Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

27 de Janeiro de 2015, 17:35

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A Grécia não virou à esquerda. A esquerda é que virou à esquerda.

Tenho achado no mínimo curiosas as reacções que, por cá, se sucederam após as eleições na Grécia. Sobretudo, as do Primeiro-Ministro e as do Partido Socialista. Quanto ao primeiro, só direi que foi mais “merkeliano” do que Merkel. Entre vários aspectos, referiu: “aquilo que está no programa do governo grego que vai tomar posse é um conto de crianças. Não existe”. Ou “o caminho que os países devem seguir é o do cumprimento das regras europeias porque sem elas, não existira euro nem União Europeia”. Louve-se a frontalidade de dizer o que certamente pensa, ao contrário de algum fingimento diplomático que atravessou a Europa, da direita à esquerda.

Quanto ao PS, pela voz de António Costa, afirmou que “é mais um sinal da mudança da orientação política que está em curso na Europa, do esgotamento das políticas de austeridade e da necessidade de termos uma outra política que permita fazer com que a moeda única seja efectivamente uma moeda comum”. Discurso suficientemente redondo para dizer uma coisa e o seu contrário.

A propósito dos resultados eleitorais, parece-me necessário fazer umas contas que apresento neste quadro:

 

ELEIÇÕES LEGISLATIVAS  (%) 2009 2012 2015
PASOK 43,9 12,3 4,7
Partido Comunista da Grécia 7,5 4,5 5,5
SYRISA 4,6 26,9 36,3
Esquerda Democrática  — 6,2  —
ESQUERDA e ESQUERDA RADICAL 56 49,9 46,5
Nova Democracia 33,5 29,7 27,9
Gregos Independentes  — 7,5 4,7
Concentração Popular Ortodoxa 5,6  —  —
Aurora Dourada  — 6,9 6,3
DIREITA e DIREITA RADICAL 39,1 44,1 38,9
To Potami  —  — 6
Sem representação parlamentar 4,9 6 8,6
OUTROS 4,9 6 14,6

 

A esquerda passou de 59% antes do programa de austeridade (2009) para 46,5% em 2015. A direita está quase ao mesmo nível de votação (39%). Os partidos sem representação parlamentar e o considerado centrista To Potami subiram cerca de 10 pontos (de 4,9% para 14,6%).

A grande alteração tem a ver com o princípio de vasos comunicantes entre o PASOK e o SYRISA. O primeiro passa de 43,9% para a insignificância de 4,7%. Curiosamente o SYRISA parte, em 2009, praticamente dos mesmos 4,7% para 36,3%. Esta é a principal novidade de 2015, já fortemente indiciada nas primeiras eleições pós-troika (2012).

Em conclusão: a Grécia não virou à esquerda. A esquerda é que virou à esquerda (por isso, não percebo o entusiasmo do PS…).

Curiosa é também a coligação do SYRISA com os Gregos Independentes, em nome do único denominador comum: serem anti-austeritários. No resto, será o máximo divisor comum.

Os gregos terão pensado como, eloquentemente, um dia escreveu o pensador Paul Valéry, “tenho medo do conhecido, mais do que do desconhecido”. Foi esta a sua resposta compreensível  face ao insuportável estado de desgraça vivido, desesperançadamente, nos últimos anos.

Comentários

  1. O Dr. Bagão Félix ainda divide o eixo político partidário de forma ortodoxa, como aliás surgiu aquando da revolução francesa, dividindo em “esquerda” e “direita”; típico de alguém que viu nascer a Democracia em Portugal. Após falar com muitos gregos, especialmente jovens – sendo que os jovens portugueses não pensarão diferentemente – a dicotomia é muito mais simples. Há “os suspeitos do costume”, aqueles que governaram o país durante três décadas, mormente PASOK e Nova Democracia; e há os “novos”, sejam eles quais forem. Como os “suspeitos do costume” levaram o país à bacarrota, o povo grego decidiu dar oportunidade a outros. Eu estou cético, muito cético, mas percebo perfeitamente esta abordagem.

    Há pessoas que ainda não se consciencializaram que as ortodoxas “esquerda” e “direita” já desapareceram há muito. É o PCP de “esquerda” quando defende os automobilistas a todo o custo, rejeitando todas as propostas sobre velocípedes na AR? É o PSD de “direita” quando deixa de fora dos cortes nas pensões todos aqueles que auferem menos de 500 euros? O PS é de “esquerda” quando mais não fez do que endividar o país fazendo uso pleno dos mercados financeiros de dívida pública?

    1. Agradeço o seu comentário. Certamente há diversas abordagens do espectro ideológico, com prós e contras e sempre com algum subjectivismo.
      Cingi-me à mais “clássica” (esquerda / direita), ainda que consciente que esta visão dualista está cada vez mais ultrapassada.

  2. Parece-me correcto dizer que virou à esquerda visto que o decréscimo, em pontos percentuais, é maior à direita. Mas são pontos de vista… Para ser correcto era preciso analisar os “outros”.

    1. Eu fiz a comparação entre 2009 (antes da troika) e 2015. No seu caso terá feito entre 2012 e 2015.
      Quanto aos “outros”, não me considero em condições de saber distinguir totalmente o seu espectro ideológico. Todavia, os mais conhecedores da política interna grega têm classificado o To Potami como um partido centrista.

  3. O “entusiasmo” do PS é típico de um partido da oposição: opõe-se. Não é o que fazem sempre todos os partidos?
    O governo tem defendido a austeridade, inclusive “para além da troika”. O Syriza representa a esperança de uma ruptura, com essa austeridade. E o PS agarra-se a qualquer coisa para fingir que defende outro caminho. Faz o mesmo que o PSD (e o CDS…): uma coisa na oposição, outra no poder. Quanto ao Syriza, a ver vamos. Mas não vai ser fácil “dobrar” os alemães…

  4. o povo grego votou contra a politica de austeridade,da qual o nosso PM é um grande admirador.e como sabe o nosso PM,não admite nenhuma alternativa para esta politica.espero por isso,uma grande derrota eleitoral do nosso PM.esta é apenas a minha opinião,se é que posso ter opinião com o actual PM.

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