Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

27 de Outubro de 2014, 08:45

Por

O cão que não ladrou

porto manif 15 setMichael Ignatieff, ex-deputado canadiano e actualmente professor em Harvard, convidado para uma conferência no CCB, resume assim como alguns vêem no estrangeiro a nossa tragédia recente: “apesar da crise, Portugal foi o cão que não ladrou na Europa”. E não mordeu, entenda-se.

A imagem é dura. Lembra-nos que o governo foi o empenhado facilitador do empobrecimento, que os protestos contra a troika foram grandes mas tão raros, que as alternativas foram escassas e talvez pouco convincentes. O “cão que não ladrou” é por isso uma metáfora escolhida para ser humilhante. Mas tem um grão de verdade. O país não se virou contra o governo colaboracionista, a esquerda dividiu-se ainda mais e manteve-se em grande medida desinteressada ou temerosa das soluções, os sindicatos foram perdendo força ao mesmo passo em que a precarização, o desemprego e a emigração devastavam num ápice a vida de tantas pessoas. A derrota de Portugal perante a troika é o facto dominante da nossa vida colectiva no que vai do século XXI, com a aceitação das regras europeias que são a trela curta que nos é imposta.

Diz Ignatieff que o cão não ladrou? Dizia Nietzsche, muito antes dele, que a dívida transforma a vítima num “animal doméstico”. Não se tinha lembrado que o cão podia ladrar e até podia morder, mas nem isso parece ter acontecido neste cantinho à beira-mar plantado. Uma estratégia de libertação da trela é por isso o mínimo que nos é exigido.

Em resposta antecipada, Boaventura de Sousa Santos, no PÚBLICO (17 de maio), propunha a estratégia da “jangada de pedra”, um movimento de distanciação da União Europeia, como a única forma de negociar e “romper com a trela” do protectorado:

Haverá então alternativas democráticas, quer a nível nacional, quer a nível europeu, a este regime autoritário? Claro que sim. Para isso, é necessário que a jangada de pedra, tão premonitória, se afaste o suficiente para romper com a trela ou para forçar que ela seja refeita de modo a dar mais margem de liberdade ao movimento da jangada.”

Precisamos dessa liberdade e, para isso, de saber por onde começar a cortar as amarras e as trelas.

Comentários

  1. bem
    além deste artigo ter um lapso clamoroso
    que evidentemente o sujeito cadaniano nao teve nada numa conf. da gulbenkian mas do ccb

    essa tambem é
    daquelas predicaçoes de que o cão até podia ladrar
    mas do outro lado do atlantico haviam sempre de lhe estar a segurar a trela com coleira

    ladrar é relativo
    uma figura d e estilo

  2. o francisco tambem usa imagens mto fortes
    tao depressa diz que quer renegociar com diz que nos colocaram uma trela
    pois quem ta sob uma trela não consegue ou nao tem qualquer pretensão a negociar

    se calhar
    é este a trela mais benéfica
    a que orienta governos e oposiçção

    1. Não percebo a contradição. É preciso acabar com a chantagem da dívida, que é uma trela, por via da reestruturação.

  3. O francisco louçã
    também é do género o Velho do Restelo
    onde é que afinal acava a legitimidade eleitoral e começa a fraude

    tomar o comboio para Paris, a capital da europa
    é como lançar uma nau para Cochim – não se conheçem todos os riscos

    Às vezes é preciso falar com os ventos e sonhar com marés
    daí a poesia

  4. Não queira suspender o poder do comércio ante a política
    porque, há gente disponível ,
    e também há recursos disponíveis

    o proverbial “se equivale”
    há noite todo os gatos são pardos ºna europa
    se não tens cão, caça com gato ªos teus compatriotas

    Susana Pão
    Vila Real

    1. Não compreendo bem onde quer chegar, mas sim, há gente disponível e recursos disponíveis. Mas precisamos de os usar para sair da trela.

    2. O que queria dizer
      é que a disponibilidade não é toda igual
      quem se estabelece a priori na política no disponível a , não enraíza capacidade de resposta decididamente a

  5. Um cão é um lixo de lobo, é um ser que é um lixo de si mesmo. É fisicamente um lobo mas não se comporta como um lobo, actua contra os da sua espécie (aqueles que tem a liberdade de serem eles próprios) para defender quem abusa dele. É deste tipo de criaturas que é formada a plebe na europa, hoje. A europa é um lixo de si própria, uma colónia dos USA, um cão de uma analfabeta ex-colónia. É a “europa bárbara”, o grau mais baixo da história desta região.

