Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

30 de Janeiro de 2015, 08:29

Por

Notas sobre a Prova de Avaliação de professores

Algumas notas sobre os resultados da Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC) feita por candidatos ao ingresso na carreira docente do ensino básico e secundário (determinada há 7 anos pelo Decreto Regulamentar 3/2008 de 21 de Janeiro):

– A média de classificações dos 2490 candidatos foi de 56,2 pontos na escala de 0 a 100;

– Só pouco mais de um terço dos candidatos não cometeu qualquer erro de ortografia, pontuação ou sintaxe;

– Perto de 20% dos candidatos fez 5 ou mais erros de ortografia e pontuação (por exemplo, vírgula entre sujeito e predicado!);

– A PACC, ainda que sujeita a críticas e não sendo a única nem a melhor forma de aferição, evidenciou a pobreza de preparação para o exercício de uma função, absolutamente crucial para o futuro do nosso país;

– Este tipo de prova (ainda que bastante discutível quanto ao seu conteúdo) é realizado em outros países com forte nível de exigência;

– A função de professor não é apenas uma profissão. Exige vocação, impõe elevada e diferenciada responsabilidade social, e torna imprescindíveis capacidades nucleares e transversais do ponto de vista pedagógico, de raciocínio lógico, relacional, ético, cultural e deontológico;

– Em qualquer actividade, mas muito mais no domínio da educação, deve promover-se o mérito, a competência e a motivação. Tudo o que seja cristalizar as competências, promover, por omissão, a desqualificação e igualizar o bom e o mau paga-se caro;

– Há duas maneiras de exercer esta importante actividade: ou assumida e desejadamente como uma carreira que impõe formação e actualização constantes, ou como uma espécie de “parqueamento” profissional, em que se está no ensino enquanto não se tem oportunidade de deixar o ensino;

– O Estado tem fortes responsabilidades no insatisfatório grau de preparação e condições para o exercício desta profissão pela sua acção insuficiente e errática quanto à formação necessária e contínua dos professores, à sua colocação e ao facilitismo que promoveu (ou consentiu) no acesso a cursos superiores (às vezes com notas negativas!);

– Neste momento de transição, a PACC não deveria, porém, ser excludente ou eliminatória, mas deveria incorporar os elementos de seriação dos candidatos em próximos concursos;

– A ortodoxia paralisante sindical continua, maioritariamente, na trincheira da defesa do indefensável, ou seja na promoção do igualitarismo atrofiante e redutor, defendendo a mediocridade em vez da excelência e pugnando por direitos sem a necessária e justa consideração de deveres;

– As famílias e os pais continuam, inexplicavelmente, a ser os últimos a considerar, face ao bloqueante e total corporativismo com que se abordam as questões do ensino público.

Comentários

  1. Acho que devia haver manuais didáticos oficiais para os professores se prepararem, muito genericamente, para este tipo de provas e extensivas baterias de testes com soluções para os professores se poderem de algum modo preparar para ser avaliados e recear menos este tipo de provas. Nada como bons manuais e boas baterias de testes para uma pessoa se preparar para um exame. Até do ponto de vista da tensão e concentração necessária que lhes é exigida isso os iria ajudar, preparando-os para melhor saberem lidar com o stresse e extenuação que provas difíceis exigem.

  2. Excelentíssimos,
    se a prova avaliasse todos os professores, como devia, o Ministério da Educação tinha um enorme embaraço para desatar: reformar uma boa parte dos professores mais antigos porque, desculpem-me a redundância, uma boa parte dessa parte nem sequer é possível requalificar. Todos conhecem colegas que estão absolutamente acomodados à situação confortável de serem avaliados pelos pares com “Muito Bom” independentemente do seu desempenho. Sabe-se que esses “Muito Bom” estão destinados aos professores mais antigos. Aproveitando o balanço, dou um, muito bom, exemplo:
    António respondeu a 20 questões, dessas acertou 16 e errou 4.
    Considera a razão: 16/20.
    De acordo com a professora: 16 questões certas para 20 questões!
    O aluno: 16 respostas certas para 20 questões.
    A professora quantificou a resposta do aluno com cotação nula.
    Avaliação da professora pela escola: Muito Bom.
    O Ensino Público é fácil de ser melhorado com turmas pequenas, uma avaliação credível e aplicada a todos, devo sublinhar, todos os professores. A profissão devia ser de elevadíssima consideração social, bem remunerada e acima de tudo respeitada para que a disciplina nas aulas fosse natural e, acima de tudo, a impossibilidade de alguns pais agredirem os professores à saída das escolas.

