Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

24 de Janeiro de 2015, 11:51

Por

“Sono de Inverno”, de Nuri Bilge Ceylan

sono invernoO filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes. É isso muito ou pouco? É cada vez menos. Em todo o caso, os críticos elogiaram mais o anterior filme de Ceylan, “Era uma vez na Anatólia” (2011), e consideraram este “Sono de Inverno” mais tchekoviano mas mais pesado, devido ao seus longos silêncios, explorações psicológicas previsíveis e, sobretudo, à simplicidade da neve e do gelo que vão ocupando o enredo.

Aydin é um actor reformado que gere um pequeno hotel na Anatólia. Vive com a Nihal, a jovem esposa, e a irmã Necla, traumatizada por um divórcio que a deixa em dúvida. Aydin conversa sobre nada com passantes de ocasião, hóspedes breves, foge das responsabilidades de ser proprietário e cobrador de rendas, desconhece a sociedade local, maquina um livro que ainda não começou a escrever, não faz nada senão olhar para o computador, ou dedilhar nele, o que é a mesma coisa. Está perdido e, entre os seus conflitos familiares, sempre levados ao drama e à humilhação, ocupa-se de crónicas avulsas para um jornal que ninguém lê, agarrado ao computador. Tem saudades do seu tempo no palco, da grandeza e do aplauso? Ele está simplesmente perdido. Quando sai, é para voltar. Ele não tem para onde ir. Quando fala, é para esquecer ou para magoar, ele não tem quem amar.

O isolamento e a solidão fazem esta vida. Fazem tantas mais vidas, de facto. Se a neve e a brancura do inverno na Capadócia, com as suas paisagens lunares e os abrigos escavados na rocha, como casas de Schtroumpfs ancestrais, bastariam para sublinhar essa solidão, Ceylan não cede à facilidade e mostra-nos com cuidado o desespero desta gente. Afinal, podiam encontrar-se, podem sempre, e perdem-se. Um filme notável porque se pode acreditar neste cinema.

Comentários

  1. quase que me perfurava um tímpano c esta revisão
    vale a pena não botar fora – no caminho: entre a razzão e o amor sempre se vão deixando pedras

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