Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

6 de Novembro de 2014, 10:05

Por

Podemos sobreviver à depressão com o euro?

Europe-vs-Great-DepressionAo ler as considerações da Comissão e do BCE sobre a continuidade do “ajustamento” em Portugal, ocorre-me que, por detrás da arrogância imperial destes dirigentes europeus, está uma visão imensamente condescendente sobre o seu próprio contributo para a solução da crise. Ora, os factos são cruéis para esta avaliação. Passaram sete anos sobre o início da crise financeira nos Estados Unidos, logo contaminando a Europa. Sete anos depois, a zona euro ainda não voltou aos níveis económicos de 2007. Agora, os analistas antecipam o risco de uma nova recessão, conjugada com o maior perigo de todos, a deflacção. Se essa combinação venenosa se impuser, estaremos na segunda grande depressão.

Por isso, vale a pena compararmos as dificuldades actuais com os problemas e as soluções da outra grande depressão, a dos anos trinta do século XX. O gráfico apresentado ao lado conta a história de uma das resposta mais importantes por parte de alguns países, que foi a saída do padrão-ouro, ou seja, do câmbio fixo que impunha a valorização excessiva das moedas das economias em recessão e que as proibia de utilizar o instrumento da desvalorização cambial para aumentarem a sua produção e criarem emprego.

Estas histórias da resposta à prisão cambial imposta então pelo padrão-ouro, essa “relíquia bárbara”, como lhe chamava Keynes, seguiram caminhos diversos, porque os governos adoptaram estratégias diferentes com resultados variados. Esses caminhos foram contadas recentemente por Matt O’Brien, no Washington Post, baseando-se nos trabalhos de Nicholas Crafts, Paul Krugman ou Barry Eichengren.

A zona da libra esterlina (linha cinzenta), incluindo Portugal, libertou-se do padrão ouro em 1931. Começou assim a sua recuperação no quarto ano da crise. Em contrapartida, França, Itália, Bélgica, Holanda e Suíça (a linha amarela) mantiveram-se por mais tempo na zona-ouro: só se libertam em 1935 e 1936, e só no oitavo ano depois da crise recuperam ao nível do PIB do período anterior ao colapso.

Comparativamente, o gráfico mostra-nos ainda o desempenho da zona euro: no final do sétimo ano, ainda está abaixo do ponto de partida e prossegue uma trajectória recessiva. Ao contrário do que se passou com todas soluções para a primeira grande depressão, hoje o estrutura férrea do euro e o seu Tratado Orçamental proíbem a desvalorização que as economias em crise exigiam para começar a recuperação.

Foi precisamente por isto que, no seu livro-testamento, Medeiros Ferreira escreveu que “É certo que a zona euro foi envenenada pelo raquitismo das funções do Banco Central Europeu e pelas normas do Pacto de Estabilidade (…), negociado sem razoabilidade e (que) resultou da demissão política e técnica de uma boa parte dos políticos europeus rendidos aos monetaristas de Frankfurt. Hoje sabe-se o resultado dessa alienação” (Medeiros Ferreira, Não há Mapa Cor-de-Rosa, 2013 Edições 70, pp.121-2). A sua conclusão confirma o gráfico e a análise atrás apresentada: a zona euro, segundo Medeiros Ferreira, representa o regresso ao padrão-ouro e é um “espartilho” que “está a concentrar a riqueza no coração do corpo europeu” (ibid.: 135, 136).

O euro foi concebido para espartilhar e para polarizar a Europa, para dar à Alemanha uma centralidade financeira e política que ainda não tinha, prejudicando os países periféricos? Sim. Mas foi também concebido para nos amarrar uma pedra ao pescoço e para nos deitar a todos ao mar em noite de tempestade.

Comentários

  1. Concordo com Dr. F. Louca, ja li o livro do Prof. Ferreira do Amaral e fiquei convencido que estamos como pais, ‘estrangulados’ pelos paises do centro e norte da Europa, principalmente apos o tratado de Lisboa. A questao nao e so economica ou relacionada com tratados. E so o resultado das diferencas de historia, clima, religiao, cultura que nos fazem muito diferentes e fazem com que os paises do norte, nos considerem inferiores, incompetentes, atrasados, irresponsaveis etc…Esses preconceitos nao vao desaparecer, e como se nos mantivermos no euro, nao vamos ter qualquer benefício, ate porque neste momento nao temos qualquer poder de decisao, ja nem sequer de veto. Existem aqueles que dizem que tivemos muitos beneficios desde que entramos no euro pois eu nao acho, trocamos bens nao transassionaveis ( estradas, e outras infrastruturas) pelo nosso sector primario e pela nossa independencia monetaria.

