Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

14 de Novembro de 2014, 19:02

Por

O erro de paralaxe de João Miguel Tavares

João Miguel Tavares, na sua crónica da edição em papel do PÚBLICO de 13 de Novembro, escreveu que eu lhe teria “dedicado” um texto no “blogue Tudo Menos Economia”, a propósito de uma sua anterior crónica de 6 de Novembro intitulada “Apelo para não resgata a PT”. E acrescenta: “Bagão Félix preferiu falar de mim utilizando aquela técnica patenteada pelo cronista lusitano esquivo e anguloso, que consiste em mandar indirectas a alguém sem nunca pronunciar o seu nome, não sei se por hábito adquirido nos tempos da Outra Senhora, se pelo prazer de me ver enfiar a carapuça. É uma coisa infantil, mas estranhamente popular entre os articulistas nacionais”.

Como não havia lido a tal sua crónica de 7 de Novembro (embora, em regra, leia com gosto e muitas vezes em concordância os seus textos), devo começar por referir que o que escrevi no blogue nunca poderia responder ao que desconhecia. Por isso, João Miguel Tavares enfiou, de facto, uma carapuça que não lhe era destinada. E foi, por demais, presunçoso.

Em todo o caso fui reler os posts que escrevi para o blogue depois de 7 e antes de 13 de Novembro. Um deles refere-se ao uso e abuso dos telemóveis. Como nunca falei com João Miguel Tavares e não tenho sequer o seu número de telemóvel, posso supor que não se referia a este texto.

O outro intitulado “ A heresia do bem comum: o exemplo da PT” reflectiu sobre a doutrina social da Igreja e as condicionantes inerentes a uma economia social de mercado. No texto – relembro aqui – há duas partes que, admito, sejam aquelas que suscitaram o comentário que agora “comento”: “Cito, neste contexto, os últimos dois Papas que, ao que julgo saber, não fazem parte de qualquer dessas ‘brigadas’ bafientas com que, agora, os mais acérrimos prosélitos do mercado puro e duro apelidam os que ousam contrariar este fundamentalismo mercantil” e , mais à frente, “Mesmo assim, há quem prefira ou defenda que se deve ser apenas espectador de um jogo viciado. No camarote, na bancada ou no “peão”. O mercado pode condicionar a política democrática. Esta é que jamais pode beliscar ou intrometer-se na pureza do mercado. Seja o dos anéis ou o dos próprios dedos. Em versão soberana ou suserana…”.

Não sei por que razão João Miguel Tavares se viu espelhado nestas partes do texto. Será que se considera um “acérrimo prosélito do mercado puro e duro”? Não tenho esse entendimento por tudo o que dele tenho lido. Será que se acha visado pela expressão “apenas espectador de um jogo viciado”? É óbvio que o que aqui exprimi se refere exclusivamente às autoridades políticas ou públicas e accionistas das empresas em causa.

João Miguel Tavares está, evidentemente, no direito de pensar o que muito bem entender sobre o que escrevo. Mas reconhecerá que se precipitou no nexo de causalidade crítica que criou no seu texto.

Dirigindo-me mais directamente a si, João Miguel Tavares: nos posts não falei, nem pensei sequer em si. Não lhe mandei indirectas sem nunca pronunciar o seu nome. Aliás, devo dizer-lhe que, talvez por já pertencer a algumas dessas brigadas agora tão invocadas, não tenho por hábito despender o meu tempo em pingue-pongues retóricos. A minha vida já é longa e tem-me ensinado a discernir cada vez melhor o essencial do acessório, o determinante do espumoso, o útil do inútil e do fútil, e até o infantil do juvenil (ou senil, se quiser).

Uma última nota: à míngua de melhores argumentos, o seu texto está prenhe de processos de intenção “esquivos e angulosos”, para utilizar as suas mesmas palavras. Dizer, por exemplo, que o meu hábito pode ter sido adquirido nos tempos da Outra Senhora (maiúsculas suas) é cair no “pecado” de que me acusa e é – voltando a utilizar termos seus – “uma coisa infantil e popular”. Em 25 de Abril de 1974 tinha 26 anos, trabalhava arduamente, havia cumprido serviço militar por três anos, havia-me licenciado com o meu esforço, havia sido pai e – imagine – até já havia votado na Oposição Democrática (1969). Eram estes os meus hábitos.

Comentários

  1. Meu caro Bagão Félix,
    Admiro-lhe a paciência. Estes Senhores não são do tempo da Outra Senhora mas parecem muito bem formados para fazerem retroceder os Valores aos tempos da Outra Senhora.

  2. O sr. Tavares é um publicista e deve ser tratado e tido como tal. A retórica do sr Tavares é provocadora e fulanizada propositadamente para as “audiências” dos seus textos. Com favor, um nível acima da conversa de café. Esta na hora de o deixarem falar e escrever sozinho.

