Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

26 de Janeiro de 2015, 09:08

Por

Dia Um: e agora, Merkel?

tsiprasSe votares em mim, é a prova da consciência e maturidade do povo. Se votares nele, é a prova do vazio de um mero voto de protesto.

Eu apresentei propostas consistentes. Não resultaram e ninguém as quis manter. Mas qualquer mudança será grave prova de populismo desbragado.

Só podem ganhar as políticas de compromisso. Excepto o Syriza, que é um partido de extrema-esquerda, perigoso para o compromisso europeu. “Colisão com a Europa”, diz a capa do Guardian. “Terror”, escreve o Bild.

Ouviu estas três frases durante o dia de ontem? Pois divirta-se que estes momentos são únicos.

Pese a todas as conversas de um dia de muita perplexidade e expectativa, começou a contagem decrescente para a formação do governo grego, depois da vitória esmagadora do Syriza. Até 4ªf, Tsipras deve comunicar ao Presidente que está em condições de formar uma coligação e deve pouco tempo depois obter a sua confirmação na primeira sessão parlamentar. E começam os trabalhos de Hércules de uns e de outros, de Atenas a Berlim.

A Europa é a responsável primeira pela desagregação da Grécia. Portanto, é ou com a União ou contra a União que é preciso ser realista. Ou há negociações que conduzam a resultados muito depressa e que permitam a reestruturação da dívida pública e o financiamento ao sistema bancário, conduzindo assim à redução radical da dívida externa total, ou a Grécia terá de se defender sem a Europa.

Para isso, não há muito tempo. A chave de um governo de esquerda é o curtíssimo prazo: em semanas, os gregos esperam medidas que façam caminho. Não esperam certamente milagres, mas querem atitudes. Depois do protectorado, nada pode falhar.

O segundo trabalho de Hércules, este para Merkel, é a resposta ao fim do consenso institucional sobre os tratados, como o Tratado Orçamental, tão laboriosamente construído pelo centro e pela direita na Europa, que é um choque difícil. Não porque mude a Europa, de facto a Europa já está mudada porque se está a desagregar: a Grécia ameaça poder, o Reino Unido ameaça sair, a França ameaça cair, a Espanha ameaça querer. Só se reconstituirá a Europa se acabar com as regras que fizeram este monstro e adiar é a pior de todas as respostas.

Claro que se pode pedir menos e esperar mais. Só que não resulta. Austeridade como destino cósmico, empobrecimento como punição, ódios como norma, e temos uma democracia em apodrecimento. O problema é portanto europeu. E o problema é que a Europa não funciona.

Não é preciso os gregos gritarem mais alto para se ouvir este recado.

Comentários

  1. «A Europa é a responsável primeira pela desagregação da Grécia.»
    Como se pode afirmar levianamente uma coisa destas? Os responsáveis primeiros são os governantes gregos e, em última análise, os próprios gregos. A questão da Europa só veio muito depois. É o mesmo que afirmar que a crise portuguesa teve primeiramente uma origem externa. Afirmá-lo-ia também Louçã?

    1. Quando o médico receita um tratamento, NUNCA o doente poderá ficar pior. Poderá ter diagnosticado mal. Se não for o caso, terá então de mudar de receita.. A Grécia tinha uma divida de cerca de 108% do PIB, com as medidas (receita) imposta pela Troika vai nos 180. Então ????

      Não esqueçamos que a “dívida privada”, foi transformada em “divida pública”. A dívida pública em Portugal apenas representa 15% do total da divida. Mas há quem “pretenda” que assim não seja. Estudar , analisar com honestidade intelectual pelo rigor… dá muito trabalho !!!

  2. Se respeita a “maioria” do Syriza na Grécia; deve respeitar a “maioria” que aprovou os Tratados na Europa. Eu também sou contra os Tratados em vigor desde Maastricht, e sobretudo contra a aberração do Tratado de Lisboa com a “dupla maioria” que dá uma preponderância institucionalizada à Alemanha.
    Mas não me parece que seja democrático um país que possui menos de 10% dos votos no Conselho da UE, e 2,22% da população europeia, querer impôr condições aos restantes, por muito “honoráveis” que sejam as suas intenções. Devia era sair do Euro e da UE, quando muito dizendo que não pagava.
    O que o Syriza quer, é continuar a receber dinheiro e não pagar coisa nenhuma!

    1. A diferença, que está longe de ser irrelevante, é que nenhum desses tratados foi referendado, portanto ninguém votou neles.

