Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

28 de Janeiro de 2015, 18:55

Por

O dever de memória

IMG00004-20100831-1115Setenta anos. O tempo entre o hoje e os milhões de anos tirados às vidas de homens, mulheres e crianças, cujo único “crime” foi terem sido declarados diferentes dos seus algozes.

Já tudo foi dito sobre o horror do Holocausto, de que o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau foi uma das suas mais cruéis expressões.

Qualquer pessoa de bem achará que não chegam todas as palavras do mundo para significar o mal cru e impiedoso que atingiu a dignidade da própria humanidade.

Vivíamos já apagados nas almas antes da morte anónima”, escreveu o intelectual italiano Primo Levi (1919-1987), que foi deportado para Auschwitz e que, tendo sobrevivido, nos deixou notáveis testemunhos em livros como “Se isto é um homem” e “Se não agora, quando?”

IMG00031-20100831-1359Há alguns anos, pude visitar o que resta daqueles campos na Alta Silésia polaca (anexo algumas fotos que lá tirei). E tentar imaginar (obviamente, por defeito) o que foi 1942-1945 lá. Não é possível entender como a condição humana (?) pode chegar um grau tão baixo. “Arbeit macht frei” (“o trabalho liberta”), – ainda hoje lá está – a mais ignominiosa expressão para receber quem, perante as atrocidades, só a morte libertou.

Em Abril de 2010, o então Papa alemão Bento XVI esteve lá. E questionou-se com profunda amargura: “Num lugar como este, as palavras falham. No fim, só pode haver um terrível silêncio, um silêncio que é um sentido grito dirigido a Deus: Porquê, Senhor, permaneceste em silêncio? Com pudeste tolerar isto? Onde estava Deus nesses dias? Porque esteve ele silencioso? Como pôde ele permitir esta matança sem fim, este triunfo do demónio?”.

Sim, onde estava Deus em que eu quero continuar a acreditar?

Setenta anos depois, o dever de memória – para citar o título de mais um testemunho de Levi – é ainda mais imperativo.

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Comentários

  1. É quase impensável pensar no que podem dar as acções dos humanos.
    Devemos ter medo, muito medo…Por mais que os alemães agora vivos peçam desculpa, ninguém pode ficar descansado.
    Isto é para mim um verdadeiro mistério. Já andei numa guerra mas, dentro do possível, sempre percebi traços de humanidade em bastantes situações.
    Não consigo entender esta deriva alemã. Que cultura pode justificar acções deste teor?

    Está por fazer um grande estudo para se poder compreender este período 1939-1945. Muitas pessoas têm abordado esta questão…mas continuo perplexo com isto.

    Até nem importava de, no tempo que me resta, me dedicar até à exaustão para chegar à compreensão do Holocausto. E isto, confesso, cria anticorpos ao analisarmos este povo alemão. Parece ser generalizado este sentimento. Mega Ferreira disse há pouco tempo que na Alemanha até a alegria é pesada, não é natural. E eu concordo. Já viram como os alemães se comportam quando estão com os copos, por exemplo, numa celebração na Festa da Cerveja em Munique?. A ideia que dá é que não é uma alegria ou boa disposição “à humano”: parece qualquer coisa entre o robot e o humano. Concorde-se ou não é isto que eu sinto.

    Já agora: quando é a Alemanha liberta os excedentes orçamentais e os mete na economia? Houve um leitor que propôs multas. Devia estar a fazer humor….

  2. Ainda que venha a conhecer todos os livros que algumas vez foram escritos para descrever o que ali e noutros campos aconteceu, sei que a minha percepção ficará sempre aquém do real. Tomei consciência desse facto ao ver o documentário ” a noite cairá”. Para se dar a conhecer este tipo de eventos devemos evitar a subjectivação abstracta e estilística, devemos ser despudoradamente factuais. As imagens, ainda que apenas de resquícios das consequências finais e não de todo o processo durante o seu curso (recorde-se que quando se colheram imagens em primeira mão já milhões se haviam feito esfumar), têm essa vantagem. E tudo executado por gente culta, inteligente e civilizada. Abomino intelectuais abstraccionistas incapazes de empatia pelo outro, pelo indivíduo concreto defronte de si, que reduzem toda a realidade a dinâmicas de confronto entre categorias.

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