Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

1 de Dezembro de 2014, 09:04

Por

O discurso de António Costa e vir trabalhar para a solução

costaAntónio Costa fez ontem um dos seus melhores discursos. Levantou o partido, deu-lhe alma e argumentos. Evitou a questão Sócrates, que sabe que o vai atormentar durante meses. Teve momentos emocionantes, como a homenagem às mulheres assassinadas. Corrigiu erros passados, como a recusa da adopção de crianças em nome de um modelo discriminatório de família. Apresentou oposição a políticas sociais das direitas. Foi um domingo em cheio. O problema é a 2ªf e depois a 3ªf e depois tudo o resto.

Passada a festa, o dilema do PS resume-se bem no desafio que faz à sua esquerda: abandonem a comodidade do protesto e venham trabalhar para a solução. O problema é que o PS é hoje um partido de protesto porque não apresenta solução e, por isso, o convite convida-se a si próprio antes de mais nada. Ao espelho, a imagem fica um rito duro.

A falta de solução da Agenda para a Década manifesta esse paradoxo: nem é para a década (porque não resolve os problemas da austeridade imposta pelo Tratado Orçamental, que vai durar toda a década) nem é para 2015 (porque não apresenta nenhuma resposta para a crise permanente das contas públicas). António Costa referiu-se com rara clareza a este constrangimento que são as regras europeias durante a década, ao apelar a uma Europa que “corrija as assimetrias do euro”, “transformando uma moeda única em moeda comum” e “diminuindo o risco sistémico de novas crises do euro”. Mas como? Costa respondeu que, em Portugal, não se pode esperar que os responsáveis da austeridade corrijam a austeridade e que, por isso, não se aliará à direita, mas acrescentou logo que espera que os responsáveis da austeridade na Europa façam o milagre de se corrigir a si próprios e espera aliar-se com eles. Pede-lhes para tanto um “plano de recuperação da economia e do emprego”, como se Juncker não tivesse já apresentado esse “plano” – que Costa sabe, como todos os leitores sabem, que é uma fraude. A Europa politicamente benevolente e financeiramente generosa de Costa não existe e por isso não vem trabalhar para a solução. Por algum motivo desconfia dela.

Aliás, Costa tem disso tanta consciência que propõe que a “agenda europeia” do PS seja “defender os interesses de Portugal na Europa”, ou seja, defender o particular de um país contra o interesse geral determinado em Bruxelas e Berlim. É o primeiro líder do PS a tomar esta posição, que contrasta com toda a sua história. O que fica então desse passado? Europeísmo? Europa unida? Costa avisa que cada um deve ir por si. Portugal pedirá dinheiro mas quer tratar da sua vidinha, evidente desistência de todo o discurso anterior sobre solidariedades europeias. Será porventura uma análise realista mas, mais uma vez, como é que isto se faz? E o que quer dizer Costa quando refere esse “novo equilíbrio na Europa” que permitiria defender os interesses nacionais? Merkel coligada com os socialistas alemães, Juncker, Cameron, Hollande, Renzi, Rajoy, Draghi, mas de que é que ele está mesmo a falar?

Seria possível disputar uma nova relação com a Europa se o PS escolhesse o caminho duro: se rejeitasse o Tratado Orçamental que, pelo contrário, apoia, com o perverso propósito de o melhorar, mesmo sabendo que esse objectivo é inviável. O facto é este e é implacável: a Europa não vem mesmo trabalhar para a solução. Não existirá nenhuma solução para Portugal sem perceber que a Europa não é solução, é um problema.

Ora, sendo o primeiro dirigente socialista que enuncia assim o problema europeu, mais estranha se torna a ambiguidade do discurso de Costa: ele propõe ficar à espera que a Europa acorde e que floresça o “novo equilíbrio”. Essa estratégia não tem dado bom resultado, porque só tem conduzido a uma longa abdicação que destrói a União, pois começou em Maastricht e foi por aí fora, com o euro, com o Tratado de Lisboa, com o Orçamental, e estamos agora aprisionados.

Por isso, o que é mesmo trabalhar para a solução? Se o governo estiver atado no Orçamento, se os juros continuarem a estrangular Portugal, só sobreviveremos e viveremos para trabalhar para as rendas financeiras. Até 2034 teremos inspectores dos fundos europeus a vigiarem o Orçamento e a dizerem ao parlamento o que lhe é permitido votar. Não haverá entretanto recuperação de salários nem de investimentos, nem dos contratos a longo prazo do Estado com os reformados, nem redução substancial do desemprego, nem defesa dos bens comuns, nem democracia que cuide dos seus. Haverá austeridade.

Ao chamar outros para virem trabalhar para a solução, a Costa só faltou dizer se tem alguma proposta para essa solução, para deixar de ser um acomodado partido de protesto. Porque ele tem que ter uma solução, tem que ter mesmo. Só que o que o seu discurso insinuou é que não acredita suficientemente nela e por isso ela nem pode ser enunciada. Pagar e não pagar não é resposta, pedir dinheiro não é destino, esperar pela Europa é triste sina. E, por isso, essas soluções não vêm trabalhar para a solução.

Esse é o único ponto de partida para tudo o que se conversar em Portugal a partir de hoje, 2ªf.

