Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

25 de Novembro de 2014, 18:35

Por

O jornalismo é a arte de chegar atrasado, o mais cedo possível

O escritor e jornalista sueco Stig Dagerman (1923-1954) – autor de livros como o “O Outono alemão” – disse um dia que “o jornalismo é a arte de chegar atrasado, o mais cedo possível”. Concisa e acutilante definição no tempo da guerra, mas ainda mais actual na era da globalização mediática e das redes sociais sem fronteiras. A diferença entre o tempo daquele escritor e o que agora vivemos não está, pois, tanto na substância da citada asserção, mas na métrica da mesma. Ou seja na velocidade do tempo num tempo da velocidade.

Lembrei-me deste pensamento a propósito do frenesim mediático em torno da detenção e inquirição de Sócrates. Uma batalha delirante para se ser o primeiro, o mais espectacular, o mais informativo, o mais insistente, o que mais comentadores (e advogados) reunisse e até o mais repetitivo. Não que o assunto não justificasse uma intensa cobertura, mas assistimos a momentos hilariantes da enésima repetição de coisa nenhuma, de longos períodos de nada, de comentários sobre o que não se sabia, de rumores mais ou menos liofilizados, de esperas em esquinas e de espreitadelas através de nesgas.

Uma consequência deste frenesim foi bem visível: enfatizou-se por demais a forma e a aparência, subalternizando-se a essência e a substância do que estava em causa. E favoreceu desfiles de opinadores revoltados com “o circo” numa curiosa e oportuna  escapatória para relativizar o fundamental, bater na Justiça e suavizar os alegados delitos.

Comentários

  1. Quis custodiet ipsos custodes, senhor Dr. Bagão Félix? Não será, porventura, essa a essência e a substância do que está em causa? Nunca gostei do Sócrates e defendo que os governantes deviam ser julgados por actos de gestão danosa, na exacta medida em que o gestor duma qualquer empresa ou um administrador de condomínio o pode ser. O argumento de que o julgamento político em momento de escrutínio é quanto basta, não me convence. Dito isto, devo também acrescentar que sinto certa preocupação face à suspeita de que tudo possa estar nas mãos de um único homem, um juiz cuja idoneidade e verdadeiras intenções não conheço e não é escrutinada. Para todos os efeitos, seja o Sócrates culpado ou inocente, o facto é que já tem a vida de frangalhos antes de ter sido julgado. É isto a essência, Dr. Bagão Félix.

  2. Efectivamente, tem sido bem visível a consequência que identifica. Creio que a justiça ainda irá apanhar mais, e em crescendo, com o mesmo propósito, à medida que a comunicação social for produzindo conteúdos ao nível do zero absoluto na escala da decência. Apanhará as pancadas que caberiam à comunicação social.
    Ainda há pouco abri a página online de uma publicação diária onde li em manchete: “Primeira refeição de Sócrates foi cozido à portuguesa”; e, em subtítulo: “Os guardas levaram-lhe o tabuleiro à cela. O ex-primeiro-ministro aceitou o prato do dia na cadeia de Évora”. Ao lado corria em scroll umas imagens. Passou a imagem de uns rabos femininos em biquini e pensei: “É bem mais decente!”. Creio que por estes dias a casa dos segredos é o programa mais decente da Tv portuguesa, mas notem: a justiça não tem culpa alguma. Já chega de bater na ceguinha!

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