Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

2 de Dezembro de 2014, 09:03

Por

“Florestar Portugal”, uma boa e corajosa iniciativa

amoPT2014Perante a apoplexia noticiosa destas semanas, a significativa iniciativa “Florestar Portugal” passou completamente ao lado da comunicação social. Foi pena porque teria sido uma boa oportunidade para reforçar a atenção da sociedade e das autoridades políticas e públicas para a necessidade da protecção das árvores, florestas e biodiversidade.

Tratou-se de uma actividade promovida pela Associação Mãos à Obra Portugal, também referenciada pelo seu sugestivo acrónimo  AMO (Portugal).

De acordo com a informação da Associação, o evento – enquadrado no projecto “Protecção Florestal” – decorreu em diversas zonas florestais, em parceria com mais de 20 municípios, e projectou plantar cerca de 10.000 árvores autóctones (Azinheiras, Cerejeiras-bravas, várias espécies de Carvalhos, Choupos, Medronheiros, Zambujeiros, Sobreiros, Amieiros, Freixos, Salgueiros e Ulmeiros).

Felicito, vivamente, esta magnífica e corajosa iniciativa.

Não nos esqueçamos que a principal causa de desflorestação advém da acção humana. As leis do mercado têm prevalecido sobre as leis da Natureza. A evolução do mundo florestal está sujeita a uma crescente cultura de indiferença e insensibilidade e até a um acentuado egoísmo geracional. No fundo, hoje somos mais ricos em tecnologia, mas mais pobres em Natureza.

A nível planetário, cerca de 150 000 km2 de florestas desaparecem por ano, o que equivale a 1,6 vezes a área de Portugal.

Como já escrevi, antes, neste blogue, as estatísticas subestimam a árvore e a floresta. É o caso do PIB. O desenvolvimento não se esgota neste indicador macroeconómico, porque não toma em conta a apreciação ou a desvalorização dos recursos naturais. Considera apenas o que se produz, sem deduzir o passivo que resulta da depreciação ou destruição de bens naturais, como água, solos, arvoredos e florestas. Se isto fosse tomado em conta, a degradação da nossa floresta teria provocado diminuições acentuadas do PIB. O que, por certo, levaria a uma maior atenção e escrutínio deste sector.

Já agora, e porque na época natalícia, bom será que a “árvore de Natal” familiar poupe, o mais possível, os pinheiros e abetos abatidos sem dó nem piedade.

Comentários

  1. Gostei de ler o seu artigo e, em particular, o penúltimo parágrafo, o qual considero muito pertinente. É saudável (e infelizmente pouco vulgar) ler a opinião de um economista com esta perspectiva.

  2. Bem observado… numa mensagem bastante oportuna. De fato, a atitude dos portugueses para com a sua floresta tem variado desde o desmazelo à pura predação… talvez por isso, da sua conservação se tenham ocupado grandes figuras da nossa história. Desde logo D. Dinis – esse “plantador de naus a haver”, como é descrito na Mensagem de Pessoa. D. Sebastião, que não obstante os defeitos que lhe imputam, teve a consciência da importante perda para a Nação da “floresta medieval” – criando para tal a Lei das Árvores, que visava promover a reflorestação dos soutos, carvalhais, coutos e baldios – que já então conheciam o “stress” do desbaste para satisfação dos requisitos do consumo doméstico, do alargamento das pastagens e dos requisitos das manufaturas e da industrias navais… Até chegarmos à política de florestação do Estado Novo – e não importa diabolizar aqui a figura de Salazar, pois entre erros (como os efeitos nefastos da campanha do trigo na erosão de solos pobres), uma importante virtude foi ter cuidado do desenvolvimento rural das gentes do interior: pois, como a plantação do Pinhal Interior gerou-se riqueza e trabalho – desde o plantio, ao resineiro, ao serrador e às serrações, terminado nas indústrias de derivados de madeira. E hoje o que temos? A “eucaliptização” do Pinhal Interior… e, embora tratando-se de monocultura, o seu impacto económico e bastante diferente do plantio do pinhal – a começar pela fixação das gentes à terra. O eucalipto é “egoísta” – não admite outras culturas (já o pinhal permite a combinação de outras práticas agropastoris, como o cultivo e apanha de trufas e cogumelos), a industria transformadora (resumindo-se quase exclusivamente às celuloses) está deslocalizada da economia local enquanto o proprietário espera um lucro rápido (ao fim de 9 ou 10 anos e até 3 cortes consecutivos, negligenciando os efeitos da erosão do solo ou os elevados custo futuros quando tiver de remover velhos tocos e cepos… motivando o posterior abandono da floresta). Depois temos ainda o risco elevado de incêndio (ateado tantas vezes por interesses criminosos e ocultos)… Mas o desafio maior é outro: a gestão da propriedade – a floresta portuguesa encontra-se repartida por milhares de pequenos proprietários cujo aproveitamento que fazem varia desde o desmazelo (motivado pela emigração e também por quezílias familiares e disputas de heranças) ao primitivo extrativismo (apenas considerando o lucro imediato ou a curto prazo nem sempre da forma mais racional).
    Desde modo, o Governo que queira realmente agir sobre a floresta, protegendo-a e tornando-a mais rentável terá de ter uma visão integrada que inclua – universidades e politécnicos (investigação florestal), empresas transformadoras, autarquias e sobretudo que estimulem o associativismo e cooperativismo local – procurando um novo equilíbrio entre o interesse público e a exploração privada. Alem disso, a floresta deve ser de quem dele cuida e trabalha… pelo que o abandono e desmazelo da floresta deve ser prevenido com fiscalização e coimas!

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo