Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

1 de Novembro de 2014, 13:31

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A forma como se tomam decisões importantes em Portugal …

 

Quando as coisas se tornam demasiado sérias é necessário mentir, Jean-Claude Juncker, actual presidente da Comissão Europeia, Abril de 2011

 

A Ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque e o Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, foram “apanhados” em contradições sobre o caso BES.

Entre outras coisas, em declarações no dia 8 de Outubro de 2014, no âmbito de uma audição parlamentar, afirmaram que só a 02.08.2014 informaram a Direcção Geral da Concorrência da Comissão Europeia. O Governador do Banco de Portugal informou ainda que, só a 01.08.2014 à tarde, foi decidido intervir no BES, utilizando um processo de resolução bancária.

Esta semana, soube-se que o Banco de Portugal avisou a Direcção Geral da Concorrência (DG-COMP) da Comissão Europeia dos prejuízos do BES e – infere-se da potencial intervenção pública – no dia 30.07.2014. E, um porta-voz do Banco de Portugal, afirma que a DG-COMP foi notificada no âmbito de um plano de contingência do Banco de Portugal.

O Comunicado do Ministério das Finanças de 3 de Agosto de 2014 indicava que a resolução do BES era uma decisão do Banco de Portugal. Mas hoje sabe-se que a resolução do BES foi a alternativa que restava face a uma decisão política da Ministra das Finanças (e do Governo) de recusar recapitalizar o BES com dinheiros públicos, alegadamente contra o conselho do Governador do Banco de Portugal, de Vítor Bento (presidente do BES), dos presidentes de outros bancos nacionais, do presidente da Associação Portuguesa de Bancos e das autoridades europeias.

Segundo Filipe Alves, do Económico, a opção da Ministra obrigou a uma maior injecção de capital (4,9 mil milhões de euros vs 3 mil milhões de euros da recapitalização)[1] e resultou em enormes custos para o Novo Banco “com um estado de confusão e paralisia totais”, como aliás receava num post anterior.

Coisa de somenos, argumentarão alguns. Não é bem assim. Quem teve acesso a essa informação privilegiada (a intenção do Governo e do Banco de Portugal em intervir no BES) pôde “fazer pela vida” nessa semana, enquanto que a maior parte dos interessados, sem conhecimento dessa intenção, foi expropriada da sua propriedade.

Mas, é ainda mais grave do que isso. Porque, quem não tem “plano B”, quem não se prepara para os assuntos, quem decide sozinho sem estar devidamente suportado, improvisa, age de forma desesperada, com enormes custos para o país.

Ora, numa altura de pânico e de alto risco, em que decisões de elevada complexidade e valor económico estão a ser tomadas, há que “manter a cabeça fria”; ter um módico plano B; agir de forma prudente e racional e, sobretudo, dizendo a verdade aos portugueses!

 

 

 

[1] Note-se que o Banco de Portugal poderia, mesmo assim, ter optado por uma resolução bancária sem custos para o contribuinte obrigando os grandes credores do BES a assumir os custos desse processo.

Comentários

  1. Chama-se a isto um estado de direito?
    Qualquer magistrado ou juiz desta “república de bananas” que são na verdade a maioria dos portugueses devia corar de vergonha por todos os atropelos do que juraram servir e defender.
    Nenhuma sociedade democrática digna desse nome, que não é o caso de Portugal, resiste a tamanha negligência por parte de quem cabe assegurar um dos pilares fundamentais de um estado de direito, a magistratura.
    Somos um povo inculto, sem qualquer conceito de cidadania e, só por isso é possível, dia a dia, assistirmos pacificamente a todos os enxovalhos a que nos vão sujeitando… Resta saber se, até sempre se, até quando!

  2. Diz Junker e dizem Coelho, Sócrates, Cavaco, Costa e os políticos de uma maneira geral.
    Júdice ainda goza connosco, dizendo que nós é que temos a culpa, porque gostamos de ser enganados.
    Eu digo que se a avó de tantos políticos. comentadores e homens de sucesso não tivesse nascido não se teria perdido nada, bem pelo contrário.
    E também digo que assim ou assado, cozido ou frito, há uma lei para os que têm “informação privilegiada” – ou melhor, eles estão é acima da lei – e outra para a arraia miúda.
    E que, de uma forma ou de outra, lá vamos ter que ser nós, mais uma vez, a pagar esta fraude.
    Como é possível chamar Estado de Direito, sem corar de vergonha, a um arremedo de país em que dois roubos tão gigantescos como os do BPN e do BES/GES não resultam em qualquer condenação, enquanto há pessoas presas por furtos de 60 ou 70 euros?

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