Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

22 de Janeiro de 2015, 08:48

Por

Desculpai qualquer coisinha, mas é mesmo precisa uma base militar norte-americana nas Lajes?

14.02-LajesNão percebi as insinuações confusas de Vasco Cordeiro sobre trocas de favores entre a Casa Branca e o governo de Passos Coelho, prejudicando a base das Lajes para favorecer outros capítulos do acordo Luso-Americano. Não percebi aquela parte de “eu não quero insinuar, eu nem quero acreditar, não posso acreditar”, repetida depois pelo secretário-geral do PS. Sei que muitas vezes não há fumo sem fogo, mas a política devia gostar de palavras claras.

Não percebi a vantagem do bluff do uso “não militar” do aeroporto militar pela China, como se fosse possível acreditar nisso. O “segura-me senão eu bato-lhe” não costuma levar muito longe.

Mas, sobretudo, não percebi como é possível que um partido, e outro e outro, se prestem a defender a existência de uma base militar estrangeira em território nacional como se essa fosse a prova da nossa sageza ou, pior, como se fosse a condição para a nossa soberania.

Para os Açores, essa pode ser a pior forma de resolver o problema. De facto, é mesmo a pior forma, porque foi com essa conversa e com essa estratégia que se chegou ao inevitável, a desgraduação da base militar norte-americana para um posto de abastecimento (uma “gas station”) limitado a 170 militares, o que implica o despedimento de 500 dos 900 trabalhadores e, entendamo-nos, o afastamento de ainda mais ao longo dos próximos anos. Em suma, ao adiar a reconversão dos empregos e o desenvolvimento de uma economia independente das escolhas militares norte-americanas, Portugal ficou dependente do que tinha que acontecer: a alteração da autonomia de voo dos aviões militares e de transporte, bem como a melhoria das capacidades de controlo de vastas áreas por radar e outros meios, tornaram a base das Lajes suplementar ou até dispensável para o Pentágono.

Já nem escrevo nada mais sobre a dependência militar e estratégica que a base das Lajes representa em relação à NATO e, em particular, aos desígnios militares de Washington, que não são flor que se cheire: a base teve os seus momentos altos quando dos trânsitos de tropas e materiais para a guerra do Afeganistão e outros tristes empreendimentos, e nada disso reforça a soberania portuguesa, antes a compromete e diminui.

Para os Açores, a base foi por isso uma bomba relógio, passe a metáfora. Estava escrito que um dia perderia importância e empregos, e esse dia chegou. Bem prometeram as autoridades norte-americanas uma “generosa indemnização” aos despedidos. Bem tentou o governo regional adiar a decisão de tal modo que, há dois meses, festejava um adiamento da desgraduação da base, como se as autoridades nacionais não soubessem que as Lajes deixaram de ser um dos postos de comandos das forças norte-americanas desde 1991 (US Commander in Chief Europe) – tiveram mais de vinte anos para preparar o que vinha, e agora gritam por socorro e indemnizações.

Em todo o caso, pelo menos desde outubro do ano passado, o governo regional começou a preparar alternativas e apresentou um plano, que Passos Coelho arquivou sem delongas. Esse plano previa medidas para a reconversão do aeroporto, com taxas como as de Santa Maria, medidas para alargar a capacidade e atractividade do porto da Praia da Vitória e outros investimentos para a criação de emprego. Será preciso muito mais (e será preciso que um plano deste tipo seja aprovado malgrado as resistências de S. Bento) mas esse é o único caminho que pode criar os empregos necessários na ilha Terceira.

A reconversão da base dispensando a presença norte-americana é uma necessidade para Portugal. Será feita a bem (com preparação adequada) ou a mal (a lastimar a decisão de Obama e de quem vier e a esperar uma esmola). Mais vale que seja uma decisão nacional e um plano nacional para responder a uma questão nacional. A isso costuma chamar-se soberania, mas podia chamar-se “então não se estava a ver que tinha mesmo que ser”.

Comentários

  1. Para se estar na política com honestidade é preciso ter um grande estômago. Eu que mal sei ler e escrever entendi do artigo , em causa que mostra preocupação para a inércia que se verifica desde 1991 para se criarem alternativas ao que vai acontecer.. Mas alguns comentários que aqui foram proferidos só revelam ódio a quem insiste em defênde-los, é como se estivesse a dizer vão-te roubar a casa, e ser ele o culpado se vier a acontecer. Tenho 63 anos, depositei toda a confiança no povo português com a liberdade que se alcançou. Enganei-me temos o que merecemos.

  2. Meus conterrâneos. Acho que o que foi escrito pelo Louçã não tem nada de mais e até acrescento que andámos desde 2009, quando saíu pela primeira vez um artigo da Defesa norte americana sobre a base das Lajes tirando a sua importância, a assobiar para o ar. Foram 5 anos que muita coisa poderia e deveria ter sido feita. Mas não!! À boa maneira portuguesa deixamos tudo para a última e agora ficámos com as calças na mão. Mas não duvidem que alguém ou algum lugar, menos a Terceira, vai beneficiar com a saída dos americanos. É sempre assim!! Para lá vamos!!!

    1. Sim, teria sido importante usar o tempo para consolidar alternativas. É preciso levar a criação de emprego muito a sério e não se consegue nada de um dia para o outro. Perder tempo foi um erro.