  3. Vitória esmagadora do Syriza? Essa afirmação quase me faz lembrar as histórias vitórias estrondosas do PC cá pelo burgo. Vitória histórica, isso sim. Esmagadora é exagero.
    A propósito, o Syriza teve 36%. Se descontarmos aquela aberração dos 50 deputados extra para o partido vencedor, eles de facto elegeram 99 deputados. Que raio de sistema é este? Em Portugal o método de Hondt favorece os maiores partidos, mas na Grécia acontece esta coisa esquisita de o partido mais votado ter mais de um terço dos votos e menos de um terço dos deputados…
    Será assim tão difícil criar uma forma de compensar estas distorções, de forma a dar aos partidos o número de deputados mais aproximado possível da percentagem de votos que eles têm nas eleições? Com um círculo nacional, ou outra forma qualquer. É uma coisa que sempre me fez uma grande confusão e não me parece assim tão difícil de levar a cabo. Assim houvesse vontade. Não é por nada, é só por uma questão de fazer as coisas direitas.

  4. «Vitória esmagadora do Syriza»? Esmagadora porquê? Não teve maioria absoluta…
    A não ser que o conceito de esmagador aqui tenha em conta que se trata de um partido/coligação recente, que cresceu muitíssimo e depressa. Um pequeno partido, enfim.
    Tipo, se uma equipa pequena, por exemplo o Bradford, vai a casa do Chelsea vencer por 4-2 chama-se a isso vitória esmagadora, goleada, enquanto, se tivesse sido ao contrário, diríamos que era uma vitória normal, banal, sem história…
    Mas enfim, esmagadora ou não, a vitória que interessa só virá depois da luta e essa começa agora. Se fosse cá, escaldados que estamos com as promessas dos políticos, as expectativas não seriam muito altas. Como é na Grécia, ou melhor, a Grécia contra a Europa da Merkel, digamos que não vai ser fácil. Espero que ao menos os gregos tentem…

  5. “…A Europa é a responsável primeira pela desagregação da Grécia…”
    A culpa do mau governo da minha família, é a família do meu vizinho!

    Já me fartei da Esquerda radical Portuguesa andar a desresponsabilizar a Grécia pelo mau governo, pela corrupção endémica transversal a toda a sociedade. Chegam a ser cómicas as falcatruas que alguns faziam para enganar o Estado.
    É a Alemanha da culpa desta desonestidade?

    A social democracia, apesar dos defeitos, consegue ser o pior de todos os sistemas com exceção de todos os outros

    1. Que grande azia provocada pelo Syriza. Corra aos serviços de gastroenterologia de emergência de uma hospital público que estão preparados pelo Macedo e suas equipas para o despachar em três tempos. As melhoras.

    2. Está enganado.
      As endoscopias são comparticipadas pela segurança social e podem ser feitas no privado.

      Só os burros não vêm.

  6. Caro Francisco, o seu comentario é pertinente, mas ainda assim, ficaria ‘contente’ se fosse realmente a senhora Merkel a mandar na Europa, uma vez que esse papel esta e estara sempre destinado ao imperio do outro lado do oceano, enquanto o mesmo durar. A senhora Merkel nao é mais que uma ‘marioneta’ do BCE, da Federal Reserve (FMI), e do poder economico imperial que controla a vida de todos nos ate ao pescoco. Enquanto assim for, seja com Merkel, com Holland, com Cameron, ou outro(a) qualquer, nao ha Syrisa que lhe perneie e mude o rumo dos acontecimentos. O Francisco ja esteve no parlamento (embora nao como forca principal), e penso que sabe a que me refiro. Por muito que fizesse, as forcas ocultas instaladas, fariam o contrario. Peco desculpa pela falta de acentuacao.

    1. “Forças ocultas instaladas”? “Império do outro lado do oceano”? Mas o que é que a política económica dos EUA tem a ver com a política económica (sic) da UE? Tomáramos nós viver sob o “poder económico imperial”, se é que isso ainda existe nesses termos. Creio que quando Francisco Louçã, em post anterior, dizia que “primeiro tomamos Manhattan, depois tomamos Berlim” não tencionava ser levado à letra. Principalmente quanto à pequena ilha do condado de Nova Iorque.

  7. Ficou tudo doido em torno da bola da cristal tentando adivinhar o amanhã. Não perderei muito tempo em torno do assunto. Eu sei como será o amanhã: a culpa irá ser imputada à Merkel.

