Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

11 de Novembro de 2014, 11:00

Por

Uma palavra de consolo para o João Miguel Tavares, que bem precisa

jmt e vgJoão Miguel Tavares, na sua coluna no PÚBLICO, respondeu ao apelo para uma intervenção pública na PT com um enérgico contra-apelo “para não resgatar a PT”. Felizmente, a sua voz está a ser escutada e obedecida pelas mais altas instâncias do país, como bem merece, e o governo, como é bom de ver, não fará nada – a não ser que haja desmembramento da empresa, corrigiu a medo o nosso Marco António Costa. Se alguém se atrever a desmantelar a PT, nem imagina com quem se mete. Suponho que JM Tavares não gostará desta putativa intromissão, mas que estará descansado quanto à probabilidade ínfima de ela se concretizar, vinda de quem vem. Nestas matérias, o governo segue firmemente o princípio daquela filosofia oriental que aponta o caminho para a transcendência, no que alinha com a doutrina tavarista: “sentado, nada fazendo”.

Dizia-nos Tavares, de quem não se esperaria que tivesse ouvido quem inutilmente perorou contra a “fusão” da PT com a Oi, e aqui preciso como uma seta para revelar a marosca: “Aliás, segundo sei, a PT já é brasileira. Portanto, ser brasileira não colide com o interesse nacional, mas ser francesa, sim?”. Portanto, sentado, nada fazendo, a empresa é brasileira ou francesa ou lá o que é. Que importa que a PT seja sempre uma empresa portuguesa, submetida à lei portuguesa porque opera em Portugal, independentemente de quem é o seu accionista? Tavares, homem do mundo, pensará certamente que a EDP e a REN ficaram chinesas e submetidas à lei da China, ou que a ANA ficou submetida à lei francesa, e que são os respectivos governos do Partido Comunista Chinês e de quem for em França que ditam a lei e a ordem quanto a estes negócios. É uma mundivisão alegre, uma promessa de um mundo plano, de um generosidade emocionante, até levemente internacionalista, que só tem o óbice de ser uma fábula. Aliás, Tavares escorrega logo de seguida ao perguntar se a tal intervenção do Estado “respeita o enquadramento jurídico português e comunitário?” – afinal, parece que a empresa tem de cumprir a lei deste cantinho à beira-mar plantado e de quem cá manda.

Mas tudo isto são trivialidades. Tavares, aliás, só usa o pretexto para apresentar o texto da sua angústia e é ela que me comove: pois não é que tudo isto só demonstra a razão dos “seis ou sete liberais genuínos deste país, que há muito garantem que no que à economia portuguesa diz respeito aquilo que continua a imperar é um pensamento único e uma visão centralista e clientelar do Estado”? Seis ou sete liberais esforçados, entre os quais Tavares brilha evidentemente, eles que são os únicos a combater o “pensamento único” e a “visão centralista e clientelar do Estado”.

É por isso que lhe trago uma palavra de consolo. É que ele não está sozinho, os outros cinco ou seis mosqueteiros são rapazes esforçados, terçam pela vida, não abdicam dos seus luminosos princípios, hão-de levar Portugal a bom porto.

Alguns deles, aliás, vêm singrando.

Passos Coelho, ninguém dava por ele, mas caminhou desde a Tecnoforma e daquela coisa do centro de cooperação internacional, que ia educar Cabo Verde a troco de umas alimónias sobre cujo valor me falha a memória, até ao cargo de primeiro-ministro, onde assegura garbosamente que o governo não mexe em empresas, que o mercado funciona, venham eles que a PT está à venda. Quanto ao resto, caro Tavares, não se amofine com o aumento de impostos: os liberais, mesmo os fiéis dos fiéis, aumentam os impostos quando a finança precisa de uma renda, é a isso que se chama empreendedorismo. O homem é mesmo dos liberais de boa cepa.

E depois temos o Moedas. O Moedas está agora em Bruxelas, claro que em cruzada contra o “pensamento único”, leva bons pergaminhos de Portugal – e como ele é estimado no estrangeiro! – sempre a jurar pela transparência das privatizações e das operações financeiras (façam favor, não nos macem com essa história de que Ricciardi discutia as privatizações da EDP e da REN ao telefone com o ministro Miguel Relvas, coisas de amigos, ou com a CMVM que garante que há indícios de crime em todas as OPAs na última década, coisas do outro Tavares). Por cá, tudo transparente. E, claro, o Moedas nunca desistiu de combater “a visão centralista e clientelar do Estado”, razão que levou Ricardo Salgado, no calor de uma reunião do conselho de administração do BES, a anunciar que ia “pôr o Moedas a funcionar” para salvar o banco contra os tentáculos dos gananciosos. Com a ajuda do Estado “centralista e clientelar”, enfim, neste caso esta era a forma de salvar o mercado e o mercado é que evitará que, doravante, o Estado continue clientelar como a pescada, que antes de ser já o era.

