Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

11 de Janeiro de 2015, 12:21

Por

Paris neste domingo de inverno

Perguntou-me alguém se me vou sentir bem, hoje em Paris, numa manifestação em que também desfilam, imunizados da plebe pelo rigor do protocolo de Estado, Sarkozy e Hollande, Netanyahu e Orban, Cameron e Passos Coelho, Juncker e tantos outros. Ou seja, alguma da gente que tem feito tanto mal à paz, ao respeito entre os povos, à Europa e até aos direitos democráticos, incluindo o direito de opinião e a liberdade de expressão.

Pois sinto-me mesmo bem. Porque estou onde a minha consciência me manda, a homenagear amigos, como Wolinski, de que aqui falei há dias, em defesa da cultura profana do Charlie Hebdo. E sobretudo porque acho que foi a força da liberdade dos jornalistas que levantou o povo perante o massacre e que mobilizou esses estadistas tão caricaturados e que, mesmo detestando ver-se no cartoon, só podem juntar-se à manifestação.

No desfile republicano de uma cultura popular que nasceu com a revolução francesa, que renasceu com o Maio de 68 e que fez viver a mais radical das liberdades, acotovelam-se decerto muitos calculismos. E até os que pensam que, se este for o enterro de tal iconoclastia, fica aliviada a deslocação. Mas, como acho que Bordallo Pinheiro se divertiria se visse o rei D. Carlos forçado a desfilar para o homenagear, estou certo de que os do Charlie Hebdo ainda desenharão o cinismo dos poderosos que tiveram que se calar e dobrar durante um dia.

Não, não são todos iguais nem são todos Charlie, nem Ahmed, nem as vítimas do supermercado judeu. O nome de tanta desta gente que vai de République a Nation é Liberdade, outros só ali estão porque há tanta gente que assim se chama. Aqui, é de Charlie Hebdo que se trata e não dos que desconfiam do riso e da sua irreverência. Por isso, que bela que é Paris neste domingo de inverno.

Comentários

  1. Lamento… Lamento que os dignitários’ mundiais’ – faltou lá o Obama (se calhar porque também não foi o Putin) – se tenham apartado da multidão. Razões de segurança não são justificação… A ‘retaliação’ recai sempre sobre os que não têm guarda-costas… Lamento que o Benjamin não tenha dado o braço ao Abbas (e vice-versa). Lamento que se tenham misturado alhos com bugalhos e que a difusão mediática se tenha concentrado em ‘meia dúzia’ de personagens que acham que ‘mandam’ no Mundo (ou, pelo menos, na Europa)… Lamento, pois estou à espera de uma marcha pela Nigéria, em que todos seremos ‘Baga’; e em que os ‘comerciantes da morte’ deixem de poder vender armas a todos os que lhes puderem pagar. Comércio de armas e ‘offshores’ financeiros têm de ser considerados crimes contra a humanidade! Abraço.

  2. Pois eu temo que esta «passerelle charlie» seja pronúncio de algo de muito mais terrível para os regimes democráticos. Assistiremos à progressiva redução dos direitos de livre circulação e livre expressão em nome da segurança, enquanto o povo grita nas ruas em êxtase «je suis charlie». Quem tem motivos para estar satisfeitos são os governantes, que a pretexto da defesa dos princípios democráticos irão apertar as tarraxas da censura e da opressão, não sobre os califados, bem entendido, mas sobre as populações que representam. Duas notas complementares: 1. Passou a ser aceitável e politicamente correcto dizer-se mal dos muçulmanos; 2. Causa-me certa espécie que os grandes grupos terroristas de raiz islâmica (e.g. Al Qaeda) não tenham jamais atentado (mesmo verbalmente) contra Israel.

  3. A haver cinismo entre os dignitários desenhá-lo-ia nalgumas cabeças entrapadas donas de meia Paris e que na sombra financiam o terror. Quantos aos demais, entre os ocidentais, creio que o que sinceramente os terá movido, sem reserva, mesmo entre aqueles que de algum modo tentaram controlar a liberdade de imprensa, será mesmo o repúdio do assassinato motivado por opinião. No 9/11 todos, no íntimo inconfessável, poderíamos, mais ou menos remotamente, identificar umas quantas acções que os agressores pudessem identificar como actos de guerra. Creio que é essa a grande diferença que explica esta mobilização massiva contra o assassinato, inclusivé em países muçulmanos.
    Identifico também cinismo em movimentações políticas que reputam de inidóneas certas figuras, por alegadamente haverem tentado de alguma maneira controlar a comunicação social, quando está no ADN de todas as forças políticas tentarem influenciar ou condicionar de alguma maneira a comunicação social, uma vez que a conquista do poder passa pela comunicação, informação, desinformação, para modelar a opinião pública. Aos que apontam cinismo, eu lhes aponto hipocrisia. Que bela foi Paris neste Domingo de inverno.

