Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

19 de Janeiro de 2015, 09:09

Por

O murro de Francisco e as razões das religiões ofendidas

charlieSempre radical, o Papa Francisco surpreendeu todos os intérpretes dos abjectos assassinatos de Paris: os ideólogos da típica resposta militarizada terão ficado chocados por ele ter condenado energicamente todos os terrorismos, misturando deliberadamente os das religiões e os dos Estados, e os defensores da liberdade de expressão terão ficado assarapantados com a sua defesa de uma resposta musculada a insultos pessoais (o murro), tratando nesses termos a religião, porque “não se pode provocar nem insultar a fé das outras pessoas”. Afinal, em que é que ele tem razão, porque só a pode ter num dos seus discursos e não nos dois ao mesmo tempo?

O facto é que estes atentados, como todos os trágicos acontecimentos de ruptura, provocaram um debate aceso e um deslizamento ideológico que ainda só começou. As opiniões tocam-se em alguns ponto e afastam-se noutros, formando um nevoeiro que é dificilmente legível por entre as proclamações cerimoniais, de que a presença de tantos governantes na manifestação do luto foi um exemplo. Todos Charlie? E o que é que isso quer mesmo dizer?

Nesta névoa dos significados insinuados e das generalizações confortáveis emergem radicalidades espirais, como as atitudes discriminatórias suaves, um dos caldos de cultura do perigo xenófobo. Por exemplo, os franceses de origem árabe são tratados banalmente na imprensa como sendo todos muçulmanos (“a França tem cinco milhões de muçulmanos”; e os outros, 60 milhões, serão todos católicos?), registando assim uma catalogação que discrimina porque associa e aponta características que só dizem respeito a cada consciência. E, pior, o Islão é tratado como uma “religião perigosa”, como se não tivessem todas sido perigosas a seu tempo e durante tanto tempo, como aqui escrevi.

Valorizo por isso os comentadores que se arriscaram a perturbar o consenso, porque sentiram o perigo do ovo da serpente.

Manuel Loff critica o discurso oficialista, a pompa de Hollande e dos que estão sempre dispostos a reduzir a liberdade a pretexto da liberdade (e ainda estamos para ver o que resultará da ocasião de alto nível entre a ministra da administração interna e o deputado socialista Jorge Lacão). Alexandra Lucas Coelho surpreende-se com o cinismo de Netanyahu, e como não podia, ela que o conhece tão bem? Boaventura Sousa Santos historia a atitude “ocidental” que semeou o colonialismo e depois as guerras, como as que agora mancham a humanidade da Líbia à Síria e ao Iraque, com a sua cultura de desprezo pela vida e de humilhação das populações. Pacheco Pereira, contrariando a facilidade, lembra que a França não é um modelo de liberdade de expressão: o Hara Kiri, precursor do Charlie Hebdo, foi interditado pelos gaullistas, mas também se poderia lembrar os vários partidos de esquerda que foram proibidos depois de Maio de 68 e ainda nos anos 1970. Ou poderíamos acrescentar as leis espanholas sobre o direito de associação e de manifestação, ou a perseguição a Julian Assange e o ataque aos computadores do jornal The Guardian. Como eles e ela, sublinho que o unanimismo oficial é preocupante porque novas leis sobre a tutela do espaço público, seja da liberdade de imprensa e opinião, seja da internet, são ameaças perigosas em Estados que, para mais, têm longo historial de cedências ao autoritarismo e de atitudes ligeiras quanto à liberdade. E que nada disto é novo: todos os erros que agora se possam cometer em excesso já foram inventados em defeito.

No entanto, a pergunta mais difícil é esta: “A defesa da laicidade sem limites numa Europa intercultural, onde muitas populações não se reconhecem em tal valor, será afinal uma forma de extremismo?” (Boaventura Sousa Santos). É a pergunta do Papa (com a consequência do murro). Teixeira da Mota responde categoricamente que não a uma questão semelhante, defendendo que a laicidade é o único espaço que reconhece a liberdade, incluindo a liberdade religiosa. Se o seguirmos, ficamos na posição que não desvaloriza nenhuma cultura e que aceita, como modo da sua convivência, o direito de expressão de todas sobre todas: o universo satírico do Charlie Hebdo tem a sua legitimidade na crítica libertária e libertina a todas as instituições e poses sociais, a religião muçulmana, como as outras, tem o seu fundamento nos seus mandamentos, e a laicidade garante o direito de ambas.

