Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

24 de Dezembro de 2014, 12:00

Por

Os reis magos chegaram com a droga no cofre

magosBaltazar, Melchior e Gaspar, guiados por uma estrela, traziam ouro, incenso e mirra. Reis não seriam, mas sacerdotes, conselheiros ou magos (magoi era a tradução grega da expressão bíblica e as versões portuguesas preferem “sábios do Oriente”, Mateus 2:1 e 2:11), homens sábios em todo o caso, procurando uma boa nova. E dela ficaram testemunhas e crentes. Por isso, escaparam de Herodes, que os queria espiões, pois tinham-lhe prometido trazer notícias de Belém mas depois seguiram por outro caminho para o evitar. Sábios, com certeza.

Uma longa tradição anunciava a sua chegada. No Salmo 72, cantos do exílio babilónico de tribos israelitas, sete ou seis séculos antes do nascimento, é anunciada a homenagem dos reis de três reinos, Sabá, Seba e Társis, e ainda os de umas ilhas, que virão trazer presentes. No Livro de Seth, publicado quatro séculos depois do início na nossa era e atribuído a João Crisóstomo, santo venerado na Igreja Ortodoxa, ainda se conta que doze sábios esperaram uma eternidade, numa montanha da Pérsia, por essa estrela que os guiaria. Essa Pérsia, lugar de riquezas distantes, era também o berço da filosofia de Zoroastro, que tem em comum com o cristianismo e todas as religiões posteriores do Médio Oriente o princípio do Bem e do Mal, a vinda do Messias e o deus único. Curvando-se perante o Bem, estes reis ou sábios reconheceriam o novo mundo que chegava. Tiveram tempo para escolher as suas prendas e sabiam o que traziam (imitando os reis magos, damos pelos tempos fora as nossas prendas de Natal, porventura escolhidas com menos cuidado).

Como todos os sábios, eles desfrutavam dos prazeres que a terra lhes dava. Por isso, eram três as prendas que traziam: ouro, significando a riqueza ou o poder, incenso, a adoração ou a divindade, e mirra, a humanidade. A humanidade? A mirra é uma resina aromática que era usada como analgésico em curativos ou como perfume e até como incenso (mas os reis magos também traziam o incenso tradicional no seu cofre). Não eram no entanto essas propriedades que faziam a fama da mirra, mas antes ser considerada um tónico rejuvenescedor: misturada com vinho, melhorava o seu paladar e multiplicava a sua capacidade estimulante. Esta poção era muito usada pelos romanos, que lhe chamavam Murrhina, e que estimavam que alterasse a disposição de quem a tomasse.

A bebida reaparece na Bíblia por isso mesmo: os soldados que iam crucificar Jesus ofereceram-lhe vinho com mirra, como faziam com outros condenados, para lhes aliviar o sofrimento, e ele recusou (Marcos 15:23). Uma droga, diríamos hoje.

Afinal, uma droga tão usada como o vinho com que se misturava. De um e de outra, do vinho e da mirra, pretendiam os sábios obter o prazer inebriante: usado como moderação ou como vício, este produto, tão mágico que mereceu o cofre dos sábios que buscavam a boa nova e queriam deixar as suas melhores oferendas, era uma cultura.

Desde sempre, as comunidades humanas descobriram que algumas substâncias e produtos transformam o nosso espírito, e procuraram controlar esse efeito: ainda estávamos nos nossos primeiros dias e a fermentação das uvas e de outros frutos ou cereais já era usada para produzir o vinho e as cervejas, em tonalidades e variedades que a imaginação não consegue catalogar. Se então tivéssemos os conceitos de hoje, teríamos chamado a essas bebidas drogas – e são drogas, aliás as mais generalizadas e as que podem produzir efeitos sociais mais generalizados e assim mais nocivos, gerando violência e insegurança. Só que não existe nenhuma sociedade que se possa livrar delas ou viver sem elas. Domesticamo-las, portanto, tanto quanto podemos e sabemos.

