Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

19 de Novembro de 2014, 09:07

Por

Robinson Crusoe afinal não vivia sozinho

Robinson_Cruose_1719_1st_editionFoi Italo Calvino quem me fez perceber, em Porquê Ler os Clássicos, que um dos mitos da minha adolescência era falso: Crusoe não viveu nem sozinho nem só com a companhia de Sexta-feira. Muito pior, verifiquei que alguns dos grandes mestres da economia tinham inventado uma lenda, quando usavam Crusoe e a sua economia de sobrevivência como o protótipo de uma sociedade maximizadora, gananciosa e totalmente individualista, o sonho arrogante da boa teoria.

Estas fantasias parecem sofisticadas mas só são deliciosamente ingénuas: um reputado economista, que levou isto mais longe do que os outros, escreveu mesmo um livro (científico) em que Crusoe é apresentado como o único produtor (que representa todos os produtores, porque todos são igualmente gananciosos), o único consumidor e até o único acionista da empresa: produz e vende a si próprio, procurando ganhar o mais possível. Esta economia seria um modelo para o nosso mundo. Só que Crusoe não viveu sozinho na sua ilha, nem quereria viver. Assim, toda a narrativa em que se inspiram estes economistas acaba por ruir sem remissão.

Na história, Robinson Crusoe não viveu só e abandonado e, portanto, a ficção do seu heroísmo, da sua tenacidade, da sua luta para domesticar a natureza, será um lenda de uma lenda. Sim, é claro que todos nos lembramos que havia Sexta-Feira, um escravo, feito criado, amigo talvez, compatriota de aventura. Os que usaram Crusoe como arquétipo da solidão, estariam sempre a contar uma simplificação (ou a ignorar o criado, por ser criado). Uma simplificação, isso não seria preocupante. Acontece que o caso é mesmo grave: de facto, a ilha tornou-se um corrupio de gente.

Percebe-se porquê. Quando Daniel Defoe publicou o livro em 1719, com um título espantoso (The Life and Strange Surprizing Adventures of Robinson Crusoe, of York, Mariner: Who lived Eight and Twenty Years, all alone in an un‐inhabited Island on the Coast of America, near the Mouth of the Great River of Oroonoque; Having been cast on Shore by Shipwreck, wherein all the Men perished but himself. With An Account how he was at last as strangely deliver’d by Pyrates, o título é já de si um romance, mas Defoe publicou cerca de 500 outros livros e escritos) e com um sucesso avassalador (700 versões num século, desde textos adaptados para crianças até folhetins ilustrados, qual deles é que lhe veio parar às mãos?), estava-se a inventar um conceito revolucionário, o da tolerância religiosa, nos antípodas de uma teoria económica absolutista, que não se preocupa com ninharias.

Escreve Defoe, pela boca de Crusoe:

A minha ilha estava agora povoada, e vi-me muito rico em súbditos; e era uma reflexão alegre, que muitas vezes me ocorreu, que parecia um rei. Primeiro que tudo, toda a ilha era minha propriedade, e portanto tinha o direito indiscutível de domínio. Segundo, o meu povo estava perfeitamente submetido – eu era senhor e legislador absoluto – todos me devia a vida e estavam dispostos a sacrificá-la por mim, se houvesse ocasião. Era também notável que eu tinha três súbditos e que os três tinham religiões diferentes: o meu homem, Sexta-feira, era Protestante, o seu pai era Pagão e canibal, e o Espanhol era Papista. Contudo, eu permitia a liberdade de consciência nos meus domínios”.

Crusoe, ele próprio Papista, embora inseguro sobre se teria feito a melhor opção, escolheu a liberdade religiosa quando tinha poder absoluto. O vilão vê-se quando se lhe põe o bastão na mão e Crusoe preferiu a tolerância. E o seu progenitor, Defoe, ele próprio presbiteriano, ou seja, protestante, escolheu crismar o seu herói como católico, quando tinha o seu mundo ao dispor.

A Vida e as Estranhas e Surpreendentes Aventuras de Robinson Crusoe é portanto uma lição de tolerância e de vida em comunidade, e não de ganância individual, pese aos modernos mestres economistas, presunçosos e desatentos leitores. Em tempo de fanatismo religioso e de variadas ortodoxias intolerantes, o exemplo de Crusoe merece ser homenageado.

Comentários

  1. adoro isto , sensacional
    é como estar dentro de uma bola de fogo , e fosse ela a teoria.
    o segredo está na teoria da probabilidades ; Louçã haviafalar mais sobre isso; a ver quando é que Crusoé caía no precipício

  2. Para construir os silogismos que refere basta ter imaginação. Uma determinada fábula pode ter interpretações tantas quantas conseguir desenhar a criatividade humana. Surpreendentemente o mesmo se passa com teorias ou pensamentos económico-sociais. Dou-lhe um exemplo. A maior parte dos tipos de direita simpatiza com a “teoria da escolha pública”. E partem até dos seus pressupostos para menorizarem o papel do Estado. Pois eu cá acho que um dos pressupostos de que parte esta teoria (comportamento do homem baseado no auto-interesse, na ganância, nos incentivos monetários) são mais coerentes com a ideologia de esquerda e tornam mais importante a existência de um Estado forte e esclarecido em nome da coletividade.

    1. bem.
      para dar a volta ao texto ficávamos pela do artigo em escuta.
      não lembra o diabo agora vir par aqui bulir sobre se a propriedade é um não um roubo. que nesse caso a “livre-vontade de mercado” é o melhor princípio , teoria e argumento para a esquerda.
      mas como tambem diz Louçã, Hayek é uma fonte farta de más metáforas

  3. para muitos ocidentais,o “Robinson crusoe” é o simbolo máximo do individualismo mega egocêntrico, da auto satisfação demente e do venha a mim e os outros que se lixem.foi assim que foi “interpretado” por muita gente.e é assim que se fazem “interpretações abusivas” da biblia,corão, e até do “primo basilio” do eça( na época o eça foi criticado pelos críticos…burgueses).é um bocado como perguntar ao lou reed quantas pessoas se tornaram heroinómanas por ouvir o “heroin”? o lou reed respondeu,perguntando ao jornalista onde está na canção “heroin” uma única sugestão que diga para alguém se meter na droga?

    1. a questão não é essa
      a questão é antes – quantas pessoas a que lhe é proposta um ar condicionado recusariam esse mesmo aparelho de ar condicionado ; tou a ver poucas. nem sei se lou reed seria uma delas.

  4. “é uma alteração gritante” ; os produtores, consumidores, poupadores e traders não são agora 1 , mas N ; multiplicou-se por n
    mas pasme-se , mantém-se as funções
    o homem só pode ser três/quatro coisas (isto seja muçulmano, protestante ou ateu) :
    consumidor (Soberania do consumidor: cabazes “átomos” prazer : ex. trigo , tetris , cacau)
    produtor (propositante da tecnologia Leontieff ou outra.)
    poupador (“esmifrador” ricardiano e grande acumulador: vulgo, “chefe de família”) ex. ações, notas , e imobéis
    trader (em tx. juros, ativos financeiros, “swaps” ; índices cambiais; …) um autêntico “homem novo”

  5. eu , “eu”
    já tinha percebido isto que a historia de Crusoé tinha dado uma volta, bsta ver e ouvir as declarações dos reguladores esta semana na comissão de inquérito ; os agentes até podem passar por pessoas sensatass…

    1. exato
      assim se comprova a necessidade da legibildiade do texto ; como os próprios autores referem. trata-se de ir revisitar “os clássicos”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo