Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

30 de Janeiro de 2015, 12:05

Por

Voltou a carreira do autocarro 80

os 80 mais ricos Nas vésperas da “cimeira” de Davos, a Oxfam publicou o seu relatório sobre a riqueza no mundo. A conclusão foi citada pela imprensa internacional: se, em 2010, era preciso juntar a nata dos 388 bilionários mais ricos para alcançar o valor detido por 50% da população mundial, os mais pobres, agora bastam 80 para fazer a festa.

O gráfico, ao lado, indica a evolução desta comparação (o gráfico foi preparado pelo Guardian, com base em dados da Oxfam e da Forbes, clique para ampliar). Como se verifica, houve uns tempos perturbados, depois do crash de 2007, mas as coisas voltaram logo ao normal e atinge-se agora um nível de concentração de riqueza que era desconhecido até agora. Como disse a senhora Lagarde, directora do FMI, no ano passado, os detentores de um riqueza equivalente a metade do mundo cabiam num autocarro de Londres (eram 83 no ano passado, este ano nem precisamos de 3 deles para alcançar o número mágico).

O Economist questionou estes cálculos. No segundo gráfico, à esquerda, está a indicação da revista (desta vez a partir da Oxfam e do Crédit Suisse) da comparação entre os 1% de cima e os 99% de baixo – quase inequalityninguém contra quase todos. E indica-se a tendência de evolução. A partir deste ano e do próximo, os poucos passarão a ter mais do que os 99%. No entanto, com o gráfico da direita, o Economist deita água na fervura: ele regista, segundo o académico Branko Milanovic, quanto ganhou cada decil da população mundial entre 1998 e 2008. De facto, nestes cálculos, os de cima (os que estão na parte direita, próximo do valor 100 da escala horizontal) ganharam mais 60%, enquanto os mais pobres, os que estão próximo de zero, ficaram com mais 20% do que tinham. Mas os “médios” aumentaram o seu pecúlio e também beneficiaram destas duas décadas.

Só que estes dados mal consideram o que se passou desde a crise financeira (só vão até 2008), o desemprego dos trabalhadores qualificados e jovens, a austeridade e as transferências de rendimento com a valorização dos mercados financeiros. Portanto, voltamos ao mesmo.

No autocarro 80 cabe o valor da “riqueza” de metade da população do mundo, mais de três mil milhões de pessoas. A continuar esta tendência sem freio, bastará um dia um tuk-tuk para levar metade do mundo.

Comentários

  1. Pena que as circunstâncias da vida do tempo e do espaço não tenham proporcionado ao Francisco Louçã intervir diretamente no actual espaço politico nacional e europeu. Uma viragem destas não se faz sem um lider carismático. Considere a hipótese de voltar a liderar o BE. Em Portugal só assim haverá esperança para um movimento de esquerda com força

  2. 1% da população tem cerca de 50% do planeta, portanto ser rico é demasiado caro ao planeta e nada tem de económico. Se eliminarem esses ricos o resto da humanidade passa a ter acesso ao dobro do que tem hoje. Ser rico não é económico, é ser um destruidor de economia.

    Como é fácil de se observar pelos resultados, mercado nada tem a ver com economia, é apenas uma forma dos delinquentes da feira se apropriarem do que existe. Como é que a universidade não tem vergonha de, ao mesmo tempo, mostrar os resultados do assalto mercantil e depois dizer que o mercado é uma actividade que faz parte da economia?
    Obviamente que a universidade continua a fazer o seu papel tradicional que é desinformar a população, para que os poderosos abusem dela. Antes dizia que deus era um rei e deveriam obedecer aos reis e lutar nas guerras; agora diz que mercado é economia e que a população deve obedecer aos delinquentes mercantis (os ditos investidores) e servir nas empresas mercantis.

    Portanto a questão não é o resultado do mercado, a questão é: como é que os agentes de mercado gozam de tanta facilidade em agir, falta de pudor de mostrar os resultados dos seus assaltos mercantis, e não encontram ninguém a questionar a legitimidade da propriedade resultante do negócio? E a resposta é simples, têm a universidade a desinformar a população para que obedeça a feirantes, e veja o mercado como algo inevitável e parte das supostas regras da economia, e não como um actividade de chantagem, destruição e roubo da economia. É evidente que a propriedade que é resultado do negócio é ilícita, tal como a propriedade resultante de uma agressão bélica. Mas isso é tabu, é contra os “mercados”, é contra os parasitas da economia que são apresentados como os senhores da economia pela mui sonsa universidade.

  3. E tomei a liberdade de ler o artigo do “economist”

    http://www.economist.com/news/finance-and-economics/21640444-oxfam-causes-stir-stat-wrong-yardstick

    OS próprios referem: “But the greatest beneficiaries were people in the middle of the income ladder: the emerging middle classes in places like China, Indonesia and India.”.

    Estamos a falar de países que, na década de 90 (inícios) sujeitavam a sua população a, literalmente (tendo em conta a nova definição da palavra) trabalho de escravo, sem condições e mal pago.

    Um aumento de 100% na receita da classe média da China, Índia e Indonésia ainda não possibilitou a estes atingir a qualidade de vida desejável.

    Seria “engraçado” observar o mesmo gráfico, desde 2008, apontado apenas ao cenário ocidental, cujas economias se retraíram.

    1. É para isso mesmo que indico os links. Tem razão, seria interessante ver o que aconteceu nesta série depois de 2008, mas o Economist não indica esses dados. As outras fontes citadas levam a crer que a desigualdade se agravou.

  4. Para os «teólogos do mercado» é muiito difícil compreenderem que a opção pela política de austeridade tem como objetivo empobrecer uma camada cada vez maior da população, de forma a enriquecer ainda mais um nº cada vez menor. Uns têm de empobrecer, para que outros enriqueçam [deixemos agora as razões dessa necessidade de empobrecimento]. O fanatismo ideológico impede este raciocínio, a quem tem uma visão da economia entre as contas de merceeiro e as contas da «dona de casa suábia» da Sra. Merkel.

    1. faz lembrar aquela : será que leram mesmo o texto
      e será que o texto pesa. é q se pesa ainda se amarram a ele

  5. É uma pena que estrague o seu excelente artigo sobre desigualdade metendo asneiras como “…com austeridade…”

    Sem austeridade teríamos a falência, e aí sim, a desigualdade aumentaria brutalmente. Não estrague tudo arranjando soluções que ainda vão agravar mais o problema. A loucura grega vai acabar muito mal…é uma questão de saber quando. Depois passados 6 meses ou 1 ano meça a desigualdade e veja o que aconteceu.
    Mas claro que depois para si e outros é só arranjar uma narrativa contra os mercados, empresas, americanos e tá tudo resolvido.

    1. Ainda bem que alguém se acha no direito de declarar “asneiras” aquilo em que não está de acordo. Felicidades.

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