Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

30 de Dezembro de 2014, 09:19

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A chance grega e a salvação da Europa

tsiprasA Grécia terá eleições a 25 de janeiro e a possibilidade de eleger o o primeiro governo de esquerda da história europeia das últimas décadas.

Talvez se possa dizer que o primeiro governo Mitterrand, que era uma coligação entre o PSF e o PCF, no seguimento de dez anos de “união da esquerda”, aplicou uma orientação para a mudança entre 1981 e 1983, quando nacionalizou todo o sistema financeiro e os principais grupo industriais nacionais (imagina hoje um PS a propor tal radicalismo?). No entanto, esse governo submeteu-se a partir de 1983 a uma política de austeridade e privatização. Ora, isso foi há mais de trinta anos. Desde então, os governos dos partidos de centro seguiram sempre uma orientação financeira alinhada com os interesses dos mercados, sem qualquer excepção em qualquer país europeu. A Grécia é portanto a primeira oportunidade em décadas para um país da União Europeia escolher uma alternativa de esquerda.

Isso não significa que o resultado esteja já definido. As próximas três semanas farão reviver os medos ancestrais, as campanhas de terror, as chantagens de todo o tipo, a polarização social. E a pressão internacional: durante as últimas semanas, a Comissão Europeia pronunciou-se em favor do candidato presidencial da direita e o comissário Pierre Moscovici, socialista, foi a Atenas reafirmar o mesmo. No sábado passado, em entrevista ao Bild, Wolfgang Schäuble veio garantir que o governo alemão obrigará a Grécia a pagar a conta. “As novas eleições não mudarão nada a respeito da dívida grega”, disse o ministro, para bom entendedor meia palavra basta. O FMI suspendeu os tratos com a Grécia assim que foram anunciadas eleições.

Os dados estão lançados mas ainda não se pode adivinhar quem ganha. O triunfalismo é portanto tão desaconselhável como o catastrofismo. Se a esquerda vencer, começará um ano vertiginoso: ou a dívida soberana (197% do PIB) é reestruturada em profundidade e com grandes perdas para o capital financeiro, ou a Grécia terá de ameaçar ou de forçar a sua saída do euro. O Syriza quer impor a primeira alternativa e evitar a segunda. Se, em contrapartida, a direita ainda for a tempo de recuperar e vencer, a Grécia prosseguirá a sua vertigem de endividamento e desagregação. Essa é a origem da contradição onde está a força da esquerda: é a única que representa a nação contra o protectorado, mas a sociedade está dividida.

No mapa político grego, este momento parece irrepetível. O partido socialista, o PASOK, que há quatro anos tinha maioria absoluta no parlamento e 40% dos votos, está hoje reduzido a uma franja e foi agora abandonado pelo seu anterior secretário geral, Papandreu, que forma um novo partido. Comprometido no governo de Samaras, é um resíduo do anterior sistema partidário. A Nova Democracia, o principal partido da direita, aparece atrás do Syriza em todas as sondagens. E os restantes partidos ficam muito à distância: o partido comunista (KKE), o Dimar (uma cisão social-democrata do Syriza e que participou no governo até há pouco), os Gregos Independentes (um partido de direita anti-troika) ou a Aurora Dourada (neo-nazis).

Caso a Grécia opte pela esquerda, será sem dúvida uma oportunidade difícil, mas ainda mais uma inauguração arriscada. Nenhum governo negociou jamais com as autoridades europeias a partir de uma posição de soberania ou de restrição às rendas financeiras da dívida pública. Nenhum governo enfrentou jamais a autoridade do governo Merkel. Nenhum governo questionou até hoje o Tratado Orçamental e a eternização da austeridade. Para o fazer, o governo de esquerda tem de estar muito bem preparado, ancorado em estudos precisos e planos de contingência detalhados, apoiado pela população e disposto a lutar com todas as consequências. O Syriza ainda não apresentou essas propostas concretas e espera-se que o faça nos próximos dias.

Creio que isto nos ensina duas lições e nos confronta com uma terceira questão em aberto. A primeira é que só haverá um governo de esquerda quando a esquerda unida tiver mais votos do que o centro: enquanto os partidos que aceitam a troika, a austeridade ou as regras do Tratado Orçamental forem dominantes, não há solução para uma alternativa. A segunda lição, na minha opinião, é que é preciso manter sempre um rumo claro: a esquerda só será mais forte do que o centro se milhões de pessoas fizerem seu o esforço de enfrentar a finança pondo em causa o chicote da dívida, pois essa é a explicação para o ascenso do Syriza. A terceira questão não tem ainda resposta: se tiver o apoio da maioria, o governo de esquerda é capaz de cumprir o seu programa, vencendo então essa maldição de Mitterrand? Não sabemos. Não falhar onde tantos recuaram é uma tarefa ciclópica. Saber para onde ir quando tantos se alimentam de medo e incerteza é um risco acima das possibilidades. E, no entanto, tudo é realizável: não resta mais nada, não há caminhos intermédios, não há meias tintas, não há conciliações possíveis, os de cima não cedem nada e levaram quase tudo.