  8. depois de ouvir o FMI/BCE/frau merkel ,a direita e alguma esquerda ,só posso dizer:parabens ao povo grego.entre ficar na UE e empobrecer,aumentar o desemprego e a fome,ou saír da UE e acontecer o referido atrás,então o melhor é não ter nada a ver com esta UE.já agora,gostava de dizer que na segunda grande guerra,os aliados foram bem mais brandos com a alemanha e a sua reconstrução do que os alemães estão a ser agora,com os europeus.p.s-a divida dos gregos e dos portugueses,aumentou durante “esta austeridade”

  9. Ora então uma boa maneira de parar com o domínio dos mercados financeiros é não contrair mais empréstimos certo?

    Acham mesmo que Alemanha, Finlândia, Holanda, etc. vão aceitar pagar as dívidas dos outros? O que impedia qualquer outro paíse de contrair dívida até aos 180% como a Grécia? Parasita é quem pede emprestado e depois não paga. Se querem combater os mercados financeiros, porquê não forçar a incluir na constituição a proibição de contrair mais de 60% do PIB em dívida?

    Será que Louça & amigos aceitam? Ou essa dos especuladores é tudo mentira para entreter?

  10. Muitos gregos não suportaram mais o jugo da impotência. Podem orgulhar-se de ter sido os primeiros a ter tido a coragem do desespero para derrotar a política de austeridade, que os tratou como objetos e não como pessoas, e que se mostrou incorrigível.
    Independentemente do que se seguir a este 25 de janeiro, isto é um facto inultrapassável. Com esta vitória ainda nada está ganho. Só a vontade de não quererem um governo que ande a reboque da «Sagrada Família», (Capital Financeiro, Especulação Bolsista e Tecnocracia Europeia), conquistou legitimidade democrática. Bruxelas e Berlim, tudo tentarão para a destruir. Aos gregos, que se revoltaram em nome da dignidade e da soberania, ser-lhes-á dito e redito: «Não se atrevam!», «Não deitem fora os sacrifícios!», «É a vossa última oportunidade, antes do abismo!», «Aquilo que vos foi exigido, não tem alternativa!». É o velho jogo de quem joga com o medo dos assustadiços filisteus e quer gozar com as imagens dos seus inimigos.
    Aquilo que o Governo Syriza terá de conseguir é nada mais, nada menos do que abalar nos seus fundamentos a mundivisão neoliberal. Resta saber se a tresmalhada e adormecida social-democracia europeia está disposta a demonstrar a solidariedade necessária.

    1. Não creio que esteja, como se viu pela participação do PASOK no governo anterior. Não creio que nenhuma soluçaõ europeia passe pela social-democracia. Mas a realidade de uma resposta popular pode impor-se e tudo depende das medidas que este governo consiga aplicar.

    2. Compreendo o seu ponto de vista, mas se não conseguirmos que a social-democracia abandone a sua via neoliberal, não ficará(ão) a(s) esquerda(s) à espera do «tiro do Aurora», como parece propor?

    3. A social-democracia fez parte do governo que foi derrotado na Grécia. Creio que um dos maiores problemas das esquerdas tem sido ficarem toda a vida à espera de uma ressurreição ds social-democracia. Acho que mais vale jogar no euromilhões.

    4. Não querendo abusar mais da sua paciência, referia-me à social-democracia europeia, nomeadamente à alemã. Não me parece muito produtivo, não procurar agudizar as contradições existentes nessa corrente política, mesmo tendo consciência do seu papel histórico desde que votaram a favor da guerra na república de Weimar. Esperemos não ficar dependentes desse Euromilhões.

    5. pois , a socialdemocracia foi derrotada na grécia
      e agora vamos ter nacional-socialismo (nao m interprete mal) as nomes , como os bois , valem o que valem. alguem tem que os energizar!

  11. O conceito de usura perdeu-se nas ultimas dezenas de anos. O artigo 123 do tratado de Lisboa legislou o fim da usura como se isso fosse possível e o resultado esta à vista no sul da Europa. Penso, que tendencialmente, o negócio financeiro passará a um serviço publico financeiro. Para que haja proveitos e ganhos estes tem de vir, como se diz há muito, de negócios bons para as duas partes em que a especulação será cada vez mais regulada. Espero que os donos disto tudo, que ainda não se tratam pelos nomes, vão entendo que a usura, a longo prazo, não faz bem às suas fortunas.

  12. Faço notar que Alexis Tsipras já deu mostras de uma política de compromisso ao escolher para parceiro de coligação o partido anti-troika Gregos Independentes. Não deixa de ser significativo um partido de extrema-esquerda aceitar coligar-se com um partido de direita. Rui Tavares, em artigo neste jornal, tem razão quando diz que “a União Europeia deve mesmo reconhecer a sorte que teve com a oposição que nasceu na Grécia: os gregos não soçobraram no populismo nem na agressividade, o fenómeno neonazi foi contido, e escolheram um partido progressista e solidário”.