  3. Eu explico o que se passou, caro Bagão Félix. Na terça-feira eu publiquei no Público um texto intitulado “A nova brigada do reumático” e, na tarde desse mesmo dia, o senhor publicou um post no blogue respondendo às críticas ao manifesto pelo resgate da PT, onde dizia não fazer parte das “‘brigadas’ bafientas” (“brigadas” estava entre aspas) com que “os mais acérrimos prosélitos do mercado puro e duro apelidam os que ousam contrariar o fundamentalismo mercantil”. Pensei, de facto, que aquele “brigadas bafientas” era para mim, tanto mais que eu também havia escrito a discordar profundamente do manifesto por si assinado. No entanto, não tendo eu qualquer razão para duvidar da sua palavra, fui tentar perceber as razões de tamanha coincidência, e descobri que uma semana antes, a 4 de Novembro, o ministro Pires de Lima terá chamado “brigada de resgate” aos subscritores do apelo. Eu desconhecia tais declarações e este estranhíssimo acumular de brigadas, causado por coincidência astral e pelo problema de não-nomeação que eu critiquei no meu texto: pelo que percebo, o Bagão Félix estaria a referir-se às brigadas de Pires de Lima e não às minhas brigadas. Assim sendo, e porque era minha obrigação conhecer as declarações do ministro da Economia, aceite, por favor, o meu pedido de desculpas pela confusão.

    1. Caro João Miguel Tavares, agradeço a sua explicação e aceito, naturalmente, o seu pedido de desculpas.
      Acrescento agora que, num outro espaço (o meu comentário nas quartas-feiras na SIC Notícias), havia dito praticamente o mesmo em relação à frase que refere, mas, (como, se quiser, pode verificar) nesse caso citando o ministro da Economia. Não tenho por hábito ser deselegante, o que não me impede de ser, às vezes, materialmente contundente na defesa das minhas convicções. Se, no caso vertente, me estivesse a dirigir a si, pode estar certo que o referiria, como exigem, mais do que as “boas práticas” políticas, as regras de decência e de correcção e também os valores fundamentais que ambos partilhamos.
      Aliás, estamos a viver um tempo em que se faz muito uso de expressões demasiado simplificadoras ainda que mediaticamente atractivas (além de indutivas e injustas) que, não raro, substituem o verdadeiro debate e desejável confronto no plano das ideias.
      Um abraço
      abf

  4. Ia escrever “parabéns” mas prefiro dizer “obrigado, Antonio Bagão Felix”. Não só pela resposta dada a JMT mas sobretudo pela clareza do seu comentário habitual neste espaço, assim como na Sic N, que vejo sempre que posso. Estou à vontade para o elogiar: nunca votei no partido de que se aproximou enquanto independente, e não sou católico. Mas penso que um dos males da nossa opinião publicada é uma mentalidade próxima da do futebol, onde se pode de facto defender as nossas cores, não interessando o porquê: é paixão. A politica tem que ser racional, por forma a defender a melhor opção na situação em causa, visando o bem publico. Ė isso que admiro na sua opinião.

  5. E assim se prova a falsa ideologia do governo, em prática pelas mãos de João Miguel Tavares. Ao contrário da perversidade infantil do colunista, em que os “velhos” são necessariamente maus e os “novos” (ele próprio), são obrigatoriamente bons. Bagão Félix vem demonstrar que o humor e a inteligência são uma sobremesa que se serve fria. Melhor, que a idade ajuda a levar à mesa, no momento certo. Bagão Félix não se fica pelas palavras críticas e ocas, que João Miguel Tavares faz armas de arremesso inconsequente e pueril. Em Bagão Félix, a palavra é o resultado de uma prática de vida consequente. Declaração de interesses: nunca votei no partido deste comentador e político, mas reconheço-me na sua independência de pensamento. Coisa notável nos dias que correm, em que os “novos” aceitam as mentiras que lhes são imputadas, sem ponta de sentimento crítico para além de uma breve e irrefletida excitação emocional, como bem demonstrou a coluna de JMT.

  6. Bagão Felix escreve que até votou na Oposição Democrática em 1969 e em 1973.
    Em 1973, não votou, de certeza, pois a Oposição Democrática acabou por não concorrer ao “acto eleitoral”” realizado no Outono desse ano.
    Em 1969, não sei se poderá ter votado. Depende, antes de mais, da data do seu aniversário, pois não sei se no primeiro trimestre já teria 21 anos. O chamado recenseamento eleitoral foi feito nesse trimestre, e só então podia recensear-se e votar quem tivesse mais de 21 anos.
    Era interessante o Público conferir este pequeno pormenor.

    1. Quanto a 1973 não votei formalmente na oposição democrática porque embora concorrendo desistiu antes do dia eleitoral. Mas no contexto de então, ao abster- me (activamente) ” votei” politicamente na oposição. Mas não quero que fique a ideia que expressou no seu comentário. Por isso alterei a referência.
      Quanto a 1969 votei com 21 anos e se quiser até lhe posso dizer em que mesa eleitoral. Se mesmo assim duvidar talvez queira verificar os mapas eleitorais que julgo serão públicos. A sua sugestão de o Público conferir este dando considero-a no mínimo deselegante.

  7. Este tipo de situações, aqui relatada, são uma perda total de tempo: “…eu acho que fulano acha que eu acho…”. Além de exercício do absurdo e do ridículo é uma actividade a que muitas das nossas figuras públicas gostam de se entregar amiúde, assim como atirar no escuro a ver se apanham alguma mosca. Simplesmente absurdo e ridiculo.

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