    Portugal nem capacidade demonstrou para banir um boçal que chegou ao governo e disse que era altura dos portugueses abandonarem o país. Ficou para a história o ridículo do governante que chega ao navio e manda os tripulantes saltar borda fora. Para que servirá o navio na cabeça deste gado que vota em analfabetos? Portugal nem capacidade demonstrou para colocar o governante e o seu governo a sair do seu “domínio de conforto”.

    Com que gente é que faz a alternativa? Com que conhecimentos? Para que objectivos? Onde estão os sinais de gente com capacidade de alternativa? Nos desertores que emigram? Onde é que vê gente com postura para ficar e colocar os governantes a emigrar?

    Os abusos, das contas de milhares de milhões para a plebe pagar, aparecem cada vez mais e com as desculpas cada vez mais absurdas. E que faz a plebe? Emigra para ajudar a pagar, actua contra os seus para manter quem abusa deles. É o tal lixo de si mesmo.
    Portugal é um cão que puxa um trenó repleto de parasitas a apelar a todos para se juntarem a eles no trenó, porque o cão puxa sem se revoltar, e vai puxar até morrer.

    E esta juventude que nunca foi à tropa? Algum dia essa maralha, formada em analfabetismo, teve alguma experiência de organização lata, ao nível do país? O fim da serviço militar obrigatório acabou com a única experiência em que os mancebos entravam em contacto, e participavam, com a organização da república. A juventude amancebada tem alguma prática para fazer frente a alguma coisa? Fazem o quê com uma juventude tótó, que fala e se comporta como mulheres submissas? Fazem o quê com uma juventude efeminada, sem prática de organização, e com postura idiota? Alternativa? Qual alternativa?

  6. Concordo Francisco. Por isso penso que tem de haver um novo paradigma nas negociações entre Portugal e as Instâncias da UE. Espero que, a ganhar, o A. Costa faça isso. É o que eu espero dele. Para tal é necessário ser duro nas negociações e ter o respaldo dos cidadãos. Reestruturar a dívida e/ou sair do euro é uma alternativa cada vez mais evidente. mas isto não vai lá só com direitos, direitos, direitos… A acontecer tal processo tinha de implicar deveres. E quais? Bom, desde logo, estabelecer uma ampla reforma das Instituições em Portugal. Quando digo Instituições, penso primeiro nas públicas, mas também não esqueço as privadas, designadamente as empresas. O Francisco e outros investigadores pugdam, e bem, pelo direito/necessidade de renegociar a dívida e/ou sair do euro, mas convém falar também da putativa reforma das instituições do país.

    1. Concordo que é preciso começar pelo essencial: a dívida e a prisão do euro. E duvido que isso se faça só com negociações, ou que nas negociações as autoridade europeias procedam de boa fé. Quanto a outras mudanças, acho que no plano fiscal ou da organização do Estado e dos seus serviços dependem inteiramente do que se consiga na margem de manobra financeira.

    2. Numa primeira fase, as negociações deverão ser levadas ao limite. Mas esse processo só terá resultados, atente-se, se no fim da linha estivermos dispostos a assumir a detonar a “bomba atómica” pelo que se deve convocar um referendo em tempo oportuno.

  7. Bom dia:
    Nos últimos 15 anos, enquanto Portugal se endividava e escondia as contas debaixo dos tapetes, ninguém ladrou.
    Quando há três anos veio para cá a troika com dinheiro para pagar salários toda a gente sabia que não seria de borla. Os que foram contra a vinda da troika, nunca disseram como se iriam pagar salários aos funcionários públicos. Na prática ninguém ladoru, apenas ronraram.
    Calados na hora de receber, a rosnar na hora de pagar.
    Após três anos de troika pouca coisa mudou, excepto aqueles que ficaram sem emprego e sem salário. Esses são os que menos ladram e não têm quem ladre por eles. E esses deviam ladrar muito, não para lá para fora, deviam era ladrar cá para dentro.

    1. A troika não pagou um cêntimo de salários, nem foi para isso que veio. Pagou, e muito, à banca internacional, que se livrou da dívida portuguesa.

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