    1. Uma coligação era necessária e ainda bem que foi concretizada numa demonstração de força. Mas qualquer coligação e qualquer governo é medido pelo que faz. O Syriza ganhou porque mostrou que a reestruturação da dívida era a condição de sobrevivência da Grécia. Será avaliado pelo seu sucesso nessa tarefa e a Europa não vai tornar a negociação fácil.

  13. Esperei muito por esta vitória. Não que me identifique com as propostas do Syriza, que aliás mudaram substancialmente em cinco anos, mas porque Tsripas não teve medo de assumir o poder, ao contrário do que sempre tem acontecido com os congéneres nacionais, e tem uma real oportunidade de governar à esquerda e de mostrar o que vale a esquerda. No futuro espero que ninguém venha afirmar, em modo justificativo, que afinal Tsripas não representa a esquerda “verdadeira”, ou que o grande capital irá com certeza sabota o seu governo, ou que a srª Merkel venha a ser novamente a responsável pelo destino dos gregos, porque parece que até aqui o foi, mesmo que as anteriores eleições tenham sido igualmente democráticas e livres. Numa coisa concordo com Francisco Louçã; a Europa poderá desagregar-se sendo provável que este seja o início do fim do projecto europeu.

    1. Assumir o poder? Tsipras ganhou porque rejeitou o centro e porque o centro se aliou com a direita. E, sim, a senhor Merkel tem sido responsável pelo destino dos gregos (e dos portugueses).

    2. Tsipras ganhou porque prometeu acabar com a Troika e com a austeridade, repor salários e pensões. Mas Tsipras não tem qualquer sustentação em garantir o que prometeu. Está à mercê dos governos que resgataram financeiramente a Grécia e que acordaram um perdão de 100 mil milhões de euros à dívida grega (e não foi Tsipras que o conseguiu). Ouvindo as reacções bloquistas parece que só ontem houve uma vitória da democracia sobre a chantagem, como se até aqui tivesse sido o contrário! Esperemos então pelas próximas eleições nos países credores e veremos se esses eleitores aceitarão a vitória da chantagem sobre as suas democracias. Sempre pensei que os países livres e democráticos eram responsáveis por si mesmos e pelas suas opções. Pelos vistos Francisco Louçã acha que não!

  14. Caro Francisco, adorei claro a vitória do Syriza. Já era asfixiante seis anos de austeridade e sem ver uma rutura. Visto que a Grécia é uma democracia, eu questionava-me (tal como me questiono hoje em Portugal), será que as pessoas não perdem a paciência, o quão mais deixam ser esmagadas e continuam a votar nos mesmos…. As pessoas votaram em 2012 na Grécia com base no medo, agora votaram com base na esperança. Isto mostra que o grosso das pessoas votam com base num sentimento e não tanto numa base racional. Aliás a história mundial mostra isso.

    Da mesma forma, os credores internacionais, a Merkel, os banqueiros, regem-se por instintos emocionais protecionistas dos seus interesses (não, não estou a defender o Grande Capital). Isto para dizer que não espero que depois de anos a agirem algo irracionalmente, que vão agir racionalmente agora. Prevejo um impasse, em que a troika/Merkel/BCE não vão desatar. Espero a continuação de uma rutura, e pela Europa toda, como aliás o Francisco poéticamente já mencionou.

  15. O que não funciona é pedir dinheiro emprestado e depois dizer “não pago”. É bom que a Merkel não ceda nem 1 milímetro, senão acabasse o estado de direito na Europa e começa a anarquia da extrema esquerda. Se os gregos não pagam a dívida, eu também de certeza absoluta que não pagarei nem 1 cêntimo de impostos para o estado português alimentar o parasitismo de esquerda.

    1. Quanto a parasitismo estamos conversados: a finança não deixa os seus créditos por mãos alheias. Pergunte a Ricardo Salgado e espero que não tenha que pagar um cêntimo pelas suas aventuras, “António”.

    2. Fico feliz então que tenha mudado de opinião e afinal já é contra as nacionalizações de bancos (já informou o seu partido, para pode ser expulso do mesmo?)
      O que estamos a pagar neste momento é o BPN, graças à decisão política de nacionalização de um ex-primeiro-ministro-atual-recluso. De esquerda. Socialista.

      Se os gregos não pagam, mas nenhum país na europa tem de pagar a sua dívida. E assim acabasse o estado de direito e começa a anarquia. Se foram bons para pedir, são bons para pagar. E se o governo português der cobro a esta situação eu sei que de mim já não levam nem mais um cêntimo.