Mas Boaventura considera que alguns dos cartoons do Charlie Hebdo eram “propaganda racista e (alimentavam) a onda islamofóbica e anti-imigrante”. Ou seja, ultrapassavam o limite da tolerância e da convivência, e portanto, deveria concluir-se, rompiam o espaço da liberdade. Mais um vez, esta é a ideia do Papa, porque aceita a identificação da origem étnica com a religião (mas desenhar um árabe não é islamofobia, como desenhar um judeu não é anti-semitismo, ou desenhar um português não é anti-catolicismo) ou aceita que a representação caricatural de Maomé seja um insulto.

Ora, creio que esta imputação nos deixa desarmados. Porque, se é a percepção das pessoas ou comunidades caricaturadas que determina a legitimidade da caricatura, ela será sempre impossível. Se é a regra ritual da representação religiosa, que vigora no espaço de culto (Maomé não pode ser desenhado numa mesquita), que passa a determinar os limites da representação artística (em contrapartida, Maomé é desenhado nos mercados de Teerão), então ela será interdita. Mais ainda, se o não reconhecimento da interculturalidade ou da laicidade veta a sua legalidade (porque seria vista como “extremista” pelas populações que nela não se reconhecem), então não ficamos num mundo relativista, porque nesse ainda se desenhariam fronteiras, mas caímos antes num paradoxo cego, porque deixamos de ter regras para definir regras para todos. Nem pode nesse caso haver regras para todos, porque qualquer cultura (como uma religião) terá o direito sagrado de veto sobre a liberdade no espaço público em que convive.

É certo que as caricaturas do Charlie Hebdo eram agressivas, e continuarão a ser agressivas, como se verifica na edição da semana passada. Uns gostarão e outros detestarão. Só que, como lembra Pacheco Pereira, isso é comum na sociedade comunicacional. Sim, tantos discursos políticos são agressivos, os noticiários da Fox News ou da CMTV são agressivos, a Casa dos Segredos é um tormento, as capas do Correio da Manhã são espantosas, os discursos da senhora Le Pen são provocações, os que perseguem os “ciganos” do RSI também são. E muitos desses sinais são insinuantes e falsos, calculistas e insultuosos. A resposta da cultura do direito tem sido garantir a sua liberdade de opinião.

Se a liberdade de expressão tem limites, eles são explicitamente definidos na lei, que consagra o entendimento das forças dominantes ou dos contratos dentro de uma sociedade (a representação que aprova uma agressão a uma criança ou a uma mulher é um crime, a promoção do crime é crime, o insulto racista é crime, etc.). São limites sindicáveis e modificáveis pelos consensos políticos e, se são tantas vezes gerados na obscuridade da política, submetem-se apesar disso a regras de explicitação que reduzem o poder interpretativo e discricionário de qualquer poder que, se transcendental, se legitima a si próprio e se torna absoluto. Uma cultura religiosa a esclarecer os limites da caricatura é sempre menos do que uma regra de laicidade, porque na primeira só cabem os conversos e fiéis, ao passo que na segunda cabe a liberdade para todos.

Se a pergunta do Papa for, então, se devemos reduzir a laicidade a uma regra de comunicação em que as religiões ou outras formas de cultura deixam de ser questionáveis pela arte ou pela crítica, ficando imunes ao risco do insulto, então creio que a resposta deve ser não. Ao Papa deve então ser dito que a liberdade inclui o direito de se defender do insulto, e que com liberdade menor não sobra nenhuma cultura.

 

Comentários

  1. Se lermos alguns dos textos, que na net nos surgem, ao digitarmos “assassínios seletivos”, rapidamente se desfocam as questões de Direito a liberdade de expressão. O Direito à Vida sobrepõe-se! Tomamos sim consciência que vivemos em guerra! Só que enquanto as balas e as bombas estoiram longe: não as sentimos. Há Franciscos que digitam, outros não? Não! Que se passa então?

  2. Necessariamente denso, o seu texto. Tem, no entanto, uma ferida. Ao dizer que só a laicidade é garante de liberdade esquece-se que são, na generalidade, os países de tradição católica os mais tolerantes. Percorra mentalmente o globo e verá que tenho razão. Se nesses países há uma minoria “falante” que despreza a razão católica, pensa-se que é a laicidade que trás a tolerância e, consequentemente, a liberdade. Só tenho liberdade se forem tolerantes comigo. O que o Papa Francisco pede é, apenas, que quem quiser usar a sua liberdade em pleno, o deve fazer com educação. Um valor cada vez mais raro. “Eu digo o que me apetecer! Quem não estiver bem que se ponha!” é, normalmente, sinónimo de má-educação. O Papa Francisco alerta, porém, que toda essa liberdade pode esbarrar-se numa reacção violenta se forem ultrapassados os limites de quem pretendemos atingir. É preciso estar atento.
    Dou-lhe um exemplo rápido. Um amigo meu fala “das gajas” de forma extremamente ordinária e vulgar. Acha graça. Nunca o ouvi dirigir-se em termos inconvenientes a uma mulher, mas fala delas. A conversa incomodava-me. Apesar de ele ter total liberdade para se exprimir como quisesse pedi-lhe, educadamente, que não usasse aquele tipo de linguagem quando eu estivesse presente. Ele concedeu. Eu não queria limitar a sua liberdade de expressão. Queria apenas que ele não ofendesse a minha boa-educação. Deixei ao critério dele continuar na mesma ou deixar de contar com a minha amizade, o que seria um desfecho violento.

