Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

4 de Janeiro de 2015, 21:57

Por

David e Golias

 

Never believe anything in politics until it has been officially denied.Otto von Bismarck

 

O jogo de poker,de alto risco e elevadas apostas, já começou. O governo alemão deixou fazer saber, através da Spiegel Online, que considera a saída da Grécia da zona euro “suportável”. Esta nova posição, atribuída ao Ministro das Finanças Wolfgang Schäuble e à “Kanzlerin” (Primeira- Ministra) Angela Merkel, representa uma alteração da estratégia seguida até aqui. Mais, segundo a Spiegel, o governo alemão considera que será “quase inevitável” a saída da Grécia da zona euro, se Alexis Tsipras (líder do Syriza) assumir o poder a seguir às eleições, abandonar a política de austeridade e não cumprir o serviço da dívida.

O porta-voz governo alemão veio hoje oficialmente desmentir a notícia da Spiegel, afirmando à France Press:

“A Grécia cumpriu as suas obrigações no passado. O governo assume que a Grécia vai continuar a cumprir os seus compromissos contratuais”

Por conseguinte, “está confirmado”…

Alexis Tsipras, num comício ontem, afirmou que, se o Syriza ganhar as eleições, irá adoptar um programa de ajuda aos mais pobres e procurará negociar com os parceiros europeus um perdão de dívida que a torne sustentável.[1]

Osmar_Schindler_David_und_Goliath
David e Golias, litografia a cores por Osmar Schindler (c. 1888)

Temos, portanto, o Syriza e Alexis Tsipras em rota de colisão com o governo alemão e com as estruturas de governo da União Europeia. Perspectiva-se, assim, um verdadeiro conflito épico entre David e Golias…

Analisando a situação, afigura-se que o governo alemão está disposto a arriscar deixar a Grécia servir de exemplo àqueles que “se comportam mal”, i.e., se recusam a adoptar as políticas definidas em larga medida pela própria Alemanha (e instituições de governo da União Europeia). Os riscos para a Grécia são enormes porque o enquadramento institucional e macroeconómico lhe é adverso.

Como referido anteriormente, mesmo antes de tomar posse é previsível que um governo do Syriza viesse a enfrentar fugas de capitais. Confrontar-se-ia ainda com um Conselho Europeu hostil, dado que o Conselho Europeu funciona numa lógica predatória de todos contra um (o país afectado procura sozinho defender os interesses do seu povo face a representantes de outros povos que assumiriam os custos, mas não teriam quaisquer benefícios imediatos, se o país afectado fosse ajudado). Muito afastado da lógica dos “três mosqueteiros”, por conseguinte.

Por último, a Grécia, como a Irlanda, Portugal e, em certa medida Espanha e Itália, estão “em coma, ligados à máquina”. Bastaria a Grécia não cumprir as condições do seu resgate, para ver interrompido o financiamento do Eurosistema à banca grega e muito dificultado o financiamento do estado grego.

Poderia ainda, é certo, recorrer à Assistência de Liquidez de Emergência, mas este auxílio seria, provavelmente, vetado por uma maioria de mais de 2/3 dos membros do Conselho do BCE.

Sabe-se de antemão qual o desfecho mais provável. Mas não se pode esquecer que David venceu Golias, que não se pode deixar governar pelo medo. É possível à Grécia negociar uma reestruturação de dívida e evitar aquilo que o governo alemão parece agora julgar quase certo: a saída do euro. Mas tal exige muita preparação, procura de apoios, negociação e consciência clara da importância e dificuldade dessa missão. Contudo, não se tem visto, até à data, sinais evidentes dessa preparação, quer por parte do Syriza, quer por parte de qualquer dos grandes partidos dos países da Europa do Sul.

Os países da Europa do Sul não se podem dar ao luxo de falhar, perpetuando lugares comuns sobre as capacidades dos seus povos. Têm de demonstrar estar à altura, de forma construtiva, do enorme desafio que enfrentam: perante um quadro institucional europeu adverso e políticas económicas destrutivas, definir e adoptar novas políticas económicas e sociais, em defesa do bem-estar dos seus cidadãos, logo, do projecto europeu.

 

 

 

[1] A dívida pública grega representava 174,9% do PIB no final de 2013.

Comentários

  1. pegunta que se impõe é : como é que os gregos vão fazer ?
    de certeza que vão deixar todos de olhos em bico
    … percebem o trocadilho?

  2. tou a ver aqui mto teórico ,
    afinal contam-se por uma mão aqueles que na esquerda portuguesa falam alemão
    afinal o que o new governo grego tem que fazer é apelar à ordem multilateral para renegociar / reestruturar a divida e instituir uma nova moeda , se o euro não permitir
    a soberania não pode ser borrada… até ver :: podemos tar na iminência de um “evento”
    verdade é que o exército branco também invadiu a terra dos sovietes E quem era o exército branco? Os estados unidos, o reino unido, a frança, o japão , e o Canadá

    “meios de pagamentos” , “liquidez” , uma ova.

    1. afinal o tratado diz que a pertença ao euro é irrevogável , e esta ein
      eu sempre disse , que era tudo uma razão de “contas” , e o engenheiro diz que é só fazê-las , o mais é suportávvel (letras de canção)
      “Ela dá-me beijos /
      E papas de leite /
      Faz-me um chapeuzinho /
      Com as nuvens do céu ”

      é
      uma democracia cultural

  3. fugiam os capitais.. e levavam as gruas dos portos , os edifícios comerciais , as máquinas e os equipamentos (fbcf também saía então pela balança financeira) ,
    levavam “a força de trabalho” fonte de toda a riqueza e todos “os capitais” ; mais a raq. varela e os super-qualificados (gestores bancários, a esquerda da uni. de atenas e o Samaras) , obviamente que as frotas marítimas começavam a atracar .. em Frankfurt .. O Porto de Pireu então “perdia o sentido”
    Mais
    ainda o partenón e as utilities do gás e da eletricidade. talvez até o metro de atenas fosse “evacuado” : maquinaria e linhas (que n ficavam lá a fazer nada)
    pasme-se: “fuga de capitais”

  4. se deveres 1.000 € ao banco , o banco é o teu dono , se deveres 1.000.000 € és tu o dono do banco. a grécia é a dona do euro , Merkel é uma fantoche.
    default em toda a linha aos “fundos euro” / “BCE” , , nova denominação e liquidação de pagamentos em Nova Iorque, Moscovo, Istambul ou Shangai ! o governo alemão ia logo ver “de que lado” os mercados estão

    1. não é ou é E , o Syrizia até podia estabelecer um offshore em Creta para fazer as “divisas rodar” ; Londres , a City de Londres, de certeza que aceitava ; não tem pejo – aceita todo o tipo de dinheiro ; Merkel é que não . só dinheiro “ordoliberal” :: marca de água

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