Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

6 de Janeiro de 2015, 09:00

Por

Vem aí borrasca e da grossa

tempestUns dizem que vai tudo correr bem (Rui Tavares): “Da entrevista (de Draghi) ao jornal alemão retiro três coisas importantes para o nosso curto, médio e longo prazo. Primeiro: haverá ação para combater a deflação na Europa, provavelmente comprando dívida dos estados já no mês de janeiro. Segundo: não haverá saídas da zona euro, nem depois das eleições gregas. Terceiro: um dia será necessário falar de eurobonds, mas só depois de construir confiança entre os parceiros europeus”. Muitas certezas para o “nosso curto, médio e longo prazo”.

Outros dizem que a Europa está já a cair na crise (Thomas Piketty): “há, grosso modo, três possibilidades: uma nova crise financeira, um choque político vindo da esquerda ou um choque político vindo da direita”. Haverá sempre um choque, e é melhor que seja o segundo, com a vitória do Syriza, acrescenta Piketty (que foi um apoiante de Hollande e que agora rejeitou a Legião de Honra em protesto contra as políticas do governo socialista).

Em que ficamos?

Na minha opinião, os optimistas estão enganados e estão a enganar quem acredita no Pai Natal. Todos os sinais da nova crise financeira estão a acumular-se em cima de nós, como sugere Piketty, e basta olhar para as nuvens de tempestade, que andam perto.

Em primeiro lugar, há pânico nas Bolsas, acentuado com o mergulho do euro. O medo está a dominar os mercados, como aconteceu ontem, com a terceira queda abissal dos últimos doze meses. A instabilidade financeira tornou-se regra. Não sabemos como o euro pode responder a uma terceira recessão em seis anos.

Em segundo lugar, tudo isto acontece porque, por uma vez, os mercados têm razão num ponto: a deflacção está aí. Itália, Espanha, Grécia, Portugal, Suécia, têm os preços a cair, e a zona euro no seu todo também deve anunciar resultados semelhantes dentro de horas ou dias. Há oitenta anos que não se conhecia uma coisa destas na Europa.

As consequências da deflacção são dramáticas. Diminui o investimento e diminui o consumo; a crise da procura agrava-se. Aumenta o valor real das dívidas. A política monetária deixa de ter efeito. As empresas reduzem a produção e cortam preços, salários e empregos. O medo cria medo, os mercados financeiros já exigiram ontem juros mais altos às dívidas soberanas (incluindo à Alemanha) e vamos ver o que está para vir.

Milton Friedman, dado a estas ousadias, sugeria que, para corrigir a deflacção, se atirasse dinheiro de helicóptero para a rua. Mas se espera que Draghi faça isso com o seu sempre insinuado e ainda incógnito plano de compra de dívida soberana, tire o cavalinho da chuva. Um bilião de euros, o máximo que tem sido sugerido, é um esforço demasiado pequeno para as necessidades, nada resolve no caso português, grego, espanhol ou italiano, nem é um helicóptero que sirva ao euro.

Em terceiro lugar, ainda não passou uma década sobre o colapso do subprime, e estamos de novo com uma bolha imobiliária nas mãos. Em junho de 2014 foi o aviso do FMI, em maio já tinha sido o do BCE, e os preços do imobiliário continuam a subir (segundos cálculos do Economist sobre nove países, a sobrevalorização anda pelos 25%).

Em quarto lugar, a redução das taxas de juro facilitou uma bolha ainda mais perigosa: criou liquidez excessiva e sobrevalorizou os activos financeiros. Para mais, os mercados andaram a brincar à roleta russa e ignoraram o risco. Instalou-se a pândega e há quase 100 triliões de dólares em activos financeiros em jogo, o dobro do PIB mundial. Se, por causa da incerteza, os juros subirem, mesmo que um pouco, no início de 2015, este edifício vai abrir brechas.