  3. A resposta, sim, tem de ser não. O relativismo amedrontado (Rushdie: “o respeito pelas religiões tornou-se hoje sinónimo de medo das religiões”) tem de repensar os seus auto- ou heteroimpostos limites. Obrigada pela crónica certeira.

  4. Delaração de interesse: Para mim o sagrado é o outro na sua singularidade. Poder e dever – O discurso da liberdade é o discurso de poder (eu posso fazer, eu posso dizer, eu posso pensar, eu posso …). O discurso da ética é o discurso de dever (eu devo fazer, eu devo dizer, eu devo pensar, eu devo …). O imperativo da liberdade diz-me que posso e o imperativo da ética interroga-me se devo. A liberdade ilumina a ética e a ética fecunda e regula o exercício da liberdade nos contextos sociais. A liberdade e a ética não podem viver de “costas voltadas” porque é o diálogo permanente entre ambas que torna possível a dimensão comunitária do humano. À questão de saber se, no exercício da liberdade de expressão, posso ofender o que é sagrado no outro, responderia: Posso mas não devo! Citando Paulo de Tarso: “Sei que posso fazer tudo, mas nem tudo me convém”.

  5. Nenhuma ideia, em si, pode ser colocada para além da apreciação crítica, entendida esta no seu sentido mais amplo, incluindo a possibilidade de ser ridicularizada ou chacoteada. A religião, seja em que forma for, é uma ideia, um sistema de ideias, que do ponto de vista da objectivação racional não merece qualquer distinção sobre todas as outras. A religião não é uma entidade susceptível de sofrer injuria.

  6. E assim continua a atentar-se no bode expiatório das ofensas e da liberdade de expressão e os verdadeiros problemas continuam a ser ruído de fundo… o atentado ao sagrado é apenas a desculpa óbvia do radicalismo religioso, sempre foi e sempre será. O próprio papa só apela a dar um soco a quem lhe insulte a mãe. Porque é que, então, o discurso se centra em redor da liberdade de expressão e não nos perguntamos mais sobre como é que a Al Qaeda, mesmo cometendo atrocidades como as que já cometeu, continua a achar prosélitos para a sua causa? O divino é o que os que se sentem injustiçados e desesperados procuram. Quais serão então as injustiças que alimentam as causas do radicalismo religioso? Não estará a ser o debate em redor da liberdade de expressão (Alguma vez deixou de estar garantida? Alguma vez precisou de ser legitimada? Claro que não, reiterar os seus princípios apenas nos satisfaz a nós que sempre gozámos dela) o verdadeiro atentado à nossa liberdade colectiva? Os irmãos Coulibaly foram, sem dúvida, peões de um jogo. Agora qual é o jogo de que estamos a falar, e quantos mais irmãos Coulibaly teremos de testemunhar enquanto a realidade é cuidadosamente distorcida à nossa frente?

  7. Belíssimo, o artigo! Obrigado! [Queria enviar este ‘comentário’, e eis que me aparece a seguinte fórmula no ecrã (cito de memória): “Está a ser demasiado rápido a enviar comentários. Paciente mais um pouco.” Que diabo quererá isto dizer? Bem, vou tentar de novo o envio, a ver o que isto dá. Em todo o caso, o essencial é o comentário inicial em si, com ou sem aspas. Não o modifico.]