Mas há mais. Juntos serão só seis ou sete, mas que diamantes! E como esquecer um dos melhores, o Bruno Maçães, esse homem que vai arrasar o passado sinistro de estatistas que tudo controlavam, porque “todos os dias (…) lembram o muito que os 35 anos de hegemonia socialista em Portugal fizeram de mal ao país. Felizmente podemos hoje dizer que esses dias acabaram” – Cavaco, Guterres, Durão Barroso, Sócrates, todos esses socialistas hegemónicos hão-de responder por tudo o que “fizeram de mal ao país”. É que, agora, chegou o Maçães: meu caro Tavares, fique descansado, ele vem com vontade de arrasar.

Ele, aliás, tem explicação para tudo. Se, nos seus momentos de angústia, pensar que a austeridade faz mal ou, até, que disparate, que a austeridade provoca recessão, leia o Maçães, para saber como a cura é saborosa:

a relação entre austeridade e recessão é muito menos direta ou evidente do que se pensa. Claro que se a consolidação orçamental for feita através do aumento de impostos os efeitos recessivos serão imediatos, mas nesse caso o problema não é a austeridade. Mais importante, não podemos confundir causalidade com correlação. É verdade que a austeridade tende a acompanhar a recessão económica, mas qual é a causa e qual é o efeito? Se uma economia estiver desequilibrada, se tiver subitamente de deslocar recursos de uns sectores para outros, e se as instituições que facilitam este equilíbrio forem pouco flexíveis, então uma contração será inevitável. E com esta contração, que remédio resta senão gastar menos em despesa pública? Mas notem que a recessão provocou a austeridade e não o inverso. A compressão no tempo cria uma aparência de causalidade.

Por isso, como “os desequilíbrios acumulados eram impressionantes e, sobretudo, (…) a sua correção implicaria uma ajustamento de preços e salários conduzido imperiosamente do exterior. Era algo que não imaginava que o país fosse capaz de aceitar e levar a cabo”. Que coragem foi precisa para “conduzir imperiosamente do exterior” esse “ajustamento de preços e salários”! Os nossos liberais, caro Tavares, são garbosos, agem “imperiosamente do exterior”. Tenha confiança, eles vão lá.

E, se temos homens, poucos mas bons, liberais dos quatro costados, temos também os seus feitos. Eles salvaram o Mercado, venderam o que havia a vender, desmantelaram esses bocados do Estado “centralista e clientelar” que nos oprimia. A venda dos CTT, as garrafas de champanhe que os liberais abriram nesse dia! Era uma empresa pública desde D. João II, obviamente “centralista e clientelar”, onde ela já vai. E a energia? Champanhe com ela. E os aeroportos? Champanhe. E a PT? Mais champanhe. E a TAP, arrumada até ao fim do ano segundo garante Passos Coelho? JM Tavares fará mais um risco na coronha da sua Colt das privatizações, mais uma empresa “centralista e clientelar” devolvida ao mercado.

A coisa vai, caro Tavares. Não desanime. Esses “seis ou sete liberais” vencerão. Ainda bem que lhes recomenda que deixem a PT sossegada. Que a PT, pela mão de Zeinal Bava (indemnização de quatro milhões?), Henrique Granadeiro, Rafael Mora, Ricardo Salgado, a Oi, a Altice, Isabel dos Santos e tutti quanti, já demonstrou que, se destruirmos o Estado “centralista e clientelar”, o mercado funciona.

Comentários

  1. De facto a partir do momento da fusão a P.T. deixou de ser uma empresa portuguesa.
    Dai a minha perplexidade com tamanho alarido, e que e preciso manter a empresana nossa esfera de
    influencia ou seja manter o centro de decisão em Portugal.Mas ele ainda CA esta.? pergunto a quem souber responder-me.

  2. Meu caro Francisco Louçã,

    Gostaria de o ver aplicar semelhante raciocínio em relação ao sistema político “marxista-leninista” – O Socialismo. Que faliu e com ele faliram muitos ensaios de uma economia nas mãos do estado, partido ou partidos como actualmente.
    A defesa política de manter este tipo de empresas como almofada de emprego dos funcionários do sistema, albergues de ex-futuro-políticos já não tem grande cobertura, sobretudo, quando o povo está a sofrer nos bolsos e nos seus orçamentos familiares.
    Se assim não fosse, não era possível fazer sair dos cofres da PT Novecentos Milhões… só que o sistema está a desmoronar, tal como a PT.
    Também não e por acaso a presença na Assembleia da República de uma maioria de políticos profissionais ou semi-profissionais e socialistas. São precisos para manter o sistema, para o olear.
    O Francisco Louçã poderia contar algumas histórias interessantes da Assembleia!
    Cpmts
    cna

  3. JMT – Um opinionmaker prodigioso. Poderosíssimo.Com talento Q. B. para influenciar uma grande franja de leitores.
    Chiça que a mim não me apanha ele, fosga-se.

  4. Percebo a lógica de não haver propriedade privada. Já não percebo é esta coisa de empresas estratégicas e das que devem ou não pertencer ao Estado ou em que o Estado se deve meter. Às vezes fico com a impressão de que no Estado devem ficar as Empresas sentadas em cima de serviços a que o cidadão consumidor não tem como fugir e como tal paga o que lhe for exigido e aceita a qualidade que lhe derem. De fora ficam as oficinas automóveis, o cultivo de batatas, os serviços de limpeza, os rapazes que vão arranjar os computadores, reparar as instalações aos hospitais, preparar as salas para os senhores governantes reunirem e etc. Seguramente que estou enganado. Vou ver se me concentro mais para perceber os fundamentos para essa selecção do que é o interesse do Estado. Se fosse outro que não Louça a defender essa curiosa distinção, ainda colocaria a hipótese ser um simples reconhecimento da lei da vida que determinará a existência de filhos e enteados, mas sendo essa divisão defendida por alguém mandatado para a defesa dos mais fracos, seguramente é limitação minha o não conseguir perceber porque essa distinção é o melhor para os desfavorecidos. Está visto que não poderei estranhar que me chamem de pobre e mal agradecido.

  5. Meu caro Francisco Louçã. Como dizia o meu avô paterno, beirão do -antes quebrar que torcer-, não devemos gastar cera com os reles defuntos. Na verdade, o cidadão J.M. Tavares, cuja prosa viscosa, rugosa,redonda e merdosa por vezes leio, causa-me calafrios. O homem, no mais puro estilo “voz do dono”, recorda-me sem saudade, bem pelo contrário, um certo estilo jornalístico anterior ao 25-Abril, lambedor de botas ( sou cidadão sexagenário,sei do que falo!) . Lamento aliás, ver-me forçado a deixar este meu registo, puro desperdício, que a citação do meu avô me recorda.Dito isto, caro F. Louçã, termino no mesmo tom. Bem sei que aos imbecis balbuciantes, devemos dedicar alguma atenção,contraditando-os, não vão eles imaginar-se donos da razão.Não obstante, parece-me, o Louçã gastou demasiada cera.

    1. Agradeço sempre a recomendação de prudência no uso dos argumentos. Mas no mundo comunicacional de hoje disputamos o bom senso, e só o argumento e a persistência o podem inventivar…

  6. isto merece apenas um comentario:o joão tavares na foto esta ao lado do vitor gaspar.uma imagem vale mil palavras,não é? (desculpa joão tavares mas este comentario é ao estilo do “observador”,percebes ou não?)

    1. Sim, mas é a foto do lançamento de um livro. Não quer dizer que estejam de acordo: JMT tem escrito que gostava que o governo fosse mais liberal. Creio que é injusto para PPC, e isso preocupa-me.

  7. Tanto quanto me é dado a entender pelo que leio na comunicação social, a “fusão” entre a Oi e a PT terá sido decidida por influência política ao mais alto nível, entre políticos portugueses e brasileiros, em nome de um “interesse estratégico nacional”. Não foi uma decisão ditada pelo mercado.
    O “investimento” de 900 milhões na Rioforte não terá sido também ditada pelo funcionamento do mercado.

  8. A crise tem evidenciado que, de facto, em Portugal, os “liberais” distinguem-se dos socialistas apenas nas questões de alcova.

  9. Só não percebi se alguém dúvida que as empresas quando são públicas são profundamente clientelares, e lá não se entra por mérito mas apenas se formos filhos da cunha. Há dúvidas?
    Já agora, se o modelo de tudo público é superior, o que é que falhou na Coreia do Norte, Cuba, Vietname, Argentina e Venezuela?

    1. Não é uma questão de o setor público ser superior ou inferior, é uma questão de ser gerido com competência e honestidade. Veja o caso do setor público na Noruega (e na Escandinávia, de um modo geral).