    1. Se tiver oportunidade de ler o que publiquei agora com o João Ferreira do Amaral, “A Solução Novo Escudo”, verificará que apresentamos propostas concretas para resolver os problemas difíceis da saída do euro.

  2. Permitam-me também algumas perguntas acerca deste tema que sempre me deixou perplexo:
    1) Quais são as consequências directas (económicas) da saída do euro a curto prazo?
    2) Tudo aquilo que compramos actualmente à “Europa” – aos alemães, por ex – e mesmo aos asiáticos (e etc) será suportável com o escudo? (carros, elevadores, escadas rolantes, autocarros, electrodomésticos, etc, etc)
    3) A eventual saida de PT e outros países do sul poderá provocar o colapso do euro?
    4) É possível prever as implicações políticas de uma debandada?
    5) Uma espécie de “ameaça” concertada poderia obrigar o coração europeu a repensar a questão dos eurobonds?
    6) Qual a melhor solução? Sair ou uma Europa mais justa para com os Estados mais “fracos”?
    Obrigado

  3. Dupla-moeda – A terceira via?
    Geralmente o debate em torno do Euro é dualista e maniqueísta. Por um lado, aqueles que procuram “diabolizar” o Euro, vendo na moeda única, mais do que uma perda de soberania, o próprio “falhanço” do projecto europeu – e, assim sendo, ao espartilho do cesarismo das instituições europeias, do qual o Euro é a face da “besta” do federalismo (espírito: União Europeira), deveríamos voltar às moedas nacionais, apostando antes na reconstrução de uma confederação europeia de nações livres e soberanas (espírito: Comunidade Europeia). Por outro lado, temos os “europeístas” que na defesa acérrima do Euro, mais as virtudes das instituições europeias, “diabolizam” o regresso às moedas nacionais, instigando pelo “medo”, o “caos” que seria a saída da moeda única e o regresso à barbárie de um pequeno, pobre e periférico país divergente da civilidade europeia!
    Mas… não será possível enquadrar aqui uma terceira via? Ou seja, continuar a permanecer na zona Euro e, simultaneamente, lançar uma moeda própria, para uso interno, complementar ao euro – pela dupla circulação de moedas: Euro e novo Escudo (1 euro = 1 novo escudo – desempenhando a nova moeda as funções de “moeda social”, para emissão limitada, para uso interno, com vista ao aumento da circulação monetária e concomitante desvalorização controlada da “dupla-moeda”, mais o estímulo do consumo interno e da produção nacional). Sugiro que veja – ainda que a uma micro-escala – o sucesso do lançamento das “moedas sociais” no Brasil, em particular o Banco Palmas, Fortaleza – Ceará´… pois, além da moeda “federal” oficial – o Real – o Brasil está a desenvolver outras moedas… e esse é o futuro: unidade na diversidade, diversidade na unidade!

    1. Não creio que seja possível. Moedas locais são mecanismos de troca e não tem câmbio, senão o amarrado à moeda oficial. A haver uma moeda local, era não podia ser usada para pagar dívidas e duvido que os trabalhadores ou reformados simpatizassem com a ideia de receber salários e pensões nessa moeda. Mas, essencialmente, as autoridades europeias nunca o aceitariam. São de facto maniqueístas…