 

 

 

 

Comentários

  1. F. concordo, eu próprio vejo as coisas assim, mas admitamos que o Costa tem gerido bem o silencio sobre a matéria mais importante, ajudado pela comunicação social e por alguma inercia analítica dos comentadores, onde vamos buscar os meios para crescer, com algum êxito. No plano da subjectividade o homem fez o seu trabalho. A questão esta em saber se os portugueses vão cantar engana-me que eu gosto outra vez, Este governo, acreditando nos seus gurus, pensava que o alivio veria do aumento das exportações e da captura do investimento estrangeiro, do corte dos salários, pensões sem muito protesto, de reduzir o gasto social, algum alivio europeu com a descida das taxas de juros das obrigações. So aconteceu isto, mas não foi por causa de Portugal o Grécia e as politica de austeridade, mas sim por causa de Italia, Espanha, e de certo modo por causa de França, mas mesmo assim os juros não têm caído ao ponto que permitam uma re-estruturação da dívida. Este governo não volta a enganar os portugueses. O PS terá que clarificar o que pretende fazer, e não jogar um outro gambuzino chamado agenda da década. Ou o PS vira a esquerda mesmo que seja moderadamente ou sera frito a lume dos orçamentos de 2016, 2017, 2018, etc, nesses momentos o povo que mais ordena lembrara que chega, isso é o que mudou nestes anos, se a isso somas a imersão do tema da corrupção, com o PS, PSD, CDS responsáveis de terem criado o mostro e todos seus filhos e primos, o sentimento popular cobrara de Costa, exigira de Costa que chega, eu confio nisto, espero que muita gente tenha a coragem de participar neste processo, é a objectividade que nos leva para a esquerda, existira algum espaço para o populismo, mas a esperança dos portugueses será em soluções claras, isso obriga a pensar e convergir em como tratamos do PS, na esquerda continua a existir uma enorme confusão e uma enorme simplificação sobre como tratamos do Elefante, um certeza tenho que ele esta aqui e continuara a estar aqui e em 2015 voltar a valer dois o mais milhões de votos, uma outra maneira de ver a coisa é olhar para 2019, com o Elefante a sofrer a dieta do Pasok, do Psoe, do SPD, etc. mas tenho sobre isto uma posição clara, não sabemos se isso será assim, incerteza keynesiana, O que esta subjacente a este teu artigo é a luta implacável no terreno das ideias, vamos a isso que é um terreno pouco habitual na esquerda

  2. Discurso de Mário Soares, 14 de Março de 1976:
    “O Partido Socialista teve ocasião, em diversas oportunidades, de afirmar a necessidade de transformar a Europa – de forma a que deixe de ser a Europa dos trusts e passe a ser a Europa dos trabalhadores. Hoje esta tomada de posição de princípio tem urgência em ser reafirmada, na medida em que certas forças políticas em Portugal se encaminham para defender a aproximação de Portugal às Comunidades Europeias numa perspectiva puramente capitalista que não corresponde aos verdadeiros interesses do povo português e se afasta dos imperativos de uma verdadeira independência nacional condicionando a transformação da sociedade portuguesa a caminho do socialismo.”

    Em 28 de Março de 1977 – UM ANO DEPOIS – Soares formalizava o pedido de Adesão à CEE.
    Presume-se que nesta data, ou a “Europa” deixara de ser “a Europa dos trusts” – OU O PS DEIXARA DE SER SOCIALISTA!!!

  3. Conclusão: ou temos um PS de direita ou um PS de protesto, sem soluções. Exactamente a principal acusação que se costuma fazer aos partidos à sua esquerda, especialmente ao BE.
    Eis o drama da esquerda. Mais uma vez citando João Martins Pereira, a esquerda existe e existirá sempre, como projecto, mas aparentemente incapaz de transformar esse projecto em realidade. Eis o grande desafio, até hoje inultrapassável, da esquerda.

    1. João Martins Pereira não pode ser interpretado, na minha opinião, como limitando o projecto da esquerda a uma impotência utópica. Pelo contrário, entendia que a utopia conduzia a transformações concretas e a políticas detalhadas para proteger os bens públicos e portanto para enfrentar a dominação do capital. Lembro que ele foi secretário de Estado da Indústria e que lutou pelas suas ideias, sem nunca se deixar vergar.

  4. A verdadeira linha divisória na política é a que separa a Liberdade da Servidão, e não, a esquerda da direita!

    A nós povo o que nos importa saber, é quem tem o chicote, Dragi e a sua Impressora, ou Merkel com o rigor e trabalho? Quem é o mestre??

  5. a única politica viável agora
    para o costa é não fazer outra coisa senão assediar a esquerda
    vai daqui até Outubro /15 , não vai parar de assediar a esquerda ; a catarina martins e a esquadra de sábios

  6. o que falou foi dizer
    que a esquerda tem que assumir um modelo da sociedade que nao seja o da direita. e para isso tem que conquistar a universidade e o sistema bancário
    depois é preciso dar liberdade a homens e mulheres para “explorar”

  7. agora é só esperar para ver
    quando é que estas palavras mágicas de Costa/ Louçã (amigos de há longa data) são reeditadas

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo