Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

26 de Novembro de 2014, 15:14

Por

Somos todos desonestos? Uma experiência com responsáveis bancários

nature13977-sf5A revista Nature publicou há poucos dias um estudo de três investigadores da Universidade de Zurique sobre o comportamento de responsáveis da banca, inquirindo sobre as razões da desonestidade.

A Nature é a revista científica com mais impacto no mundo e o estudo é assinado por académicos de peso. Poderia, ainda assim, ser marcado pelo preconceito. Afinal, se olharmos para o gráfico ao lado, que descreve a evolução do descrédito da banca (através de sondagens nos EUA, no longo período que vai de 1977 a 2012, perguntando sobre a percepção da desonestidade da banca e registando a triplicação do número de pessoas que considera que os padrões éticos dos responsáveis da banca são baixos ou muito baixos), os autores, como tantos outros, poderiam sofrer desta ideia popular, certa ou errada. No entanto, ao indicarem cuidadosamente os critérios e os resultados das suas experiências, estes cientistas entregam-nos a evidência e deixam-nos discutir as conclusões.

O caso é este. Para esta experiência, foram recrutados 128 empregados de um grande banco internacional, que sabiam ao que vinham. Têm em média 11,5 anos de experiência e metade trabalha no private banking ou como gestores de investimento; a outra metade está em unidades de apoio a esse núcleo de negócios. A experiência consistia em estudar os comportamentos individuais em dois contextos diferentes: no primeiro (grupo de controlo), foram feitas perguntas banais, enquanto no segundo foram feitas perguntas profissionais sobre a banca. A todos era depois pedido que, sem serem observados por ninguém, lançassem uma moeda ao ar por dez vezes. Por cada vez que lhes saíssem caras ganhavam 20 dólares, que recebiam imediatamente. Se fosse coroa, não receberiam nada.

Os bancários que estavam no grupo de controlo reportaram os resultados esperados: caras em mais ou menos metade das vezes. Ganharam assim, regra geral, 100 dólares. Os que estavam no grupo submetido a perguntas que os identificavam e faziam discutir nature13977 graph bank empolyeesas regras da sua profissão fizeram batota e reclamaram mais dinheiro. A distorção do seu comportamento em relação ao grupo de controlo está registada no gráfico ao lado (os bancários são representados no gráfico da direita, comparado com o grupo de controlo, à esquerda) e é estatisticamente significativa.

Os autores fizeram a mesma experiência com dois outros grupos de pessoas: 222 estudantes universitários e 133 empregados de outras indústrias. Em qualquer dos casos verificou-se que as pessoas, em geral, não aproveitavam o facto de não serem observadas para fazerem batota por mais dinheiro. A sua atitude não foi diferente antes e depois da conversa sobre a sua vida profissional.

Conclusão: em algumas circunstâncias, estes empregados bancários, com responsabilidades importantes, são levados ou escolhem um comportamento desonesto. Contrastam com pessoas com outras motivações profissionais e outras experiências de vida. Assim, confrontados com a experiência na sua forma mais simples, comportam-se como pessoas normais; mas quando são colocadas no contexto da sua profissão, tendem a ser desonestos e a fazer batota para ganharem mais uns dólares.

A experiência parece confirmar a teoria da identidade: todos temos uma identidade complexa e, neste caso, quando prevalece a sua função de responsável da banca, uma parte destas pessoas passa a agir desonestamente.

Tudo depende do contexto e da regra, portanto (pelo menos nesta experiência). Se assim for, a desonestidade pode então ser combatida no seu contexto e por melhores regras. Só que, nos últimos anos, a opacidade das decisões, dos produtos e dos instrumentos bancários acentuou a permissividade. O agigantamento da alavancagem e da criação de capital fictício, com as suas cosméticas contabilísticas, abriu ou reforçou essa via da fraude. O mundo do mercado cria oportunidades e desonestidade. A percepção popular parece portanto justificada.

Não, não somos todos desonestos. Mas por a raposa a guardar o galinheiro dá quase sempre mau resultado, sobretudo se for ela a escolher a hora do jantar.

Comentários

  1. E colocarmos políticos na administração dos bancos a coisa já fica melhor? Faz-me lembrar aquele socialista que ia as reuniões do BES: entrava mudo e saia calado. E o BES foi ao chão como todos os outros.

    A solução para os bancos é exactamente o que este governo fez: faliste? todo o sistema financeiro paga.

    Não é fazer com a esquerda radical socialista: nacionalizar é que é bom, para depois aumentar os impostos e dívida à custa dos outros.

  2. “O agigantamento da alavancagem e da criação de capital fictício, com as suas cosméticas contabilísticas, abriu ou reforçou essa via da fraude.”
    Sr. Francisco Louçã, a Sra. Merkel não diria melhor!

    1. A sra. Merkel é uma das responsáveis pelo sistema de alavancagem financeira. De facto, não diria melhor.

  3. Muito elucidativo. Sai reforçada a ideia que tenho acerca da necessidade de se instituir um órgão de polícia criminal com meios físicos e legais adequados a POLICIAR a actividade, designadamente os meios de obtenção de prova reservados ao crime violento e altamente organizado. Precisamos de policiamento e não de supervisão de chancela da auto-regulação.
    Obrigado pela informação.

  4. Este artigo está do best, e lembra-me alguém que conheci (candidato a sogro :-) ) e que era diretor de um grande banco..
    Dizia-me então ele num almoço: O lema de um banqueiro é « a terra a quem a trabalha, o dinheiro a quem mexe nele..».
    Está tudo dito.. Livra. :-)

  5. São as tensões entra a racionalidade individual e racionalidade coletiva e organizacional. Existe desde há muito um trade-off entre flexibilidade e controlo.

    1. O Chomsky tem dado um grande contributo para a compreensão do mundo. No Tabu, na SicN, referi o seu último livro, publicado em Portugal. Esta palestra é um bom exemplo.

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