    2. Dupla-moeda: padrão Ouro, padrão Prata.
      Na antiguidade existiam na verdade dois padrões de moeda: a prata e o ouro. Ambos circulavam e eram mutuamente conversíveis. Porém, sendo o ouro mais raro e instintivamente mais valorizado, e a prata mais acessível à população, o ouro era preferido como reserva de valor e nas grandes transacções, enquanto a prata a moeda de uso corrente (ou seja, se 1 moeda de ouro valer 5 moedas de prata, e dado bem custar 2 moedas de ouro, eu preferirei guardar as moedas de ouro – “boa” moeda – se puder pagar com 10 moedas de prata – i e na moeda “menos boa”)
      Ao ser introduzido a dupla-moeda, o euro seria o nosso “ouro” (a “boa” moeda utilizada preferencialmente nas poupanças e no comércio externo), enquanto o novo escudo seria a nossa “prata” (para uso corrente, estritamente nacional). E o Estado nacional, por via do Banco de Portugal, seria o “minerador” da quantidade de prata em circulação. Ao Banco caberia trocar prata por ouro e ouro por prata (ou seja, quem tiver escudos na mão deve poder livremente trocá-los por euros): a virtude do sistema está na expansão do mercado interno (mais produção nacional e mais consumo interno, por via do estimulo causado pela introdução do novo padrão “prata” – mais prata significa mais moeda, mais transacções, mais comércio, maior emprego, mais confiança… e a economia cresce – abençoado seja a “boa” prata, i e o novo “escudo”!); o defeito, está no controlo da emissão da “prata” (mais prata é um bom estímulo para a economia, mas muita prata poderá ser “tóxico” – e, a par da inflação, um outro problema maior poderá suceder – o Banco deixar de garantir a troca de prata por ouro, obrigando, primeiro, à aplicação de taxas de conversão (câmbio induzido), e, depois, a própria falência do sistema por falta de confiança na “má” moeda, que é o “escudo”). Dai se deve concluir, complementando aqui a Lei de Greshman, que a mineração das “pratas” nacionais deva ser concordante como a mineração do “ouro” da União – mais é aí que está a chave do futuro da zona euro: ser suficientemente flexível para permitir que cada Estado possa minerar a sua “prata” (permitindo desvalorizações internas selectivas que melhor se ajustem às diferentes realidade económicas nacionais, sobretudo dos países pobres e periféricos) enquanto que a mineração do “ouro” continua a ser propriedade das instâncias europeias…
      Se assim não suceder, temo que a Europa venha a partir-se em duas: a Europa do “euro” dos países aliados com o “sacro-império” franco-germânico, e os outros, sem “euro” (ou empurrados para fora da moeda única) e alinhados com o eixo atlântico – ou, dito de outro modo, o recuo aos anos 50, por um lado a Comunidade Europeia do aço, e do outro, a EFTA (reagrupando a Noruega, o Reino Unido… e Portugal!)

  4. Não existe qualquer problema no Euro. O “problema” para os políticos portugueses é que eles são incompetentes e gastam mais do que arrecadam com impostos, criando défice. Se tivéssemos uma moeda própria, os políticos incompetentes simplesmente imprimiam mais dinheiro e geravam inflação. Euro x Escudo agora estaria com a cotação de 1 euro = 1 camião de escudos.

    O que precisamos é de políticos disciplinados, HONESTOS, competentes e capazes, coisas que não acontecem desde Salazar (que foi o único que gastava menos do que arrecadava). É preciso que Portugal páre de viver uma vida de rico e viva dentro das possibilidades. É preciso acabar com os regabofes, mordomias, carros, motoristas, ajudas aos partidos, subvenções, avenças e outras orgias financeiras com as quais os políticos se acostumaram.

    1. Com franqueza, não creio que tenha qualquer sentido escrever que Salazar foi “disciplinado, honesto, competente e capaz”. No fim da mais longa ditadura da Europa, Portugal era uma miséria.

  5. E redutor atribuir à disciplina da moeda unica e à politica do BCE a causa principal do crescimento economico anémico na zona euro, e é de razoabilidade questionavel o paralelo com os tempos do padrao-ouro. A verdade é que mesmo antes do começo da crise economica em 2008, ie no ponto alto do ciclo economico, os paises europeus com problemas graves de competitividade e de desiquilibrio das finanças publicas sofriam já de fraco crescimento economico e de taxas de desemprego demasiado elevadas (8% na Franca, Belgica e mais na Italia, por exemplo). Por outro lado, os paises com economias competitivas estao actualmente a crescer a bom ritmo apesar de politicas duras de austeridade para reduçao dos déficits orçamentais como a Irlanda ou, fora da zona euro, o RU. A zona euro reune economias demaisado díspares para ser uma uniao monetaria ideal, mas se nao houvesse o euro os problemas solvencia externa e sobre-endividamento dos estados estariam aí na mesma para ser resolvidos, com FMI, desvalorizaçoes competitivas das moedas, recessao e desemprego, em escala identica, se nao pior, à que conhecemos nos ultimos anos.

    1. Bem, mas o euro tem quinze anos. No caso português, o escudo entra no euro com uma valorização excessiva de 16%, segundo contas do BdP. E, de facto, o euro reune economias demasiado diferenciadas, ou seja, têm necessidade de diferentes instrumentos de política.

  6. Sim, podemos sobreviver à depressão com o euro, a esta ou a qualquer outra que encontre as suas causas em razões de ordem económica. O que não podemos é sobreviver a “crises” que são resultado de actos criminosos. Não há quem resista. Não podemos sobreviver à “crise” com um Luxemburgo que, em conluio com 340 multinacionais, defraudaram os tesouros dos Estados europeus durante, pelo menos, 10 anos. E o Luxemburgo não será certamente caso isolado na Europa. Convém recordar que o Luxemburgo teve como PM, durante esse período, o actual presidente da comissão europeia que se fartou de atirar bitaites paternalistas aos povos do sul. Ocorre-me o Jorge Palma: “enquanto uns fazem figura, outros sucumbem à batota”. Se houvesse líderes políticos decentes, os actuais países que têm sofrido os enxovalhos vindos do “norte” e recebido sermões de toda a sorte forçariam os comissários por si designados a resignar e a abandonar o actual presidente da comissão. Fomos gamados à grande. A máfia apoderou-se dos Estados. A isto ninguém sobrevive, com euro, com dólar ou com iene. Não há quem.