  8. Não há contradição alguma nas declarações do Papa Francisco… (e, antes de continuar, devo dizer que não sou católico praticante e não me lembro da última vez que fui à missa, relaciono-me com protestantes, mas não me confesso evangélico, já li o Corão e aprecio a filosofia budista… sou solteiro e não tenciono casar, vivo em união de facto e tenho uma filha de uma relação anterior… aprecio Saramago e desconfio sempre das boas graças dos padres da Igreja… eu, que como muitos portugueses, pelos meus marcados traços morenos, que me distanciam do típico norte-europeu louro e de olhos azuis, admito que provavelmente descenderei de judeus sefarditas, cristão-novos à força convertidos, ou quem sabe até se o “cante” do “fado” seja a reminiscência da minha alma moura… Posto isto, não me compete, portanto, aqui servir de advogado do Papa e menos ainda dos católicos!).
    Com efeito, quem for verdadeiramente conhecedor da boa-nova de Cristo (e muitos cristão, infelizmente, ainda não conheceram verdadeiramente a amplitude da sua mensagem) sabe que a exortação do Amor («um único mandamento vos dou, que vos Ameis uns aos outros como eu vos amei.» Jo15:21) não é compatível com a violência. E Jesus Cristo – ao contrário das expectativas messiânicas de muitos judeus – não foi mais um “zelota”, nem o grande Rei guerreiro, da estripe de David guiado pela mão do todo-poderoso Senhor dos Exércitos, exterminando os inimigos e opressores do povo de Israel (acrescentando assim mais um capítulo ao Deus irado do Velho Testamento – “caricaturado” na escrita de Saramago). E nesta linha do Amor como via da transformação da humanidade pela “não-violência” se viriam a destacar no irromper do século XX duas notáveis figuras que, por sinal, trocariam entre si correspondência: Tolstoi (na sua obra porventura menos conhecida – O reino de Deus está em Vós, na qual critica a decadência da Igreja Ortodoxa da Rússia) e Gandhi, símbolo da resistência e independência das índias ao extenso (quase-omnipresente) Império Britânico… E são de Gandhi, como grande religioso e político que foi (- ou serão política e religião incompatíveis?) as seguintes frases, que à partida até poderiam ser atribuídas a muitos seguidores de Cristo: «O amor nunca faz reclamações; dá sempre. O amor tolera; jamais se irrita e nunca exerce vingança», «A lei de ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos», «O fraco nunca pode perdoar, o perdão é um atributo dos fortes», «As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos por caminhos diferentes, desde que alcancemos o mesmo objectivo?», ou, ainda «Não conheço ninguém que tenha feito mais para a humanidade do que Jesus. De fato, não há nada de errado no cristianismo. O problema são vocês, cristãos. Vocês nem começaram a viver segundo os seus próprios ensinamentos».
    Eis a questão colocada por Francisco: “não se pode provocar nem insultar a fé de outras pessoas”. Ou será que se pode? Jesus, nascido judeu, foi bastante crítico da conduta dos fariseus, líderes religiosos do seu tempo… e o que sucedeu ao Cristo? Enquanto Pilatos lavava as mãos, não vendo falta alguma no Filho do Homem que dizia que o seu “Reino não é deste mundo!”, a multidão de fanáticos apela à crucificação (enquanto o salteador – “Soltem Barrabás!” – lhes parecia homem de melhor conduta moral!)… Por sua vez Gandhi, a “grande alma” inspiradora da tolerância e da não-violência, morreu do tiro assassino que segregou irremediavelmente as índias entre hindus e muçulmanos… Em súmula: Para os homens que buscam a elevação espiritual, seguindo a divindade de Cristo, ou o exemplo da determinação de Gandhi, o Amor é uma força que liberta! Mas, para os “religiosos”, temerosos ao Deus omnipotente da “misericórdia” e da “ira”, a “liberdade” é sempre um perigoso e maléfico desvio aos dogmas, leis e preceitos revelados por Deus aos profetas! Para Cristo a “liberdade” de SER teve o preço da cruz… e, para muitos homens e mulheres imolados em nome da fé, teve as arestas das pedras e as brasas das fogueiras que condenaram as heresias à pena da morte – logo, daqui se conclui que pela mão irada dos homens que dizem fazer justiça em nome de Deus, “liberdade” e “paz” são afinal incompatíveis! E Francisco, enquanto líder religioso, entre “liberdade” e “paz”, optou obviamente pelo segundo…
    =» A contradição a que alude Louça não está entre “condenar a violência” (e o terrorismo) e “defender a tolerância religiosa” (precavendo-se contra “insultos à fé dos outros”)… antes, de forma inteligente, se lhe coloca no óbvio que a maioria dos Charlis e outros comentaristas de jornal ainda não discerniu, entre a “liberdade de caricaturar Maomé” e a “paz” que sabe não estar ao alcance da compreensão dos fanáticos!
    Para a França laica dos “Charlies” o dilema coloca-se de forma aterradoramente simples: “se quereis a liberdade para satirizar Alá e o profeta, então tereis de conviver no sobressalto da privação da Paz”, no alarme entre a ameaça insane do fundamentalismo islâmico e edificação de um Estado-livre-policial a condizer – com um polícia a cada esquina, câmaras de vigilância a cada m2 e agentes secretos com liberdade para bisbilhotar a privacidade da cada um… em nome da liberdade!
    E tudo isto nos deve levar a uma reflexão maior – estará o laicismo, herdado da República Francesa, caduco e ultrapassado? Objectivamente, sim! O laicismo, aliado ao ateísmo militante, tornou-se também ele fonte de arrogância, intolerância, ignorância e desrespeito pelo valores humanos. O laicismo, como conhecemos em Portugal, foi de grande relevância política na “libertação” e “progresso” das mentalidades retrógradas e conservadoras que prendiam os portugueses à formação de um carácter temeroso, intriguista, mesquinho e delatório herdado dos tempos da inquisição e do confessionário do catolicismo… o laicismo, separando Estado e Igreja, procurou ainda por termo a ingerências mútuas na disputa pelo poder secular… Mas o laicismo ateísta mais do que relegar Deus para um segundo plano, procurou aniquilá-lo – e, com isso, inadvertidamente profanou o sentido da vida para milhões de cidadãos que continuadamente buscam no sagrado o conforto ou salvação para as suas vidas decadentes, descrentes e desesperançosas (seja, para o crente “religioso” que busca na religião a disciplina moral, o conforto e protecção de uma grande família – e muitas vezes, as igrejas e templos são sinónimo positivo de caridade, solidariedade e entreajuda material que falta cada vez mais num Estado que se demite das suas responsabilidades sociais, de uma sociedade também ela desigual e menos fraterna! – seja, para o “peregrino” que na sua longa caminhada solitária busca a elevação espiritual que o aproxime de Deus e o torne, no contacto íntimo com o divino, santo, no que divino pode também ser todo o Homem!)…
    Deste modo, o laicismo – vingado que está o legado republicano! – está descontextualizado na sua razão ideológica de existir. O que, neste novo século XXI se exige aos Estados é que não voltem costas Deus (e aos deuses)… Não, não se trata aqui de defender um religião oficial para cada Estado ou Federação, à qual deva ser submetida a doutrinação dos livres cidadãos… Nada disso! O que se pretende é que – a começar pelas escolas – se dê liberdade de Deus ser Deus (e os deuses, deuses). Já fora no âmbito de uma catequese obrigatória, o ensino nas escolas das “ciências das religiões”…
    Isso mesmo, o ensino metodológico e científico, que em total liberdade tragam ao conhecimento dos educando a diversidade de religiões (ensinamentos, princípios teológicos, doutrinas, etc.), filosofias e valores éticos, humanistas e morais… que, libertando-o da ignorância e do preconceito (e há muitos Charlies dados à islamofobia!…), o introduzam na relevância do fenómeno religioso, enquanto experiência colectiva da humanidade ao longo das eras e das civilizações. Com que objectivo? Para que em liberdade, sabedoria e consciência cada Homem melhor compreenda o significado da diversidade, da tolerância e do valor das suas escolhas (inclusive para escolher – e não lhe ser imposto! – ser laico, agnóstico e ateu!)

