Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

16 de Novembro de 2014, 08:30

Por

Ganhar e perder: o quê e o qual?

Gosto muito de futebol. Lá dentro, nas quatro linhas. Com cor, movimento, alegria, ansiedade. Mas abomino o futebol, naquilo que tem de tudo … menos de jogo, de golos, de emoção.

O futebol-desporto cedeu definitivamente a primazia ao futebol-negócio. Neste redemoinho, está a transformar-se, cada vez mais, numa absurda guerra. De palavras, de actos, de acusações, de omissões. E de interesses obscuros, desde logo no topo das suas organizações internacionais.

O romantismo (ou ingenuidade?) na génese do futebol sonhado foi irreversivelmente vencido pela ferocidade dos negócios onde mais pessoas se transformam em “mercadorias” (agora, tecnocraticamente, activos)  e “mercadorias” enriquecem organizações e pessoas sem escrúpulos. De um ponto de vista social, e como que espelhando a distribuição de riqueza no mundo, o futebol dos tais activos divide-se numa minoria muito minoritária e muito rica, uma maioria muito maioritária  e pobre e uma “classe média” quase insignificante… Para o grupo dos mais dotados,o importante é maximizar a velocidade de circulação que, em geral, começa na intermediação comissionista e acaba num qualquer paraíso fiscal.

Tudo isto se reflecte no próprio ambiente do desporto. Onde há adversários, vêem-se inimigos. Onde deveria haver competição dura mas leal, há batota e amoralidade. Onde deveria exprimir-se a capacidade de saber ganhar e perder, há atitudes inconsequentes e perniciosas.

Aceitar o fracasso como um homem e o sucesso como um senhor” já não é a regra comportamental dominante.

Só se tem autoridade com a exemplaridade. Só se tem respeitabilidade com a contenção emocional e coerência de atitudes. Preservando a dignidade e a memória de instituições que permanecem, para além de nós.

O futebol é genuinamente popular e assim deveria continuar. No fundo, o regresso às (boas) origens: “o futebol: esse reino de lealdade humana exercida ao ar livre”, como, um dia, bem definiu Antonio Gramsci.

Vale a pena reflectir sobre as palavras avisadas do notável pensador Erich Fromm que se aplicam que nem uma luva ao mundo do futebol: “A partir do momento em que o homem se sente não só como o vendedor mas também como o bem a ser vendido no mercado, a sua estima própria depende de condições que vão além do seu próprio controlo. Se ele é bem sucedido, tem valor; se não é, é inútil”.

 

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