    3. Imaginemos um país.
      Imaginemos uma moeda.
      Imaginemos que esse país tem assimetrias de desenvolvimento: interior/litoral, grandes cidades/”o resto é paisagem”, etc..
      Um país único, uma moeda única, assimetrias bastantes: as grandes cidades são mais ricas; o seu produto e o seu rendimento per capita são mais elevados; o litoral, mais rico do que “o resto é paisagem”.
      Num país assim, ninguém se lembraria de dizer que as zonas menos desenvolvidas devem às zonas mais ricas a diferença entre o valor da sua pobreza e o valor da riqueza daquelas. E o filho que deixou a aldeia dos pais e foi para capital, não se lembraria de dizer que os seus pais e os pais dos seus pais não passam de uns mandriões, uns parasitas do sul, que o que sempre quiseram foi viver à custa de quem tanto se esforça na “capital do trabalho”!
      Pelo contrário. Mesmo quando o Governo desse país abrisse uma auto-estrada para beneficiar quem as constrói, quem a s financia e, no limite, quem é financiado por quem as financia, ele esforçar-se-ia muito para explicar que era tudo a bem da nação, para proporcionar o desenvolvimento desse interior tão injustamente esquecido, para “corrigir assimetrias” e que até seria sem custos para o utilizador dessas regiões menos favorecidas.
      Uma moeda única deve corresponder a uma economia única, portanto, sem que uma das partes deva ou seja credora de qualquer das outras.
      A moeda é o tecto da economia. As fundações e a construção sob esse tecto é feita de muita coisa “única”, para que a moeda também o possa ser.
      A “Zona Euro” foi criada sem que estivessem reunidos os pressupostos básicos para que os países que a integram (os países pobres, entenda-se), pudessem ter a mesma moeda. Não existe sequer harmonização fiscal, mesmo nos impostos sobre o consumo. O mais universal imposto sobre o consumo (o IVA) continua a reger-se, nas transmissões intracomunitárias, por regras transitórias, que distorcem a sua própria natureza. Os impostos nacionais, são a única expressão de soberania nacional que parece não merecer ataques…
      As economias continuam a agir de forma separada, sendo que o excedente de umas não beneficia nem compensa o deficit das outras, existindo, dentro da moeda única, credores e devedores. E, assim, temos economias fracas e economias fortes com a mesma moeda forte, sendo que política monetária é ditada por quem tem poder para o fazer ou seja, pelas economias fortes, em benefício das quais o euro foi criado.
      Por outro lado, a moeda não é apenas um instrumento de mediação nas trocas. Hoje, essa é, se calhar, a sua dimensão económica menos expressiva. A moeda também é um bem transaccionável (todos nós os sabemos, quando saímos da zona euro e trocamos euros por outra moeda) e, mais importante, a própria dívida (pública ou privada) também é um bem económico de grande interesse. E sabe para quem, “António”? Para os verdeiros parasitas. Para o “mercados” assentes na especulação financeira.
      Veja bem: o produto mundial cresce anualmente cerca de 1%. Se você provocar o aumento de risco da dívida de um país (por exemplo dizendo que a sua dívida é “lixo”), os juros de quaisquer empréstimos que esse país contraia para financiar a dívida é muito mais elevado que o que se poderia ganhar “produzindo”…
      E os mercados têm o cinismo exacto: um país pode ter uma dívida que represente 80% do seu PIB e os juros dispararem para 10% e pode ter uma dívida de 134% do PIB e pagar juros de 2 ou 3%…
      E há países, dos que ganham com esses altos juros da dívida dos outros, que se por sua vez pedirem financiamentos pagam juros negativos (isto é, pedem emprestado e ainda lhe pagam por cima!)
      Ainda acha que a palavra “parasita” precisa de outro ocupante?
      O Euro só fará sentido quando a dívida de um país da Zona Euro for uma dívida da Zona Euro e a relação de crédito/débito se extinguir entre membros dessa Zona. No dia em que todos tenham o mesmo a ganhar ou a perder com a mesma política monetária ou corram o mesmo risco com a especulação financeira, por exemplo.
      Ora há uma coisa de que podemos ter a certeza: se quem politicamente representar os países da moeda única for quem é comissário, capataz, feitor, homem-de-mão do capitalismo financeiro, a coisa vai continuar como está e vamos continuar a ouvir pessoas dizer que há por aqui uns malandros que o que querem é viver a vida alegra de ser pobre…
      É mesmo preciso mudar.

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