    1. > Isso mesmo, o ensino metodológico e científico, que em total liberdade tragam ao conhecimento dos educando a diversidade de religiões

      Ou uma coisa ou outra. Ensino científico de dogmas? Como é que se faz isso?

      Pior é dizer “bem, o 25 de Abril passou, pronto, vamos voltar ao antigamente, foi só uma fase”. E que raio é “laicismo ateísta”? Um pleonasmo.

    2. A/C Somini
      Dê uma espreitadela pela excelente trabalho que tem sido feito por Paulo Mendes Pinto… que por sinal dirige departamento independente de Ciências das Religiões da U. Lusófona, por onde se tem formado em licenciados, mestres e doutores figuras dos mais variados credos e confissões religiosas.
      Sobre o pleonasmo “laicismo ateista” repare… uma coisa é defender a separação de poderes entre Estado e Igreja, com vantagens para ambas partes – e temos o Estado Laico. Outra coisa, é querer fazer daqui a propaganda ao ateísmo ou agnosticismo… Para mais, para defender a separação entre Igreja e Estado não obriga a que não se creia em Deus, ou deuses, ou em algum outro principio transcendente ou imanente ao Homem.

  9. Não há contradição alguma nas declarações do Papa Francisco… (e, antes de continuar, devo dizer que não sou católico praticante e não me lembro da última vez que fui à missa, relaciono-me com protestantes, mas não me confesso evangélico, já li o Corão e aprecio a filosofia budista… sou solteiro e não tenciono casar, vivo em união de facto e tenho uma filha de uma relação anterior… aprecio Saramago e desconfio sempre das boas graças dos padres da Igreja… eu, que como muitos portugueses, pelos meus marcados traços morenos, que me distanciam do típico norte-europeu louro e de olhos azuis, admito que provavelmente descenderei de judeus sefarditas, cristão-novos à força convertidos, ou quem sabe até se o “cante” do “fado” seja a reminiscência da minha alma moura… Posto isto, não me compete, portanto, aqui servir de advogado do Papa e menos ainda dos católicos!).
    Com efeito, quem for verdadeiramente conhecedor da boa-nova de Cristo (e muitos cristão, infelizmente, ainda não conheceram verdadeiramente a amplitude da sua mensagem) sabe que a exortação do Amor («um único mandamento vos dou, que vos Ameis uns aos outros como eu vos amei.» Jo15:21) não é compatível com a violência. E Jesus Cristo – ao contrário das expectativas messiânicas de muitos judeus – não foi mais um “zelota”, nem o grande Rei guerreiro, da estripe de David guiado pela mão do todo-poderoso Senhor dos Exércitos, exterminando os inimigos e opressores do povo de Israel (acrescentando assim mais um capítulo ao Deus irado do Velho Testamento – “caricaturado” na escrita de Saramago). E nesta linha do Amor como via da transformação da humanidade pela “não-violência” se viriam a destacar no irromper do século XX duas notáveis figuras que, por sinal, trocariam entre si correspondência: Tolstoi (na sua obra porventura menos conhecida – O reino de Deus está em Vós, na qual critica a decadência da Igreja Ortodoxa da Rússia) e Gandhi, símbolo da resistência e independência das índias ao extenso (quase-omnipresente) Império Britânico… E são de Gandhi, como grande religioso e político que foi (- ou serão política e religião incompatíveis?) as seguintes frases, que à partida até poderiam ser atribuídas a muitos seguidores de Cristo: «O amor nunca faz reclamações; dá sempre. O amor tolera; jamais se irrita e nunca exerce vingança», «A lei de ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos», «O fraco nunca pode perdoar, o perdão é um atributo dos fortes», «As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos por caminhos diferentes, desde que alcancemos o mesmo objectivo?», ou, ainda «Não conheço ninguém que tenha feito mais para a humanidade do que Jesus. De fato, não há nada de errado no cristianismo. O problema são vocês, cristãos. Vocês nem começaram a viver segundo os seus próprios ensinamentos».
