Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

29 de Novembro de 2014, 14:00

Por

João Martins Pereira, esta semana

jmpNa semana em que ocorreria o aniversário de João Martins Pereira (1932-2008), os seus amigos receberam alguns dos seus textos, porque era de escrever que ele gostava. Aqui estão alguns desses textos.

“Uma posição de esquerda é, e será sempre, a posição daqueles que querem transformar o mundo, isto para utilizar grandes palavras. E, no essencial, para reduzir as desigualdades e aumentar o leque de escolha das pessoas, logo, a liberdade. Isso é que é fundamental e isso passa pela política. Para a esquerda, o político é a instância em que se tem que resolver os problemas de uma sociedade. E não o económico, como hoje. Pior que o económico, o financeiro.”

Entrevista ao Público, 2001

“Pela minha parte continua a repugnar-me – e acho que já não vou mudar – essa ideia de fazer dinheiro a partir de dinheiro, de ‘gerar dinheiro’ só porque já se tem dinheiro, sem sequer fazer intervir pelo meio qualquer actividade ‘socialmente útil’. A Bolsa poderá ser – e em Portugal, duvido – um ‘termómetro da saúde da economia’, mas não o é de certeza da ‘saúde da sociedade’.”

Cadernos, 20.2.87

“Onde quero chegar com tudo isto? Onde acabo por chegar sempre: ‘Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida’. É de hoje que tem de se partir. Que a Direita se embrulhe nos seus complexos, mitos, fragilidades – é o problema deles, que até nos pode ajudar. Pela nossa parte, trata-se de nos olharmos, e o que nos rodeia, com a “candura” e limpidez de quem olha tudo pela primeira vez (embora tudo o que está para trás dê força e confiança a esse olhar). Mais precisamente, trata-se de olhar como se fosse a primeira vez, não o sendo: sem partis pris, sem servidões intelectuais, sem “domínios intocáveis”. Como poderá um intelectual adoptar como critério a emancipação dos outros, se a sua própria inteligência não está emancipada? Sei que não é fácil, pois não é com um estalar de dedos que se apagam complexos ou culpabilizações: mas um intelectual tem obrigação de os apagar com as suas únicas armas – a  razão, a imaginação, a ousadia, a liberdade/responsabilidade sem outros limites que não sejam os do rigor consigo próprio. E se isto fosse possível?

[…] Mas em contrapartida, a Esquerda será um ‘campo de tensão’, a tensão do inventor antes da invenção, do descobridor antes da descoberta, do poeta antes do poema – enfim do criador antes da criação. É esse ‘antes’ que necessariamente gera a tensão: a Esquerda sabe que nunca chegará á sociedade perfeita, um pouco como Zenão no paradoxo da tartaruga. É por isso que a Esquerda não só existe, como existirá sempre. […] é que a Esquerda , sendo projecto, só como projecto pode ser pensada. O que não significa que não exista, como alguns pretendem, com isso não fazendo mais do que revelar que têm da Esquerda uma ideia de Direita. A Direita faz projectos (quando é capaz…), a Esquerda é ela-própria projecto, interrogação, descoberta, desejo – e exigência moral tanto maior quanto, para ela, a moral só poderá ser, também, moral ‘contingente’ ou de ‘boa-fé’. […] A Esquerda coloca-se, a si própria, todas as alternativas, e não apenas as que lhe são dadas.”

Os falsos avestruzes, 1983

(Disponível em PDF)

“O par de opostos certo é, sem dúvida, solidariedade vs competitividade. São os homens naturalmente competitivos (‘o homem lobo do homem’, Hobbes) ou naturalmente solidários (‘o bom selvagem’ do Rousseau)? Ninguém pode provar: o que se pode é escolher.”

Cadernos,17.5.87

“Estou a ler as memórias do [Marquês de] Fronteira […] A esta distância, hoje, vemos aqueles colaboracionistas […] como os portadores da democracia, do pensamento liberal, de coveiros ‘necessários’ e ‘progressistas’ do Ancien Régime. Isto é, a História vem absolver os colaboracionistas com os invasores que traziam as ‘ideias novas’, as que vinham ‘no sentido da História’. Mas, no momento em que os acontecimentos se sucedem, como julgar? […] Ou seja, no quente das situações, toma-se partido, é inevitável: só a História virá a decidir qual o lado que ‘apostou certo’. Uma vez mais, por muito que custe, o que está em causa, em cada momento, é a opção ideológica – dela decorre a “escolha”, e não a posição ‘de princípio’, que seria, neste caso, ‘nunca se deve colaborar com o invasor’… Será preciso dizer uma vez mais que não há ‘moral universal’?”

Cadernos,14.1.87

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