No cofre dos reis magos ia essa sabedoria, essa simples humanidade. Estimai o que é importante, tende curiosidade e descobri o que não conheceis, sabei usar o que vos é dado, respeitai os bens da terra e vivei em paz com os outros.

Comentários

  1. Jesus não foi compreendido no seu tempo, asssim tão pouco foi aceitado pelo seu Povo. Provou a rejeição e a solidão porque com a queda de Adão e Eva com Lúcifer Deus nunca teve uma sua descendência e verdadeiros Filhos e Filhas porque Satanás reclama toda a humanidade como seus filhos. Se o pecado estivesse um ter comido um fruto cobriam a boca e não as suas partes sexuais. Jesus desejava realizar uma família e multiplicar a Vida e que todos pudessem renascer, mas ao crucifarmos desconhecemos por completo a vontade de Deus. Poderia continuar, mas poderá ficar para uma pròxima oportunidade. O espírito não se pode comprar como se trata-se de um computador. Respira ou não. Mateus 5:48.

  2. Parabéns ao Dr, Francisco Louçã, pela explicação proto-histórica com que nos brindou. Há muito boa gente que passa por estas verdades, ou inverdades, como se tudo fosse um bem divino. Mas não é. Toda essa odisseia, a ser verdadeira, levanta muitas dúvidas. Desde logo, há que acreditar piamente nas” patranhas” que nos foram sendo ditas e escritas através de gerações a bel prazer da Igreja Católica, que sempre soube dar a volta a todas as questões, principalmente onde o dogma e a fé se encontram, que, depois, depende muito da intuição e cultura que cada um tem para, poder assimilá-las ou não. De qualquer forma, reitero os meus parabéns pelo magnífico trabalho apresentado.

  3. Faz 100 anos que os soldados na primeira grande guerra ousaram sair das suas trincheiras para celebrar o nascimento do menino. Cantaram, partilharam alimentos, trocaram oferendas, perguntaram pelas histórias de vida do outro, confraternizaram, foram irmãos. Nos dias seguintes centenas foram fuzilados pelas respectivas chefias, em ambos os exércitos que se opunham no campo de batalha. Os governos ocultaram a informação para que não se desse conhecimento público do sucedido, para evitar brechas na propaganda de hostilidade.
    No meio do inferno o impensável aconteceu: a humanidade foi possível contra a vontade dos líderes que forjaram o inferno em nome de interesses alheios ao homem comum. O medo, a raiva, a angústia, o ódio, perderam; foram vencidos pela ideia de um menino frágil enviado para nos salvar do mal, do ódio.
    Que não nos digam que temos que viver em guerra, em competição fratricida. Que não nos digam, em circunstância alguma, que a humanidade não é possível!!

  4. Gostei muito, mesmo muito.
    Para além da política, onde sempre o admirei, estas ideias claras encheram-me de comoção.
    Bem haja. Só é pena que, se calhar, poucos portugueses leiam estas palavras.
    Mete-me nojo ver as nossas estações televisivas darem, sempre, tanto tempo de antena a tanta mediocridade e propaganda miserável, aos elementos do governo ou seus afectos. Tenho sempre a sensação que é só isso que os portugueses comem. Assim vai ser muito difícil mudar este país.

  5. Obrigado Francisco, magnificas palabras, que vale a pena subscrever . embora tenham, sido os cristãos, ou os que se apoderaram do cristianismo os primeiros a esquece-las, mas o facto que houve cristãos que nunca as esqueceram que hoje as podemos houvir , lêr de novo, muitos se reconhecem nelas, por isso a simpatía no Papa Francisco, na sua moderação inteligente, viver no bairro do Almagro em Buenos Aires o ensinou a isso, o compromisso com… Estimai o que é importante, tende curiosidade e descobri o que não conheceis, sabei usar o que vos é dado, respeitai os bens da terra e vivei em paz com os outros, na realidade é todo um programa evolutivo, incluindo a expulsão dos fariseus do templo, um bom natal, em 2015 precisamos todos de usar o que nos é dado, abraço

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