    Eis a questão colocada por Francisco: “não se pode provocar nem insultar a fé de outras pessoas”. Ou será que se pode? Jesus, nascido judeu, foi bastante crítico da conduta dos fariseus, líderes religiosos do seu tempo… e o que sucedeu ao Cristo? Enquanto Pilatos lavava as mãos, não vendo no falta alguma no Filho do Homem que dizia que o seu “Reino não é deste mundo!”, a multidão de fanáticos apela à crucificação (enquanto o salteador – “soltem Babarrás!” – lhes parecia homem de melhor conduta moral!)… Por sua vez Gandhi, a “grande alma” inspiradora da tolerância e da não-violência, morreu do tiro assassino que segregou irremediavelmente as índias entre hindus e muçulmanos… Em súmula: Para os homens que buscam a elevação espiritual, seguindo a divindade de Cristo, ou o exemplo da determinação de Gandhi, o Amor é uma força que liberta! Mas, para os “religiosos”, temerosos ao Deus omnipotente da “misericórdia” e da “ira”, a “liberdade” é sempre um perigoso e maléfico desvio aos dogmas, leis e preceitos revelados por Deus aos profetas! Para Cristo a “liberdade” de SER teve o preço da cruz… e, para muitos homens e mulheres imolados em nome da fé, teve as arestas das pedras e as brasas das fogueiras que condenaram as heresias à pena da morte – logo, daqui se conclui que pela mão irada dos homens que dizem fazer justiça em nome de Deus, “liberdade” e “paz” são afinal incompatíveis! E Francisco, enquanto líder religioso, entre “liberdade” e “paz”, optou obviamente pelo segundo…
    =» A contradição a que alude Louça não está entre “condenar a violência” (e o terrorismo) e “defender a tolerância religiosa” (precavendo-se contra “insultos à fé dos outros”)… antes, de forma inteligente, se lhe coloca no óbvio que a maioria dos Charlis e outros comentaristas de jornal ainda não discerniu, entre a “liberdade de caricaturar Maomé” e a “paz” que sabe não estar ao alcance da compreensão dos fanáticos!
    Para a França laica dos “Charlies” o dilema coloca-se de forma aterradoramente simples: “se quereis a liberdade para satirizar Alá e o profeta, então tereis de conviver no sobressalto da privação da Paz”, no alarme entre a ameaça insane do fundamentalismo islâmico e edificação de um Estado-livre-policial a condizer – com um polícia a cada esquina, câmaras de vigilância a cada m2 e agentes secretos com liberdade para bisbilhotar a privacidade da cada um… em da liberdade!
    E tudo isto nos deve levar a uma reflexão maior – estará o laicismo, herdado da República Francesa, caduto e ultrapassado? Objectivamente, sim! O laicismo, aliado ao ateísmo militante, tornou-se também ele fonte de arrogância, intolerância, ignorância e desrespeito pelo valores humanos. O laicismo, como conhecemos em Portugal, foi de grande relevância política na “libertação” e “progresso” das mentalidades retrógradas e conservadoras que prendiam os portugueses à formação de um carácter temeroso, intriguista, mesquinho e delatório herdado dos tempos da inquisição e do confessionário do catolicismo… o laicismo, separando Estado e Igreja, procurou ainda por termo a ingerências mútuas na disputa pelo poder secular… Mas o laicismo ateísta mais do que relegar Deus para um segundo plano, procurou aniquilá-lo – e, com isso, inadvertidamente profanou o sentido da vida para milhões de cidadãos que continuadamente buscam no sagrado o conforto ou salvação para as suas vidas decadentes, descrentes e desesperançosas (seja, para o crente “religioso” que busca na religião a disciplina moral, o conforto e protecção de uma grande família – e muitas vezes, as igrejas e templos são sinónimo positivo de caridade, solidariedade e entreajuda material que falta cada vez mais num Estado que se demite das suas responsabilidades sociais, de uma sociedade também ela desigual e menos fraterna! – seja, para o “peregrino” que na sua longa caminhada solitária busca a elevação espiritual que o aproxime de Deus e o torne, no contacto íntimo com o divino, santo, no que divino pode também ser todo o Homem!)…
    Deste modo, o laicismo – vingado que está o legado republicano! – está descontextualizado na sua razão ideológica de existir. O que, neste novo século XXI se exige aos Estados é que não voltem costas Deus (e aos deuses)… Não, não se trata aqui de defender um religião oficial para cada Estado ou Federação, à qual deva ser submetida a doutrinação dos livres cidadãos… Nada disso! O que se pretende é que – a começar pelas escolas – se dê liberdade de Deus ser Deus (e os deuses, deuses). Já fora no âmbito de uma catequese obrigatória, o ensino nas escolas das “ciências das religiões”…
    Isso mesmo, o ensino metodológico e científico, que em total liberdade tragam ao conhecimento dos educando a diversidade de religiões (ensinamentos, princípios teológicos, doutrinas, etc.), filosofias e valores éticos, humanistas e morais… que, libertando-o da ignorância e do preconceito, o introduzam na relevância do fenómeno religioso, enquanto experiência colectiva da humanidade. com que objectivo? Para que em liberdade, sabedoria e consciência cada Homem melhor compreenda o significado da diversidade, tolerância e do valor das suas escolhas (inclusive para escolher – e não lhe ser imposto! – ser laico, agnóstico e ateu!)

