Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

4 de Fevereiro de 2015, 22:05

Por

O ultimato tecnocrático à Grécia

Defendi (num post de 10 de Setembro de 2014) que uma das fontes de poder mais absoluto nas democracias ocidentais e na zona euro, em particular, pertence aos bancos centrais independentes e, especialmente, ao Banco Central Europeu (BCE). As suas posições sobre a Grécia são, a meu ver, bastante elucidativas desse poder. Sob a capa da isenção, a tecnocracia do BCE age, em muitas circunstâncias, de forma discricionária e arbitrária.

Um membro do Conselho do BCE e o seu vice-presidente afirmaram, recentemente, que as regras vigentes “obrigam” a interromper o financiamento à banca grega, após 28 de Fevereiro de 2015. O BCE informou ainda que não autoriza que o novo governo grego emita mais 10 mil milhões de euros de “bilhetes do tesouro” – para se financiar enquanto negoceia a reestruturação da dívida com as instituições europeias – porque tal ultrapassaria o limite definido (arbitrariamente) pelo BCE (de 15 mil milhões de euros segundo o Financial Times, ou de 3,5 mil milhões de euros, segundo a Bloomberg).

Um membro do Conselho Executivo do BCE havia já referido, no início de Janeiro, que a Grécia não pode entrar em incumprimento em relação à dívida ao BCE, porque tal violaria os Tratados Europeus. Defendi num post anterior que essa posição era manifestamente incorrecta.

Falam em “mercados” mas parece que é o BCE que está por detrás a puxar os cordelinhos…

Karl Whelan, professor no University College Dublin (na minha opinião, um dos principais especialistas de política monetária da Europa) escreveu um post muito interessante onde desmonta e critica os argumentos utilizados pelo BCE.

A mensagem de Karl Whelan é essencialmente a seguinte: o BCE faz o que quer, define e altera as regras como e quando bem entende; o que decide é arbitrário e discricionário; pode, de um dia para outro, se desejar e sem ter de fundamentar, excluir um qualquer banco de acesso à liquidez do Eurosistema. Evidentemente, qualquer banco comercial fica com receio do BCE.

Karl Whelan demonstra que a interrupção de financiamento do Eurosistema à banca grega a 28 de Fevereiro, só afectaria uma parcela  relativamente pequena (14%) do financiamento à mesma banca, parcela[1] que estima em 8 mil milhões de euros quando o financiamento do Eurosistema à banca grega ascendia a 56 mil milhões de euros, no final de Dezembro de 2014.

Acresce que há ainda 25 mil milhões de euros de dívida emitida por bancos privados, mas garantida pelo Estado grego. Esse foi um esquema pouco transparente e de subterfúgio, arbitrário por conseguinte, encontrado no passado para garantir liquidez ao sistema bancário grego. O BCE, em Março de 2013, decidiu que a dívida bancária com garantia pública deixaria de ser aceite a partir de Março de 2015, mas a escolha de tal data não foi acidental (já se sabia na altura que o programa de resgate à Grécia terminaria em Fevereiro de 2015 e o objectivo seria, muito provavelmente, condicionar as negociações de um outro pacote de ajuda).

Mas, mesmo que assim não fosse, tudo isso são detalhes que serão perdidos nos títulos das notícias e nos mercados. O mero anúncio do prazo provocará o pânico e corridas aos bancos no final de Fevereiro de 2015. O BCE sabe isso muito bem…

Na minha opinião, por conseguinte, o BCE, ao definir o prazo de 28 de Fevereiro para interromper o financiamento à banca grega, estará a fazer um ultimato ao governo grego para “forçar” o acordo com as instituições de governo da União Europeia.

Fonte do BCE disse: “O BCE vai jogar de forma dura”. Na realidade não vai jogar, já tem estado a jogar há algum tempo de forma muito dura.

Em suma, embora argumentando que o governo grego está a jogar duro nas negociações com a União Europeia, quem está a fazer os ultimatos, arbitrários, disfarçando-os de regras, são as instituições de governo da União Europeia, e o BCE, em particular.

Um papel inaceitável em democracia.

 

 

 

P.S.- Esta noite, cerca das 20:00h, o BCE mudou de ideias em relação ao que tinha anunciado a 31 de Janeiro, quebrando o acordo que existia até a data e, na minha opinião, não cumprindo as regras que tinha anteriormente definido: o BCE informou que deixaria de aceitar imediatamente dívida pública grega como colateral em operações de cedência de liquidez porque, argumenta, não se pode assumir que o programa de resgate será concluído com sucesso, apesar de ter sido anteriormente assegurado à Grécia um prazo até ao fim de Fevereiro.

Aqui está o poder absoluto em demonstração…

 

 

[1] Esta parcela corresponde à dívida pública grega entregue ao Eurosistema como garantia (colateral).

Comentários

    1. a única coisa que admira (ou espanta )
      é como ainda não havia pessoa quem tivesse dado por isso :: mas as admirações são todas assim
      “classes” a banhos

  1. O BCE na defesa de quem trabalha?! Muito trabalharam os Espiritos Santos Salgados deste mundo para merecerem a solidariedade do povo trabalhador!

  2. Ao menos em Jerusalém existe um “muro das lamentações”
    aqui , está-se na “mão de directores” ; educação moderna, claro – “classes”

  3. qual colateral . agarranço
    bullying de banqueiro ; meditação assoberbada
    que era de esperar à “mesa de directores” ; O tour sexy de varoufakis foi “‘ ‘terrompido”
    antes tivesse levado a loira – abria horizontes ; detalhes contam

    1. o bce não
      se preocupada com a democracia (coisa q “não tem valor”)
      aquilo é um convénio de gente (es)correta – não gostam de perder dinheiro
      o poder tem que estar com quem sabe – e eles sabem :: está nas variáveis; logo as variáveis “são organizadas”..

  4. Temos um país caloteiro que não quer pagar dívidas e a culpa é do BCE?
    Graças a deus que o BCE age na defesa de quem trabalha e poupa, contra os CALOTEIROS.

    (Aqui se vê a qualidade dos economistas da esquerda venezuelana que temos em Portugal.)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo