Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

9 de Novembro de 2014, 08:25

Por

Sobre (ou sob?) telemóveis

bd_telemovel_educacao[1]Escolhi para tema domingueiro três abordagens do trivial quotidiano e relacionadas com essa “algema” de que nos tornámos hiperdependentes: o telemóvel.

A primeira, porque deteriorou definitivamente o que já era uma tendência de muita gente: a falta de pontualidade. Antes desta fabulosa invenção, chegar a horas para um encontro, uma reunião ou outro compromisso era quase obrigatório, até por impossibilidade de se poder avisar alguém de um real ou inventado motivo de atraso. Agora o telemóvel tem no seu “software” todas e quaisquer razões ou invenções para justificar não chegar a horas. Nem é preciso falar, basta uma mensagem escrita. Onde a mentira não exige contraprova e dispensa a reacção do interlocutor.

O segundo aspecto é, em parte, o contraponto do primeiro. É que deixou de haver horas certas e decentes para se telefonar. Muita gente nem sequer se dá ao trabalho de olhar para o relógio (do pulso ou do … telemóvel) e, vai daí, chama outra pessoa a desoras, à hora das refeições, à hora do descanso, ao domingo, quando o Benfica está a jogar, como se uma tivesse que se adaptar ao tempo da outra. Uma forma abusiva e intrusiva da vida das pessoas. Ou de falta de respeito, às vezes por uma insignificância. Onde o urgente deixou de o ser e o sem urgência canibalizou a premência.

O terceiro ponto tem a ver com o expediente de “números privados” ou “confidenciais” com que, por vezes, somos confrontados. Claro que qualquer pessoa ou entidade estão no direito de não querer explicitar o seu número de telefone. Mas terão que perceber que, em contrapartida, podem ficar sem resposta. De facto, trata-se de uma relação desigual: uma das partes sabe com quem quer falar mas não se dá previamente a conhecer. É uma espécie de chamada tipo “burka”: sei para quem ligo, mas não digo quem sou. Um jogo em que uma das partes se esconde. É quase como alguém bater à nossa porta encapuzado…

Comentários

  1. Um dia, ao sair de casa, apercebi-me ao fechar a porta da rua de que tinha tinha deixado o telemóvel em cima da mesa. O esquecimento foi natural, e apesar de ter tempo mais que suficiente para voltar atrás, segui caminho. Se alguém me perguntasse, diria a plausibilíssima meia verdade: ah, esqueci-me…

    Antes criticava o meu pai por nunca ter o telemóvel à mão. Depois desse dia passei a dar-lhe os parabéns.

    O telemóvel é um exemplo perfeito de como a indústria cria necessidades virtuais que, uma vez disseminadas, se tornam uma parte central das vidas das pessoas. Ainda que, muitas das vezes, se trate de uma necessidade nossa que o é por estar ancorada à necessidade dos outros. De nos ligarem a desoras, ou a vender tarifários que não pedimos.

  2. Isso dos números privados tem piada, porque no tempo dos telefones não existia isso.
    Agora já ninguém pergunta “quem é?”, só nos filmes, onde as inovações tecnológicas ainda demoram a chegar.

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