho”) é uma expressão em inglês que quer dizer retaliação equivalente. É também uma estratégia altamente eficaz na teoria dos jogos para alguns tipos de jogos dinâmicos. A estratégia foi introduzida pela primeira vez por Anatol Rapoport em dois torneios realizados por volta de 1980. Provou ser a estratégia mais simples e mais bem sucedida.” Fonte: Wikipedia.

 

Karl Whelan publicou um novo post em que cita Yiannis Mouzakis dizendo que toda a gente deve “manter a calma” e que o BCE está apenas a mostrar os seus músculos. De acordo com ambos, a decisão do BCE de deixar de aceitar dívida pública da Grécia é uma forma de aumentar a pressão sobre o governo grego, mas não altera nada de substantivo.

Na minha opinião, como o novo governo grego estava com muito élan e a ganhar simpatia da opinião pública europeia, foi uma forma de o chamar à terra e dificultar-lhe a vida. Mas tem consequências muito sérias. Se o governo grego não conseguir alterar o estado das coisas, o sistema bancário grego entrará em breve em colapso e o governo ver-se-á forçado a introduzir controlo de capitais.

O BCE fez com o novo governo grego na quarta-feira à noite, o mesmo que antes tinha feito com os governos da Irlanda, Itália, Portugal, Espanha e Chipre. Todos esses governos cederam perante a ameaça do BCE de cortar o financiamento ao sistema bancário do respectivo país.

Essa ameaça do BCE tornou-se no “pau” que obriga os governos dos países membros a adoptar as estratégias de austeridade (“condicionalidade estrita”), misturando, em minha opinião, de forma perigosa, política monetária e política de estabilização do sistema financeiro, com política orçamental pública do país membro afectado.[1]

O conselho de governo do BCE tomou a decisão de forma pouco simpática: com o ministro das finanças grego Varoufakis ainda em “roadshow” pelas capitais da Europa; fora de casa; no mesmo dia em que falou com o presidente do BCE, Mario Draghi; e na véspera da reunião mais importante do seu percurso pelas capitais da Europa – com o ministro das finanças alemão. A decisão do BCE condicionou à partida essa reunião colocando ainda Varoufakis à defesa.

Como a maior parte dos gregos não está a par dos detalhes da decisão de 4 de Fevereiro do BCE, muitos poderão ser tentados, na dúvida, a levantar os depósitos bancários, como referi aqui ontem. E essa poderá ter sido a intenção por detrás do anúncio do BCE: aumentar a pressão negocial para levar o governo grego a aceitar as condições de mais um resgate e a continuar com a austeridade.

A decisão do BCE pode ser analisada no âmbito da teoria de jogos. Não vamos questionar aqui quem fez o primeiro “tit”. Pode ter sido o governo grego ao anunciar que não queria a troika em Atenas, ou simplesmente ao dizer que queria negociar com os seus parceiros da UE. Porém, o “tit” ou o “tat” do BCE foi feito com altifalantes de alta potência – subiu muito a parada – em relação à eventual primeira jogada de Atenas.

O governo grego tem agora duas hipóteses, ou faz um gesto (um “tit”) cooperativo, para induzir um “tat” cooperativo por parte das instituições de governo da União Europeia, o que significa que teria de recuar…

Ou considera que quem tomou a primeira atitude não cooperativa foi o BCE e retalia com um gesto não cooperativo (“tat”), agravando a dimensão da crise.

A responder, o governo grego deveria fazê-lo antes de 11 de Fevereiro[2].

Por conseguinte, na minha opinião, os próximos dias serão determinantes para o que vai ocorrer na crise grega.

Este é um jogo duro e, certamente, muita informação não vem a público.

 

 

 

P.S.- Já após ter escrito este post, o presidente do Eurogrupo disse esta noite que o governo grego deve apresentar um pedido de prorrogação do actual programa de resgate até 16 de Fevereiro, sem o que o actual pacote de resgate terminará no fim de Fevereiro.

Xeque-mate?

 

 

[1] Os Tratados Europeus não prevêem que o BCE possa ter essa função nem prevêem qualquer relação entre essas políticas económicas.

[2] A 11 de Fevereiro os bancos gregos têm de aceitar de volta a dívida pública grega que entregaram ao BCE, i.e., portanto a resposta grega deve ocorrer antes da introdução da nova forma de financiamento da banca grega: “Emergency Liquidity Assistance”.

Comentários

  1. Pingback: Recuo ou avanço?
  2. Não sei no que acreditar, ontem (quinta), o Krugman disse que não era financiamento muito relevante.
    De resto, isto é brincar com o fogo, não me parece que o Syriza concorde que sair do Euro era pior do que continuar a brincar à economia.

    1. Muitos peritos dizem que não é relevante. Mas se não é relevante porque foi tomada a decisão?
      Parece-me uma decisão que foi bem ponderada (e suportada por contas). Embora não leve imediatamente ao colapso da banca grega parece-me que isso pode vir a ocorrer em questão de poucas semanas, se o governo grego não tomar medidas no muito curto prazo.

  3. É o que dá oferecer á Banca privada e aos Bancos Centrais, que constituem um círculo fechado independente, a gestão monetária e criação do dinheiro, que eles utilizam em proveito próprio, assumindo-se assim, duma penada, como donos do dinheiro que circula na Economia, logo, donos de todos nós… Passamos assim a ser simples marionetas nas mãos de “meia dúzia” de Psicopatas Parasitas Mundiais que multiplicam massivamente o seu Capital á custa dos outros tornando-se os “donos disto tudo”….Enchem a economia de crédito com dinheiro que sacam do chapéu, feito de ar e vento, mas depois querem de volta dinheirinho real, feito á custa de trabalho ou de bens e propriedades de todos nós….A criação de dinheiro é um processo tão simples e fraudulento para com as populações em proveito da banca (privada), que as pessoas rejeitam a ideia.

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