    1. Ghandi era racista. Tendo que ingressar numa prisão na África do Sul terá ficado indignadíssimo por o haverem misturado com os “kaffirs” (pretos, raça negra, africanos, enfim, escolham a designação que mais vos aprouver segundo a vossa sensibilidade politiocorretês).
      Terá dito: “Entendemos que não nos classifiquem como brancos, mas porem-nos ao mesmo nível dos nativos parece-me demasiado. Os ‘kaffirs’ não são civilizados”.

  10. Caricaturas devem servir para indicar problemas e assim proporcionar soluções. Isso não se pode dizer das caricaturas irresponsaveis dos franceses, pelo contrário. Esses idiotas fazem o que fazem só porque podem e porque ganham dinheiro com a provocação. É um abuso da liberdade de expressão que também causa muitos problemas aos 5 milhões de muçulmanos mais ou menos pacíficos.

    Finalmente temos um papa inteligente e honesto, mas alguns só gostam quando ele diz coisas confortaveis.

    Eu sou contra o islão porque acho que é uma religião perigosa, sim. Este país já tem uma certa experiência com o islão e foi muito dificil expulsa-lo da península Ibérica. É uma religião que só é compativel com o Oeste quando os muçulmanos ignoram quase tudo dessa religião, como fazem os cristãos também com toda a barbaridade da Bíblia. Todas essas tres religiões relacionadas são um problema, porque lhes falta a sabedoria do Budismo por exemplo.

    Mesmo assim,. não vejo como ofender religiões quaisquer ajuda. É como ofender a mãe ou a filha de alguém.
    Seria bom declarar ilegal ofender religiões registradas e reconhecidas.

    1. Qual Oeste, o da Alemanha de 1939, apoiado pela Igreja Católica? De que Oeste é que se fala?
      Se calhar isto é muito recente, como fala do islão na península ibérica, que foi há quase 1000 anos. Então quê, Inquisição?

