Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

21 de Novembro de 2014, 09:10

Por

O Sol roda à volta da Lua?

 

“Nas ciências a autoridade de milhares de opiniões não vale tanto quanto uma pequena centelha de razão de um único homem”, Galileo Galilei, Wikiquote.

Galilee (1)

Retrato de Galileo Galilei por Ottavio Leoni, Fonte: Wikiquote

Quando Galileo Galilei e, antes dele, Nicolaus Copernicus, afrontaram o status quo argumentando que a Terra rodava à volta do Sol, não incorreram apenas na ira da Inquisição Romana que, em 1615, baniu o livro de Copernicus que defendia a teoria do heliocentrismo, e proibiu Galileo Galilei de defender essa teoria, tendo o Santo Ofício forçado Galileo Galilei a repudiá-la, condenando-o ainda a prisão domiciliária perpétua.

A teoria do heliocentrismo era igualmente contrária à percepção de cada um, que observa o Sol nascer a leste e a pôr-se a oeste, cruzando o céu num arco à volta da Terra, ao longo do dia. Era, portanto, contrária ao senso comum e de difícil credo. E esse, para lá do fundamentalismo religioso, afigura-se, deverá ter sido o maior obstáculo a tal teoria.

Algo similar se passa com o dinheiro. A vida ensina a cada indivíduo que o dinheiro, uma construção social, tem consequências na vida real. O dinheiro coloca a comida na mesa. Coloca a mesa na sala. Coloca-nos na sala. A falta de dinheiro tira a sala, a mesa, a comida. Dinheiro permite a cada um alterar a realidade que o rodeia. E cada um aprende que as receitas têm de ser superiores às despesas, que cada um tem de viver dentro das suas possibilidades.

Em consequência, é quase impossível convencer as pessoas de que o que se toma por absoluto é, na realidade, relativo. A experiência de vida de cada um de nós, e as histórias das gerações que nos precedem, ensinam-nos que temos de viver dentro das possibilidades. Que aqueles que vivem acima das possibilidades dão-se mal. Que o preço do café é fixo, e que não é possível ver o salário duplicar de um dia para outro.

E cada um de nós, com base nessa experiência de vida, extrapola exigindo o mesmo de tudo e de todos. O Estado tem de viver dentro das suas possibilidades, não pode gastar mais do que recebe. O Banco Central não pode imprimir papel-moeda e simplesmente dá-lo aos cidadãos (ao invés tem de fazer coisas com nomes estranhos e incompreensíveis para dar esse dinheiro a uns poucos, desconhecidos).

Refiro-me ao que Keynes designou por falácia da composição. O todo não é a soma das partes. O que cada indivíduo toma por absoluto e fixo (o rendimento e os preços) é, na realidade, relativo. O centro (económico) do universo não é o indivíduo, não é a microeconomia. O centro (económico) do universo é o todo da sociedade, a macroeconomia.

E isto também é de difícil credo…

Comentários

  1. Nunca ninguém, em tempo algum, conseguiu viver acima das possibilidades. Se não é possível não existe. Se existiu é porque era possível, portanto “viver acima das possibilidades” é uma afirmação sem qualquer nexo. Essa afirmação faz parte da retórica mercantil, uma retórica assente na mentira e na burla. O mercado nunca fez parte da economia. Ninguém tem de pagar pelo dinheiro, ninguém tem de “ganhar a vida” porque a vida é um fenómeno natural. Ninguém tem de “ganhar a vida” porque ninguém tem de receber para deixar os outros viver. Quem exige receber para deixar os outros viver (aceder aos meios), é obviamente um delinquente. Um agente de mercado é um delinquente. Mas dizer isso hoje, em plena idade média mercantil, é o mesmo que dizer que não é o sol que anda à volta da terra na anterior idade média.

    A actual idade média resume-se a uma historieta triste. Consta de uma maioria de indivíduos domesticados ao dinheiro, que fazem tudo pelo dinheiro, e de uma minoria que faz o dinheiro do nada e abusa de tudo e todos através desses domesticados ao dinheiro. A historieta da actual idade média, é a historieta das vontades e abusos de quem tem os adestrados ao dinheiro a obedecer-lhes.

    Mercado é um comportamento de crematística, e crematística é a antítese da economia. Mas parece que isso é algo fora do alcance da percepção dos domesticados. Tal como um cão é um animal que não sabe sequer que pode ser dono de si mesmo, ser lobo e viver em função de si e não em função dos humanos; os “trabalhadores” são esses indivíduos que não sabem que podem ser humanos, donos de si mesmos, e viver em função da humanidade e não em função da desumanidade mercantil. Enfim, é idade média actual.

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