    1. Creio que está equivocado em relaçao ao ex-primeiro ministro do Luxemburgo que foi dos que sempre mostrou compreensao pelos problemas dos paises do sul e, no auge da crise do euro, assinou um artigo conjunto com o ex-ministro italiano das finanças Giulio Tremonti a defender as Eurobonds (emissao de divida europeia mutualizada).

  7. Acho que este ponto é muito pertinente e acho que sair do Euro iria ter muitas vantagens a médio prazo. Agora se me permite, algumas perguntas:
    1)Acha que deveriamos sair sozinhos ou numa união monetária com economias mais similares á nossa?
    2)Acha que a nossa divida pública continuaria a ser em Euros (Marcos)?
    3) Se sim a 2) acha que deverimos fazer um default?
    4)Em caso de uma desvalorizacão muito rápida do escudo acha que deveriamos pedir aos nossos parceiros assistência para pagar bens essenciais (medicamentos, petróleo, energia, bens alimentares)?
    5) Deveriamos ter politicas de controlo de capitais como na Islândia?
    Sinceramente acho que esta proposta tem que ser discutida abertamente em Portugal. Secalhar 1-2 anos de miséria seriam melhores que décadas sem crescimento e sem melhorias significativas na qualidade de vida.
    Se voltarmos a ter uma depressão nas grandes economias ocidentais esta poder ser uma das nossas únicas cartadas possiveis. Por agora acho que devemos esperar para ver se as “assets purchases” do BCE conseguem finalmente desvalorizar o Euro, aumentar a inflacão e, quem sabe, aumentar a liquidez de capital nas economias periféricas.

    1. João C.: a resposta a todas essas questões está no livro que publiquei com o João Ferreira do Amaral (“A Solução Novo Escudo”). A haver saída do euro, nas condições mais prováveis, será preciso redenominar a dívida em escudos (na parte que está abrangida pela lei portuguesa). A negociação com as autoridades europeias é necessária e, se bem sucedida, permitiria planos de contingência com mais folga. Mas não é seguro que seja bem sucedida. Tem sempre de haver controlo de capitais.

    2. Obrigado pela referência. O livro tem uma introducão muito interessante…Vai para o cimo da lista.

  8. Embora concorde que o espaco europeu nao apresenta condicoes ideais para uma zona de moeda unica, nao posso deixar de comentar que ao inferir que a demora na recuperacao economica para a Franca, Italia, Belgica, Holanda e Suica apos abandonarem o padrao-ouro de uma fiorma mais tardia que outros paises parece ignorar o que aconteceu no mundo +/- 4 anos depois de 1936.

    1. Sim, o contexto dos anos 30 era diferente e difícil. Mas o que se passou em 1939 era ignorado em 1935 e 1936 e não podia determinar as escolhas de então.

  9. O rigor e qualidade da intervenção pública do dr. Louça como economista por certo não desconhece a critica e desconstrução tecida na Net pelo dr. Garcia Pereira no passado dia 31 de Outubro via http://www.lutapopular.pt. Garcia Pereira fala de uma solução ” cozinhada ” nas ” noites das facas longas ” em Lisboa, entre 31 de Julho e 3 de Agosto, que levou à intervenção do BdP, CMVM, PR, Governo e indirectamente, da Comissão Europeia, na pessoa de Durão Barroso. Trata-se de uma revelação aterradora, a vários titulos, e que irá implicar, mais cedo ou mais tarde, um novo tombo no valor do PIB luso, pela soma de imparidades e déficites de gestão colossais. Garcia Pereira assegura mesmo que o fim do BES irá causar ” milhões de problemas juridicos “, a que se juntarão perdas astronómicas no tecido económico-financeiro nacional. O que acha?

    1. Também não percebi. Não é a primeira vez que vejo atirado para este espaço umas letras sem qualquer nexo, desprovidas de qualquer sentido. Mal chegam a ser palavras quando juntas. Seŕá de lamentar se transformarem este espaço numa espécie de caixas de comentário onde tudo se despeja, porque os autores dão-se a trabalho de acompanhar o que aqui vai sendo escrito e respondem quando solicitados.

    2. o que ligaria portugal à zona britânica era sempre uma certa excentricidade em relação ao continente ; essa excentricidade é o mar
      hoje “zona britânica” quereria dizer “moeda própria” ; mas seria sempre de novo um “lançar ao mar”

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