Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

5 de Janeiro de 2015, 12:48

Por

A verdade de cada um e a verdade para todos

Continuam, em velocidade uniformemente acelerada ou variada, as visitas a José Sócrates. Continuam, de atalaia, câmaras de televisão, microfones da rádio e jornalistas de papel na mão, registando e interpelando visitantes. É absolutamente respeitável a motivação de cada pessoa que vai ao estabelecimento prisional, seja por genuína amizade, seja por solidariedade familiar, pessoal ou política. Bem estiveram ilustres visitantes que ou se limitaram a um depoimento circunstancial ou não falaram, porque, para muitos deles, o que estava em causa era, sobretudo, um acto de natureza estritamente pessoal. António Guterres foi, neste contexto, um bom exemplo. O que já me parece mais discutível é o “santuário tribunício” em que se vai transformando, após as visitas, a rua em redor.

António Costa escolheu o último dia do ano passado para estar com o seu ex-Primeiro Ministro. Coincidência ou não, na mesma tarde em que Mário Soares voltou a Évora. O secretário-geral do PS teve todo o tempo para escolher as palavras que entendeu dizer no fim da visita. Terão sido tudo menos precipitadas. Aliás, António Costa, que já foi ministro da Justiça, é muito hábil e cauteloso na expressão oral. E disse: “O que é importante é que deixemos a justiça funcionar em todos os seus valores”. Questionado sobre se acredita na inocência do ex-PM, Costa ladeou a pergunta dizendo que “ele é um lutador por aquilo que acredita ser a sua verdade”. Cirúrgica a expressão “a sua verdade”. Como se a verdade (a factual, entenda-se) fosse subjectiva. O que, tal como a moeda que tem duas faces opostas, equivale a dizer, em termos lógicos, “a sua mentira”.

Dois dias depois, Sócrates responde a perguntas (?) da antes por ele odiada TVI. Disse “a sua verdade”. Como cidadão, espero que a verdade da justiça e a justiça da verdade convirjam neste previsivelmente longo processo que ainda vai no adro.

Comentários

  1. “Como se a verdade (a factual, entenda-se) fosse subjectiva. O que, tal como a moeda que tem duas faces opostas, equivale a dizer, em termos lógicos, “a sua mentira”.

    Como nos dizem os filósofos, os “factos” são interpretações. Ou seja, os acontecimentos não serão subjectivos, mas a nossa leitura deles não é necessariamente objectiva ou sequer dicotómica. Num exercicio de simplismo redutor, podemos comparar a “realidade” a uma moeda. Mas talvez fosse mais apropriado compará-la a um poliedro.

    Cumprimentos,

    José Rodrigues

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