Mas, em quinto lugar, a situação é ainda pior na zona euro porque não se sabe como se pode resolver o problema fundamental: descobrir quem manda quando é preciso gerir o dia a dia de uma crise. Merkel quer o Tratado Orçamental. Draghi quer aliviar a pressão sobre a dívida da Itália. Juncker anda perdido pelos corredores à procura do dinheiro para o seu plano fantasioso. A cúpula do BCE está dividida. Pior ainda, o Tribunal Constitucional alemão pode inviabilizar alguma medida de compra de dívida soberana, alegando que cria riscos para o orçamento alemão – João Cravinho dizia, no colóquio da Assembleia da República sobre a dívida, que tomava como certo que uma medida desse tipo pelo BCE seria chumbada pelo tribunal. Hans-Werner Sinn, o mais influente economista da direita alemã, alega o mesmo e por isso inventa subterfúgios, como a possibilidade de saída de alguns países do euro, para se candidatarem depois de novo, após a desvalorização das suas moedas (o que Merkel parece estar a admitir agora quanto à Grécia). Ou seja, ninguém sabe para onde se vai, excepto que continua a austeridade. Onze contra onze e no fim ganha a Alemanha.

No “nosso curto, médio e longo prazo” temos mesmo um problema imediato: ou resolvemos o problema da dívida e nos isolamos da recessão e da bolha financeira, ou estamos fritos. E para nos isolarmos da deflacção precisamos de sair do Tratado Orçamental. Para proteger o povo e o país, com segurança, precisamos de nos afastar da borrasca que aí vem.

Comentários

  1. Espero bem que Portugal verá aparecer muito em breve uma força semelhante à de Syrisa na Grécia ou do Podemos na Espanha, para ameaçar por sua vez esta estupidez merkeliana de querer apertar o cinto a todos os países ao mesmo tempo e reduzindo os mais frágeis a Nada !!! Que tal, meu caro Francisco, retomar as rédeas do Bloco e tentar conciliar pessoas de esquerda num grande partido deste género abrangente e capaz de fazer tremer o centrão responsável tão evidente da situação de Portugal.

    – See more at: http://www.leituras.eu/os-extremistas-poderao-salvar-a-zona-euro/?

  2. O conceito austero orientado para uma subordinação do trabalho assente em precarização, hierarquização e com perda de estatuto social do trabalho, terá como consequência uma economia doente com uma estirpe deflacionista.

    Numa sociedade como a portuguesa, pouco «meritocrática» e virada para o favor (ou cunha) vai amortecer a qualidade de vida dos cidadãos, baixar o valor do trabalho directo (salário) e indirecto (Estado Social) será a revolução social que os mercados compram pelo preço mais baixo de sempre e que pagarão o valor mais alto de sempre; O fim do capitalismo como o conhecemos (hoje).

    Uma ginada para a pior esquerda pode resolver o problema que os políticos europeus lançaram….

    Não se esqueçam do caso Grécia, o povo é chamado a resolver aquilo que os políticos não conseguem fazer!
    O povo vai guinar…

  3. Perante estes cenários só’ me apraz dizer, o Diabo que os carregue. Nao parece haver ponta por onde pegar… O’ sorte malvada!…

  4. Isto nunca mudará: “Os homens preferem geralmente o engano, que os tranquiliza, à incerteza, que os incomoda.” – Marquês Maricá (1773-1848)

    1. Caro “lj”:
      É sempre muito útil o socorro de uma boa frase-feita.
      Não é o caso (nem da frase, nem do “pensador”).
      Se “os homens preferem geralmente o engano…”, a tirada proto-filosófica deixa de fora os restantes, os que não cabem no advérbio.
      Sobre esses não temos o prazer de saber o que pensaria o pensador…
      Para mais, a quem a mudança incomoda, 1848 foi um bom ano para morrer…foi ano em que muitos se incomodaram com a ousadia da incerteza!

