Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

27 de Outubro de 2014, 13:30

Por

Lágrimas de crocodilo

 

Concluído com assinalável sucesso o ano de 2013, antevê-se que 2014 apresente importantes desafios à Rioforte”, Manuel Espírito Santo Silva, Presidente da Rioforte, Relatório Anual de 2013

Rioforte Investments SA fecha 2013 com subida acentuada do lucro e fortalecimento da sua situação financeira. Desempenho e resultados consolidados revelam um aumento muito importante da solidez do balanço da holding do Grupo Espírito Santo”, Comunicado da Rioforte, 14 de Abril de 2014

 

As declarações supra, da Rioforte e do seu presidente mostram que o antigo Ministro da Informação do Iraque, Muhammad Saeed al-Sahhaf (“Bagdad Bob”) – famoso por argumentar numa entrevista ao vivo no Hotel Palestina, entre outras coisas, que os “infiéis americanos não tinham entrado em Bagdad”, quando os tanques americanos estavam a umas centenas de metros atrás dele –, não está sozinho. Quanto mais desesperada é a situação mais se distorce a realidade… para não utilizar outras palavras.

A Rioforte, lembremo-nos, pediu a protecção de credores pouco tempo depois (22 de Julho de 2014).

Pois bem, a Portugal Telecom SGPS solicitou ao Banco de Portugal (BdP) informação sobre comunicações que este manteve, enquanto supervisor, com o BES. O BdP recusou argumentando que essas comunicações entre bancos e o supervisor são de natureza confidencial.

Aparentemente, a estratégia da Portugal Telecom SGPS é procurar argumentar que as perdas que sofreu no investimento de 900 milhões de euros em dívida da Rioforte são o resultado de deficiências na supervisão bancária.

Olhemos bem para os factos. O BES era um banco supervisionada pelo BdP. A Rioforte não. O BdP preocupou-se com o assunto porque o BES vendeu dívida da Rioforte (e de outras empresas do Grupo Espírito Santos) aos clientes de retalho do BES e porque o BdP pretendia minimizar a exposição do BES ao Grupo Espírito Santo.

A Portugal Telecom SGPS é um investidor institucional, não um cliente de retalho. E um investidor institucional tem os recursos necessários para analisar esse tipo de investimento. É muito sui generis que um investidor institucional aplique mais de 50% das suas disponibilidades líquidas (perto de 900 milhões de euros) em dívida comercial de uma empresa com as características da Rioforte e que detenha próximo de 100% das suas disponibilidades junto de um único grupo financeiro.

De facto, o relatório do auditor da Rioforte – a Ernst & Young (p.102) – tem apenas duas páginas e não inspira confiança. Uma ênfase alerta para o facto de que a Rioforte tem muita dívida de curto prazo e que o sucesso do processo de reescalonamento dessa dívida é incerto. Na Portugal Telecom SGPS não leram o relatório de auditoria da Ernst & Young?

A Portugal Telecom SGPS não deveria pois procurar a culpa noutras paragens, mas sim dentro de casa. Parece que pretende desviar o foco das atenções. Os responsáveis dessa empresa deveriam preocupar-se em perceber e analisar se existiu a necessária fundamentação para as decisões de gestão da Portugal Telecom SGPS, que resultaram em perdas de mais de 4 mil milhões de euros com o seu investimento na Oi (diferença entre o capital investido e o valor de mercado actual da participação) e em perdas de 900 milhões de euros no investimento em dívida comercial da Rioforte. E era bom que a culpa não morresse solteira…

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