  3. Gosto muito pouco de insinuações e muito menos de pseudo ameaças independentistas. Açores foi, é e sempre será Portugal. Quem quiser destinos diferentes ou deixa de mamar a conta de lisboa ou então emigra.

  4. Os Açores foram o grande farol do Atlàntico Norte, em particular durante o século passado, quando a Europa foi resgatada, por duas vezes, da Alemanha. Não conheço o acordo, mas sei que acordos desta natureza não são eternos. Há quase um quarto de século que, mesmo um cego, via que o desfecho actual seria inevitável. Agora, assobiamos às botas.

  5. Mais necessaria do que os teus comentarios…sobretudo porque foi a mesma que providenciou emprego e sustento a milhares de familias acorianas, a mesma que permitiu que a forca aerea do teu pais pavoneasse avioes de combate de ultima geracao, que permitiu que o ministro dos negocios estrangeiros gastasse fortunas na FLAD em carros e arte francesa, que permitiu que o governo do teu pais metesse ao bolso milhoes na altura das contrapartidas…eu digo-te do ponto de vista de um acoriano o que nao faz falta por ca…politicos acabados de extrema esquerda cuja opiniao ja nao conta, apenas irrita, porque a expressao daquilo que tu representas aproxima-se finalmente daquilo que tu es…zero.

    1. A democracia beneficia sempre de se poder ler o ódio em estado puro, para percebermos o que não serve para nada. Por isso, estou agradecido ao hHelder Costa. Ainda bem que tivemos aviões para nos pavonear e fortunas gastas em “arte francesa”.

    2. Nao tem de que Francisco Louca…nao o vi no entanto escrever que ainda bem que houve milhares de familias acorianas com comida nas suas mesas, mas ja sabe sempre que necessitar de comentarios odiosos…nao hesite…procure um acoriano que trabalhe na base das Lajes como e o meu caso, fale-lhe em tom jocoso daqueles que bem ou mal se prestam a defesa do seu posto de trabalho…”et voila” como diria certamente o nosso Sr. Ministro, o da arte francesa…no entretanto “desculpai la qualquer coisinha”…

    3. Este é o problema do insulto: o insultante insulta quem defende a criação de postos de trabalho numa economia sustentável para proteger os trabalhadores, mas aplaude e espera os favores dos que estão a despedir os seus colegas, a “tirar a comida das mesas das famílias açorianas”.

    4. Caro dr Francisco Louçã; o problema é que, além do próprio conteúdo do texto, acresce o seu tom PATERNALISTA, com os quais discordamos e dispensamos, respectivamente. E eventualmente terá sido esse paternalismo a motivar o comentário “agressivo” do meu conterrâneo que, concordo, não leva a lado nenhum. Quanto ao conteúdo, é mais um indicador que o seu brilhantismo como professor (do ISEG, fac. da qual tenho orgulho de ter sido aluno) e investigador é inversamente proporcional à sua capacidade como estratega. Tem de perceber que a cúpula americana só entende a linguagem da força. Eles não respeitam e não se preocupam com quem demonstra fraqueza.
      Volto a dizer algo que já escrevi algures: utilizar o trunfo chinês é simultaneamente a melhor forma de: 1) Pressionar o reconsiderar de posição por parte dos EUA e; 2) Efectivamente começar a trabalhar nessa alternativa REAL de substituição dos proveitos económicos.
      E é uma hipótese real. Embora claramente o dr Louçã não esteja na posse de “inside info” acerca disto, basta ser observador e um pouco perspicaz… Que razões estapafúrdias encontra para o facto do primeiro-ministro e presidente chineses irem àquela ilhota no meio do Atlântico, no último par de anos? Para passearem e verem as paisagens..?!
      Sim, eu sei que a China está demasiado capitalista para o seu gosto pessoal… Mas a escolha tem de ser dos açorianos e não do governo central, por mais que nos pressionem noutro sentido. E lutaremos até ao fim para que assim seja! Quem manda nos Açores são os açorianos! (Não confundir com o colocar em causa a soberania portuguesa)
      Sim, existem questões pertinentes em relação à China, nomeadamente quanto a princípios básicos universais no campo dos direitos humanos. Mas, atente-se, se o próprio estado não se coibiu de estabelecer parcerias estratégicas com paladinos da democracia como Líbia (ainda nos tempos do Kadafi), Venezuela, Rússia e Angola…
      Quanto às “insinuações” de Vasco Cordeiro, acho que até foi bem explícito… Só não percebe quem não quiser. E que fique bem claro que, a confirmar-se, veremos o acontecimento como uma tremenda traição aos Açores e certamente agiremos de acordo com esse sentimento.
      Na próxima vez que for passar férias à Graciosa, com tanto gosta de fazer, observe melhor a sociedade local. Aproxime a teoria à realidade. As pessoas não são apenas números…

      P.S.: Não tenho cor partidária. E é-nos irrelevante a cor do Vasco Cordeiro. É importante perceber que a população açoriana apoia TOTALMENTE Vasco Cordeio nesta matéria, independentemente das cores. E é fundamental perceber que esta questão está a gerar uma clivagem enorme entre Açores e o estado, com consequências potencialmente perigosas.

    5. Nao…o problema do insulto e que depois de escrito jamais podera ser apagado, como desejaria neste caso o insultante, no entanto o insultante acredita na honestidade dos governantes eleitos democraticamente pelos acorianos e deseja tambem acreditar que o insultado gostasse de rever o titulo da sua cronica o qual fere os que infelizmente serao descartados.

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