  4. Há só “minis”, de facto…!
    É intolerável abater vidas humanas para as silenciar. É intolerável Estados Islâmicos à solta a matar tudo quanto se mexe; é intolerável matar em nome da Democracia, para fazer regimes democráticos. A matança não deve ser discutível enquanto ato de livre-arbítrio. A vida não é discutível. Deixar de publicar ou fazer o que quer que seja por medo, fazendo assim o jogo dos facínoras, também não deve ser equacionável. Mas deixemos então a hipocrisia de lado, e as “minis”: vale tudo em Democracia? Pode-se fazer tudo o que que se quer?Publicar e falar seja o que for? Até onde vai então o limite? Qual é o limite da liberdade de expressão? Há muitos telhados de vidro, muito embora visões “somini” não os queiram ver ou discutir.

  5. Com todo o respeito — é assim, tem que ser com respeito — discordo da inclusão de François Hollande na lista das pessoas inconvenientes na manifestação. Que as havia, inconvenientes, havia. Mas considerar como tais Hollande, e até, peço desculpa, Passos Coelho, é um exagero. Ninguém é perfeito, nem os políticos. Daí a colocar estes dois, por exemplo, ao nível de Orban ou Netanyahu, o engano é patente, creio.

    1. Não são todos a mesma coisa. Mas Hollande escolheu para primeiro-ministro o seu ministro do interior que deportou uma jovem cigana de 15 anos, com a polícia a ir buscá-la ao autocarro da escola. Chama-se racismo, e estou certo de que está de acordo comigo. Quando se despertam e alimentam os demónios, eles vêm cobrar as suas vítimas e é o que se tem passado em França.

  6. “As consciências de cada um também devem refletir sobre as atitudes e a ética que nos guia em cada ato social, sem dogmas, sem fantasmas. Imagine-se o que era sair todas as semanas imagens do Papa com um preservativo no nariz, ou armado de uma mk 47, ou em poses obscenas?!”
    Depois de ver as imagens que o Prof. Marcelo mostrou do Charlie Abdo retiro esta frase. Confesso que não conhecia bem o jornal.

    1. A imagem do preservativo no nariz foi em Portugal, no Expresso. E o Vaticano mandou protestar. Lamentalvelmente, na minha opinião.

  7. “Ou seja, alguma de gente que tem feito tanto mal à paz, ao respeito entre os povos, à Europa e até aos direitos democráticos, incluindo o direito de opinião e a liberdade de expressão.”
    Pois nesta sua frase está o busílis da questão, meu caro Francisco. Aquele morticínio estúpido, sem razão de ser, com instintos de malvadez e selvajaria deu a esta gente, a estes líderes medíocres e amorfos, razões para se juntar e cantar aos sete cantos por liberdade, por direitos humanos, por direito à livre consciência. Que cinismo! Que hipocrisia! Que miséria, de facto, que se propaga por entre esta gente medíocre, que tem “governado” mal os seus povos. Reforço que condeno veementemente as execuções dos caricaturistas, jornalistas, polícias. Foi um ato de selvajaria sem razão de ser. E tanto mais sem razão de ser, que veio catapultar para a primeira fila estes estadistas hipócritas. Netanyahu, em Paris, numa manifestação em prol dos direitos humanos e dos assassinatos de jornalistas!? Isto só dá vontade de rir, mesmo! Que hipocrisia. Lamentando uma vez mais as execuções sumárias, não se deverá contudo questionar o que é a liberdade de expressão? Poderá fazer-se tudo numa liberdade de expressão? Poder-se-á todas as semanas editar imagens em forma de caricatura de um profeta de uma religião com milhões de seguidores? É óbvio que um Estado democrático permite, e deve permitir essa liberdade(de imprensa), mas as consciências, Caro Francisco, as consciências de cada um também devem refletir sobre as atitudes e a ética que nos guia em cada ato social, sem dogmas, sem fantasmas. Imagine-se o que era sair todas as semanas imagens do Papa com um preservativo no nariz, ou armado de uma mk 47, ou em poses obscenas?! Paz à alma dos que foram mortos(caricaturistas, jornalistas, polícia, segurança, cidadãos franceses que professavam a religião judaica) por um fanatismo que não tem lugar, ou não deve ter lugar, na profissão de religião, e que deve ser completamente repugnável.

    1. É hipócrita, mas como temos liberdade de expressão podemos apontar esse facto.

      Quanto ao resto, é mais argumentos sobre mini-saias e violações. Lá porque eu me sinto insultado pela TVI estar a dar outra vez a Casa dos Segredos não quer dizer que deva ter poder para os impedir. O perigo é no facto desse poder existir, porque assim pode ser usado quando mais convém. Ou há liberdade de expressão ou não, se é só para o “politicamente correcto” então volte o lápis azul. Para contrariar o que alguém ache como insulto deve haver mais expressão e não menos.

      Depois de se saber o que se sabe sobre as atitudes da Igreja quanto a abusos a menores, poses obscenas com o Papa era o mínimo.

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