  5. A liberdade individual não é absoluta.
    (Perante esta afirmação praticamente todos farão um aceno vertical com a cabeça, em assentimento, e logo encolherão os ombros murmurando: “—que banalidade!”. Vejamos, contudo, até onde vai a unanimidade…)
    A liberdade individual é condição da dignidade de cada pessoa.
    Todas as pessoas merecem a mesma dignidade o que quer dizer que deve ser a mesma, a medida da referida condição ou seja, da liberdade de cada um.
    Não sendo a liberdade absoluta, mas sendo ela a condição da dignidade de cada um e devendo esta ter a mesma medida para todos, o carácter relativo da liberdade deverá, no seu limite mínimo, ser aquele que assegure a mesma dignidade pessoal.
    Vejamos exemplos extremos: a liberdade de iniciativa económica, com base na qual alguém se dedica ao comércio de escravos (seja de carne escrava, seja de trabalho escravo), por exemplo; ou ao comércio de armas melhor dito, ao comércio de guerras; ou ao comércio de “droga”. Não é preciso um grande esforço dialéctico para demonstrar que esse entendimento da liberdade económica conduz a vários patamares de indignidade humana.
    Em 2011 a dívida de Portugal representava cerca de 85% do PIB, o desemprego “estrutural” era de cerca de 6% e os juros do financiamento de tal dívida dispararam até cerca de 10%; hoje a dívida é de cerca de 134% do PIB, o desemprego é superior a 12% (desprezando os “estágios”, a emigração, etc…) e os juros descem para mínimos históricos. O Sr. Draghi abre a boca e os juros descem, o Sr. Draghi fecha a boca e os juros sobem. Note-se: o Sr. Draghi não faz nada; apenas diz que faz; por dizer ou por não dizer, os juros variam.
    O artigo do Francisco Louçã fala-nos ainda de outros exemplos, aparentemente menos extremos:
    • (..) estamos de novo com uma bolha imobiliária nas mãos. Em junho de 2014 foi o aviso do FMI, em maio já tinha sido o do BCE, e os preços do imobiliário continuam a subir (segundos cálculos do Economist sobre nove países, a sobrevalorização anda pelos 25%).
    • Instalou-se a pândega e há quase 100 triliões de dólares em activos financeiros em jogo, o dobro do PIB mundial.

    O desemprego, a ruína económica das famílias, as reduções salariais e das reformas, a redução de prestações sociais na infância, na juventude e na velhice, no desemprego, na doença, na deficiência não são também índices de indignidade humana?
    Os mercados dão por nomes bizarros, quase cínicos: “Standard & Poor´s”, por exemplo. Não vão a eleições. Compreenda-se: não se trata dos mercados onde se transacciona o que se produz trata-se dos mercados onde se transacciona o que não se produz, os mercados dos tais 100 triliões de dólares…
    Os mercados não vão em banalidades. Não é a dignidade da pessoa humana que é critério da liberdade, mas sim a liberdade que é critério daquela. E o expoente da liberdade é a liberdade económica! E o expoente da liberdade económica são os “mercados” que exprimem a plena liberdade do capitalismo financeiro.
    É preciso uma nova linguagem anticapitalista. Por irónico que pareça, a linguagem anticapitalista mais estruturada e contundente é, no momento presente, a do Papa Francisco (o Bergoglio, claro…): “esta economia mata”, diz ele na sua exortação Evangelii Gaudium. E se mata, é indigna, digo eu.
    A esquerda tem que encontrar essa linguagem claramente anticapitalista. É com palavras que nos pensamos. É das palavras que sabemos que se faz a estrutura do que pensamos.
    O Draghi fala a língua dos mercados; eles entendem-no. O Rui Tavares gosta das palavras do Draghi. Lê-as proféticas!
    Esquerda estranha esta, muito estranha…

    1. O anonimato não permite tudo, “jl”. O seu contributo foi pouco relevante, não foi?

    2. Gostei do seu comentário, João. Vou guardar ambos, o artigo e o seu comentário. Valeu realmente a pena ler.

  6. é assim
    tou com um problema que abro o link do artigo e o corpo de texto faz flash mas desaparece ; como uma ffenda que engolisse o corpo(texto) e isto pra vários dos recentes artigos e dos tres autores , e em três browsers distintos
    de maneir que só vejo o título do artigo e depois uma faixa de branco do tamanho de um dedo-real dos meus(pode ser o indicador) e logo as opções artigo seguinte / artigo anterior
    + os comentários , que são bem visíveis mas basicamente não tenho o texto para os interpretar.