  11. quem não sabe conviver e respeitar o outro,não tem lugar em nenhuma sociedade.por exemplo:os fanáticos de qualquer religião,tal como os fanaticos da politica.marine le pen não tem lugar numa sociedade que se quer tolerante e minimamente compreensiva com o outro.e os seus apoiantes tambem não.nomeadamente…os portugueses.

  12. As crenças mais profundas dos seres humanos não deviam ser enxovalhadas para que alguém faça valer os seus pontos de vista políticos. Que era isso o que o CH fazia: com as suas sátiras aos profetas muçulmanos (nunca hostilizava os profetas judeus) tomava partido político por uma das partes numa contenda que no fundo, e vamos sempre dar à raiz do problema, é o conflito israelo-palestiniano. E quando se toma partido político por uma das partes da forma que o fazia o CH, estamos sujeitos a “aberrações” políticas como disse o Papa Francisco.
    A Europa já não se lembra do que é uma guerra (a última foi há tantos anos!), em que o objetivo é aniquilar o inimigo – na guerra vale tudo, perguntem aos militares. E daí as ondas de choque que um ato como este de Paris provocam. Porque no Médio Oriente e em vastas regiões de África acontecimentos destes são o dia-a-dia e já ninguém se manisfesta contra.
    Os terroristas de Paris executaram um ato de guerra semelhante aos que os Aliados fizeram quando bombardearam e destruíram a cidade de Dresden na 2.ª GG. A cidade em si não era um objetivo militar, foi um puro ato de terror e intimidação sobre a população alemã (mais de 20.000 mortos civis).
    Para os terroristas de Paris – que não me admirava, porque nasceram e foram criados em Paris, até poderiam concordar com o princípio da liberdade de opinião – a sua ação foi um ato de guerra e o objetivo era destruir aqueles que os atacam e indiretamente fazem propaganda a favor dos seus inimigos (judeus), e intimidar quem os pretenda imitar. Nós na Europa é que achamos que não estamos metidos numa guerra. O terrorismo (seja ele de pessoas ou de Estados) faz parte da guerra.

    1. Ver se eu entendi.
      O Charlie Hebdo despediu um director por anti-semitismo, mas está a favor de Israel?

    2. O CH despediu um dos seus jornalistas, Maurice Siné, em 2009 por ter escrito uma crónica que alguns disseram ser anti-judaica (no seguimento, o jornalista venceu um julgamento contra o jornal).
      Na raiz de todos estes acontecimentos terríveis está sempre presente o conflito entre palestinianos e judeus.

  13. Caro Sr F Louçã,
    Contrariando o seu ateísmo, uma das citações que mais aprecio é de Mark Twain: “O Homem foi criado ao fim de uma semana de trabalho, quando Deus já estava cansado.” Por isso mesmo não somos grande coisa, rapidamente arranjamos uma forma de perverter tudo: da energia nuclear à religião ou mesmo os princípios sociais. Para mim, estes actos não têm nada que ver com as viagens mentais de Boaventura Sousa Santos ou de Ana Gomes. São da natureza humana e foi exactamente isso que Francisco (o Papa) quis dizer. Quando algo nos diz muito a reacção tende a ser desproporcionada. Isso toca a todos. Eu gostaria muito de ver as reacções em Portugal se alguém começasse a cuspir na imagem de N.S. Fátima e tornasse essas imagens públicas… Com certeza teria a vida em perigo.
    O Homem desvirtua naturalmente a religião; ainda numa das últimas estadias em Portugal, soube que existe enorme tensão entre duas paróquias em Gaia porque a população de Canelas hostiliza do padre vindo de Vila D’Este, dando mais importância ao mensageiro do que à Palavra.
    O mais incrível é que os atentados de tão abjectos conseguiram transformar o ‘Charlie’, um pasquim de 5ª que ainda vive em 1968 e terrivelmente sionista, num símbolo de liberdade. Eu não sou Charlie, nunca fui e dificilmente o serei. Eu sou Eustace (“The New Yorker”).
    Cumprimentos.

    1. A Maité Proença veio para aí dizer que os Jerónimos eram feios, e acho que cuspiu não sei para onde, e não invadimos o Brasil.

    2. Caro somini,

      Até pensei em responder-lhe, mas o seu comentário é tão disparato e desligado do que escrevi que não vale mais do que estas linhas. E já está com sorte! Já agora aprenda, não é Maité, mas Maitê.

  14. A liberdade de expressão é para alguns políticos uma treta pois continuam a matar inocentes e não se passa nada, é o caso de Israel, Estados Unidos e foi vê -los na manifestação na frente.

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