    1. Excelentíssimos,
      desculpem-me as redundâncias é que, acima de tudo, hoje estou particularmente redundante e por isso rebolo de tanto redundar.

  3. Apesar do número de artigos/notícias que têm vindo a público nos últimos dias sobre a prova de avaliação de professores, penso que existem questões que ainda não foram levantadas, ou pelo menos analisadas com seriedade.

    Deixo aqui algumas delas, com uma pequena tentativa de resposta (não serei exaustiva, nem me posicionarei sobre a forma e conteúdo da prova).

    A primeira questão:
    É esta uma prova que avalia todos os professores?

    Obviamente a resposta é não. Esta prova tem como alvo pessoas com habilitação para a docência com menos de 5 anos de serviço, o que representa uma pequena minoria dos professores das nossas escola públicas (segundo dados do ministério e dos sindicatos). O que levanta outra questão:

    Quais são as garantias de que os professores que estão nas nossas escolas públicas e não realizaram a prova, têm as competências que o ministério considera essenciais para a docência?

    Eu diria que não existem quaisquer garantias, pois no final de todo este circo a maioria dos professores não foi sujeito à prova e, consequentemente, só é possível concluir que uma pequena minoria dos professores (os que têm menos de 5 anos de serviço, realizaram a prova com aproveitamento e tiveram a felicidade de serem colocados) é que têm as competências que o ministério da educação considera essenciais.

    Como a palavra mérito tem estado muito associada a esta prova, levanto outra questão:
    A prova premeia o mérito?

    A minha resposta é não. Por um lado não garante que os professores que não realizaram a prova sejam melhores do que aqueles que a realizaram, por outro lado, não garante que aqueles que tiveram os melhores resultados na prova e, portanto, têm todas as competências que o ministério considera essenciais para leccionar, sejam colocados no próximo concurso.

    Para concluir deixo uma última questão:
    Qual é mesmo a finalidade da prova de avaliação de professores?

  4. O penúltimo ponto

    “- A ortodoxia paralisante sindical continua, maioritariamente, na trincheira da defesa do indefensável, ou seja na promoção do igualitarismo atrofiante e redutor, defendendo a mediocridade em vez da excelência e pugnando por direitos sem a necessária e justa consideração de deveres;”

    é absolutamente esmagador. Concordo em absoluto.

    Parabéns!

  5. Concordo genericamente. Mas, ao introduzir uma prova de cultura geral como instrumento de avaliação, o ME está exigir aos professores o que eles não aprenderam nem treinaram. Eles aprenderam essencialmente matérias disciplinares que diferenciam muito a sua formação e, por isso, não tiveram propriamente uma formação geral. De qualquer modo, a prova é útil para sabermos o que falta na formação de professores e seria bom que o ME publicasse os resultados por instituições de formação e, depois, definisse um modelo de cultura geral a exigir. À partida todos os professores que não são professores de Matemática, estavam destinados a reprovar na questão sobre os grupos da equipa nacional de futebol. Como muito bem salientou Ana Gershenfeld, em Público de hoje, ela nunca acertaria esta questão se não fosse licenciada em Matemática. Isto é cultural geral? Não. É cultura específica. Eu acho que devia ser geral mas, para isso, temos de modificar radicalmente os requisitos de acesso aos cursos de formação de professores.

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