  7. Francisco
    Uma boa análise, própria de quem pensa nestas coisas da economia e da política europeia. Não diria que é catastrofista nem agoirenta, sendo bastante realista. Mas fica sempre o travo amargo do “quanto pior melhor”, que a esquerda tanto gosta (mesmo que involuntariamente). O que eu gostava que fizesse é o exercício ao contrário, isto é, em vez de estar a apontar todos os factores que vão dar borrasca, tentar antecipar como é que o capitalismo pode safar-se de mais esta ameaça de borrasca, que truques vai utilizar e que cartas ainda têm no baralho (ou na manga).
    Discursos anteriores de “desgraça” foram muitos (desde o velho Marx) e o facto é que o capitalismo está aqui “p’ra dar e vender” (sic). Ou acredita que isto vai de vitória em vitória até à derrota final?
    Um estudioso da economia deve ser capaz de tentar antever como é que o capitalismo se vai safar de mais esta. Não vai ser “o mercado a funcionar” pois isso é uma balela das grandes, uma história para adormecer as criancinhas (nós). O mercado a funcionar de maneira random, em “free running”, não existe. Há sempre alguém por trás a mexer os cordelinhos, e o que eu gostava era que se pusesse na posição destes senhores que mexem nos “cordelinhos” e tentasse antecipar que medidas vão tomar para atenuar a borrasca e continuar a dominação. Aconteceu em 2008: os profetas ditaram a sua desgraça, a borrasca apareceu, esteve quase a afundar o navio, mas no final aproveitaram bem a onda e ainda nos puseram mais canga em cima. Cada vez há mais escravos no porão a dar ao remo. E os de cima nunca estiveram tão bem. Apesar da grande borrasca de 2008. E agora? Como é que eles vão cavalgar esta borrasca e continuar a dominar o navio?

    1. Respondem da mesma forma que têm usado até hoje: a austeridade para organizar o suporte à renda financeira e a uma subordinação do trabalho às novas condições de acumulação do capital (precarização, hierarquia). Ou seja, baixar duradouramente o valor do trabalho directo (salário) e indirecto (Estado Social). Mas será isso aceite pelas populações da Europa?

    2. Vão aproveitar a borrasca para fazer ainda pior. É a “Doutrina do Choque” de Naomi Klein. A pergunta de um milhão de dólares é a que faz o Francisco Louçã: será isto aceite pelas populações da Europa?

  8. não tenho nada contra a alemanha ,mas o ministro alemão das finanças(bastante parecido com o dr.strangelove do filme homonimo de stanley kubrick) parece apostado a pôr a europa a ferro e fogo.recorde-se que o subtitutlo do filme era:how i learned to stop worring and love the bomb.pois esta gente adora a crise,desde que ganhem muito dinheiro.enfim,sempre o dinheiro,sempre a ganância,este um verdadeiro problema “estrutural” dos seres humanos.

  9. Francisco, venha a borrasca. Neste contexto, mais vale quebrar que torcer. Mesmo ao nível geopolítico. A Alemanha precisa de ficar entalada entre uma nova União Europeia (França, Espanha, Itália, Grécia, Portugal – UK sairá da UE) e a Rússia e países limítrofes.

    1. Penso que é fantasiosa essa ideia. Isso aconteceria se a Alemanha saísse ela própria, ora, se isto acontecesse, a França passaria, nesse hipotético cenário, a representar o actual papel da Alemanha e assim sucessivamente…qual boneca matrioska.

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