Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

26 de Novembro de 2014, 11:59

Por

O Papa Francisco no Parlamento Europeu

transferirNo meio de tanta fartura de notícias domésticas, pouco se notou a intervenção do Papa Francisco no Parlamento Europeu. Um discurso assertivo, sereno e corajoso.

Realço alguns pontos: o primado da pessoa, enquanto expressão de uma inalienável dignidade transcendente e da capacidade inata de distinguir o bem do mal, não limitado à mera expressão biológica de indivíduo ou agrilhoado como sujeito económico descartável. Disse o Papa: “Persistem ainda muitas situações onde os seres humanos são tratados como objectos, dos quais se pode programar a concepção, a configuração e a utilidade, podendo depois ser jogados fora quando já não servem porque se tornaram frágeis, doentes ou velhos”. Impressivamente, exemplifica com uma das vergonhas da Europa: “Não se pode tolerar que o Mediterrâneo se torne um grande cemitério!”

A dignidade da pessoa implica também uma justa e harmoniosa combinação entre direitos e deveres. Cito: “Ao conceito de direito já não se associa o conceito igualmente essencial e complementar de dever, acabando por afirmar-se os direitos do indivíduo sem terem conta que cada ser humano está unido a um contexto social, onde os seus direitos e deveres estão ligados aos dos outros e ao bem comum da própria sociedade”. Bem comum expresso numa notável síntese de apenas duas palavras: “Nós-todos”!

O Papa Francisco assinalou os desafios e perigos de uma Europa com sinais evidentes de fadiga e envelhecimento, de uma “Europa avó que já não é fecunda nem vivaz”, submergida num “tecnicismo burocrático das suas instituições”. De uma Europa enredada numa atmosfera e debate políticos onde – citando Bento XVI – “se constata lamentavelmente a preponderância das questões técnicas e económicas em detrimento de uma autêntica orientação antropológica”, e acrescentando agora o Papa Francisco que “o ser humano corre o risco de ser reduzido a mera engrenagem dum mecanismo que o trata como se fosse um bem de consumo a ser utilizado”.

O Papa Bergoglio acentuou, também, a riqueza da diversidade numa Europa que se quer mais humanamente rica e esperançosa. Disse que o lema da União Europeia deve ser o da “unidade na diversidade” de “uma família de povos”, e não o da “uniformidade”. Para isso, exortou os parlamentares a evitar “muitas ‘maneiras globalizantes’ de diluir a realidade: os purismos angélicos, os totalitarismos do relativo, os fundamentalismos a-históricos, os eticismos sem bondade, os intelectualismos sem sabedoria.” Numa Europa “protagonista, portadora de ciência, de arte, de música, de valores humanos e também de fé”.

Comentários

  1. Embora o seu comentário não tenha a ver com o texto em referência, agradeço a sua perspectiva crítica do que ontem referi na SIC N. Não quis deixar a ideia de que a questão da presunção de inocência é de somenos. Antes procurei evidenciar a ideia de que essa presunção não pode ser uma espécie de biombo através do qual se evita a discussão substancial dos assuntos em causa. Sobretudo quando se trata de matérias importantes de natureza pública ou política.

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