Oxalá possamos ter a Grécia a desbravar esse caminho, porque à Europa não restam muito mais chances. Tudo, o poder de Merkel, a unidade da União, as suas leis futuras ou o Portugal de 2015, tudo tem uma primeira volta em janeiro nas eleições gregas.

Comentários

  1. Texto brilhante. Existe um sistema em todo roto, e que precisa de urgente de mudança mas usa e abusa de todo ser poder para evitar a mudança. No final, o estrondo da queda vai ser grande. Apesar de prezar a vitória do Syriza, não me parece que ao durar muito tempo no governo (estão em minoria e com a pressão dos mercados e EU contra eles). O que acontece depois é uma incógnita? Mas gostava de ver o Syriza a ter sucesso (permanecer na EU e acabar com a austeridade). O mais provável é porém que saíam do euro devido à pressão da Alemanha. Um ano depois será a saga dos anti-EU no Reino Unido, depois serão os extremistas de direita em França, depois o Podemos na Espanha. Sem dúvida o choque contra a Alemanha de Merkel e de Bruxelas continuará, se alguma coisa muda não se sabe mas os trilhos serão algo radicais e arriscados, em muitas formas, à esquerda e direita. Tal como já aconteceu na história. Só sei garantir a previsão que o status quo não vai continuar. O povo sonhava uma Europa e agora está zangado, furioso com o rumo que as coisas tomaram. Isso involve uma esperança mas um perigo também.

  2. Força Syriza
    Estes gregos dão uma lição ao lutar pelo seu povo contra tudo e contra todos. Já não chegavam os alemães (que ainda lhes devem as indemnizações de guerra) os pseudo socialistas franceses, os pseudo sociais democratas italianos ou os conservadores ingleses ainda têm que lutar contra os pseudo social democratas, pseudo socialistas, pseudo comunistas e neo nazis internos. A lição que nos deram em Termópilas em 480 AC onde derrotando os persas salvaram os valores que estão na base da nossa civilização, lhes dê força e ânimo para mais esta vitória.
    Ontem contra o imperialismo persa hoje contra o imperialismo financeiro.
    Força Syriza

    PS: Uma vez mais um texto brilhante do F.Louçã

  3. Caro Louçã, como sempre brilhante. Mas na sua análise esqueceu-se de qualquer coisa:
    Se o Syriza ganhar as eleições, pouco, mas mesmo muito pouco, tempo depois começará a ruptura financeira provocada pela banca nacioanal e internacional assim como os desacatos provocados pelos ex-nazis e fascistas de “tout bord” e com os meios de comunicação social, no poder das elites gregas, a ajudar à festa. Isto vai criar as condições para um golpe de estado fascista que fará a Grécia sair da Europa e a uma repressão tão feroz que a dos coronéis parecerá uma brincadeira de crianças.
    Ganhar o poder nas urnas? O Allende também o fez. E a lição do Chile não foi aprendida? E agora com os neocons no poder em toda a parte, com o seu controlo total dos meios de comunicação social e com o seu controlo total dos meios financeiros vai ser uma espécie de ensaio geral para quando os outros povos também votarem nos seus Syrizas.
    As elites da Europa, entretanto, chorarão lágrimas de crocodilo.

  4. Camarada. Os políticos e politicas, estão gastos!!! Esta na hora dos portugueses escolherem um novo rumo. Acabar com todos os partidos políticos em Portugal, sem necessariamente imitar a Grécia!!! Os partidos políticos em Portugal, com tantos escândalos perderam a sua credibilidade. Os portugueses estão atentos. A Grécia e os gregos que escolham o seu rumo!!! Em Portugal, o povo em 2015 vai anular o sistema politico vigente não comparecendo para votar. Abstenção! Abstenção!! Chega mais do mesmo!!! Só muda a cor do partido!!! Nem pensar. Nem pensar.

    1. Creio que, em Portugal como na Grécia, os apelos à abstenção da esquerda têm um beneficiário muito bem definido.

  5. Mais um texto de cortar a respiração, de Francisco Louçã.
    Sem dúvida um dos melhores (senão o melhor) político da esquerda Portuguesa.
    Apertemos pois os cintos do Falcon HTV-2. Que vença a Grécia.