    2. alhos e bogalhos, até parece q na américa, na inglaterra ou na frança nada falha. vá a 2008, por exemplo e veja o q foi o lehman bros, ou a frança ver casos idênticos ao nosso BPN/BES.

  10. O camarada Chico me faz dar frouxos de riso, como dizia o primo rico ao primo pobre num programa da Globo na década de 70/80 no Brasil.
    Ah! Ganda valente esse JM Tavares, liberal que se farta!!! E viva ela!!! Do jeito que a coisa, já falta pouco para privatizar o país todo!!! Até os portugueses como cidadãos passam a ser privatizados!!! Eu hein???

  11. Confesso que me custa entender a importância que o Francisco e outras pessoas atribuem ao articulista. Trata-se de um “curandeiro” observador da espuma dos dias. Um dos que perante um dedo a pontar para o céu, olha para o dedo… Um cultivador de ódios de estimação incapaz de emitir uma opinião sem pessoalizar as temáticas. Daqueles que tudo percebem e sobre tudo escrevem e opinam. Mas enfim, se escreve regularmente para o Público é porque alguém lhe atribuirá méritos. Ou será que esta “audiência” vêm precisamente da pessoalização dos artigos de opinião? Está a cair na armadinha Francisco.

    1. Caro LTB: quando escrevi Os Burgueses, com dois co-autores, procurámos explicar as formas de fabricação do senso comum. Fomos por isso analisar desde os livros de Rebelo Pinto até às publicidades, comunicados da conferência episcopal, exames de faculdades, telenovelas e outros produtos. JMTavares faz parte desse inventário da fabricação do consenso. Deve ser levado a sério, porque é um publicista de ideias fortes, construidas, as do liberalismo Tea Party que tem dominado a Europa. Por isso o discuto, e porque acho que escreve com graça, resumindo bem estas ideias.

    2. Ideias construídas tem o Francisco que é um reputado catedrático e um político intelectual que baseia as suas opiniões em conhecimento e estudo. Repare que eu não quero dizer que JMT não tem direito a opinião. Claro que tem. Como eu e qualquer outra pessoa. Contesto é que tanta gente lhe atribua tanta importância. Tenho a certeza que, numa discussão, descendo ao pormenor técnico, ao detalhe, à prática, ao contraditório imediato ele já não acompanha. E não acompanha porque a sua argumentação tem uma sustentação teórica e doutrinal um nível acima da conversa de café. Como disse, é um publicista de confrontação, um provocador e as pessoas acham-lhe piada. Duvido que tenha músculo para ser mais que isto.

    1. Mas creio que só foram concessionados depois e não vendidos. A venda foi agora (programa eleitoral do PS em 2011, Passos Coelho a cumprir).

    2. Foi mesmo privatização: “o Correio-Mor foi um cargo de nomeação régia até 1606, quando foi vendido pelo rei Filipe II a Luís Gomes da Mata, pela quantia de 70 mil cruzados. Durante dois séculos, a família Gomes da Mata manteve a posse da exploração dos correios”. Regressaram à posse do estado em 1797.
      A história está bem contada aqui: http://www.publico.pt/economia/noticia/ctt-uma-empresa-onde-se-le-a-historia-do-pais-1614866

  12. Louçã,
    Só espero que depois de toda esta diatribe “mediática”, vás ser Presidente da alguma coisa ;
    se não não vale de nada ; não tem valor nenhum ; nem sequer o acrescentado

    1. bem, pois
      depois de todos este poder de fogo, esta canhoneira bolchevique a Ocidente
      só podemos esperar que nas Presidencias 2016, D Barroso vá fazer campanha pelos valores (v)

    2. isto é mt esquisito – não sei como é que aparecem caras com fotos neste nome
      eu não mexi em nada ; Será o Maçães, manobrar

  13. bem,
    essa excelsa citação de Maçães só é assim porque nunca foste presidente de nada . nem do conselho cientifico nem pedagógico .
    “a compressão no tempo cria uma aparência de causalidade” ; isto é hegel? ou é jornal das 9 ?

    1. na verrdade
      neste texto Maçães quase que se confunde com Moedas ; o autor (Louçã) arbitra a troca

  14. Ouve lá
    chamar homem ao Maçães é como chamar Napoleão à História
    o sujeito não é uma “pessoa” ; o sujeito é uma aporia ; pescas

  15. Tavares, aliás, só usa o pretexto para apresentar o texto da sua angústia e é ela que me comove:
    brilhante,
    “devias” ser Presidente (!)

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