  6. Gostei dessa da primeira volta. O eleitorado português tera os olhos postos na Grecia, o que aconteça la nos próximos meses, tera um impacto por ca. seja para bem ou para mal; os partidos políticos seguirão atentos o que acontecera. O que acontecera, ninguêm sabe, Se ganhar o Syriza podera formar governo, não se adivinha com quem, mesmo que tenha um prêmio eleitoral precisara de votos no parlamento, que so podem vir dos gregos independentes ou do KKE, Lembro que depois da queda da ditadura existia um Pasok bastante a esquerda, contra a CEE,contra a NATO, bastante anticapitalista, mas que no poder se torrnou realista vendendo a sua alma ao poder, pagaram o preço de aceitar e aplicar o memorandum com a Troika, O nosso PS consiguiou deixar a tarefa de aplicar o memorandum à direita, o seu programa hoje passa por colocar as soluções substanciais nas maos da Europa, de acordos en torno a como disfrazar o tratado orçamental, como consecuência disso não descola e atinge nas sondagens o seu eleitorado tradicional, 36-38 %. Queramos o não ,o PS é parte da solução à esquerda, não porque o PS apresente soluções de esquerda, mas porque uma parte do seu eleitorado é de esquerda, mas muito dele é moderado, segue o modo como o capitalismo se tèm desenvolvido em Portugal, capitalisnmo rentista, clientelar., estatista, é ver a origem dos dirigentes socialistas, a sua base autárquica, a suas ramificações empresariais, O que pode mudar nesse eleitorado sera a imposibilidade do PS satisfazer ou garantir niveis de rendimentos, e beneficios sociais, emprego, mobilidade social. oportunidade de negocios, acceso a fundos, etc. que foi o que aconteceu com o Pasok, esta a contecer com o PSOE, se a isso adicionas o envolvimento na corrupção de dirigentes do PS, que ao que parece parte da sociedade portuguesa não tolera mais como o têm feito ate aqui. O problema não é em Portugal da esquerda contra o centro, mas como alteramos o espaço da esquerda entrando no eleitorado do PS, para isso temos que ter condições objectivas, o que aconteça na Grecia pode ser uma ajuda, se a solução de esquerda rompe com a perpetuação deste ciclo centrista da politica, como a solução moderada, única com condições do governar, a situação nova é que este discurso é retórico desprovisto de conteúdo, a austeridade exige as soluções que o Syritza defende, essas são as únicas possíveis, governar ao centro da PASOK, ND, se rende face ao capital financeiro, o que fez o PS desde a revisão constitucional de 1989.

    1. Não estou totalmente de acordo: o problema é antes de mais de definição de objectivos. É quando se sabe o que se quer que se definem as alianças necessárias. Nunca consegui compreender como pode haver políticas que se definem em função dos parceiros desejados. Isso significa o que sempre significou, o desvio para o centro.

  7. o mundo-político do trabalho está parado
    ninguém quer saber da sorte dele (este sítio deserta) – a realidade tem o tamanho da ponta de um alfinete. “eu” seguro-lhe na cabeça.

  8. Sim, o Syriza está já perante o Cíclope. Ganhar as eleições, que não está garantido, será a tarefa mais fácil desse combate de morte. Resistir à “Europa” e à finança e impor o seu plano — tanto interna como externamente — será a grande prova da verdade. Que só será possível se consolidar o seu eleitorado, pois não bastarão as imperiosas e justas medidas sociais que sem dúvida aplicará logo no início (reposição de salários, impostos, serviços sociais); terá também de aplicar outras, dolorosas, mas igualmente imperiosas (reforma do Estado, luta sem tréguas contra a evasão fiscal ….. até a uma revisão do ruinoso conceito de defesa …) . De momento, o eleitorado do Syriza, isto é, os que votarão Syriza são apenas os indignados contra a austeridade e muitos deles poderão tomar uma vitória do Syriza como um regresso a um mirífico “paraíso” anterior, criado sobretudo pelo PASOK e o seu populismo clientelar de décadas. Tal como desertaram do PASOK de Papandreou, poderão desertar dentro de meses do Syriza (Schaeuble e companhia sabem-no perfeitamente, jogarão essa carta). Mas os gregos são corajosos e orgulhosos e não temerão um futuro que será muito duro, desde que quem governe não siga o velho caminho dos populistas da velha escola tipo Andreas Papandreou a seguir aos coroneis.

    1. De acordo. Não há nenhuma vitória eleitoral que seja certa. E depois, em caso de vitória do Syriza, começam os trabalhos mais difíceis de todos.

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