Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

24 de Outubro de 2014, 11:30

Por

Mais ou menos, extremamente e relativamente

Nada de demasiado. A medida em tudo
(inscrição numa parede do templo de Delfos)

Há três expressões que se tornaram omnipresentes no nosso quotidiano: mais ou menos, extremamente e relativamente.

Em cada telejornal há sempre uns tantos mais ou menos em resposta a perguntas sobre a economia, a política, o tempo, o trabalho. Nos inquéritos de opinião, a maioria é quase sempre do mais ou menos. Na escola pública, as avaliações têm um ponto intermédio (3 na escala de 1 a 5), lugar aritmético do mais ou menos. O Estado é o epicentro do mais ou menos, excepto nos impostos e na dívida onde é sempre mais do que menos. Quanto à meteorologia, o ameno clima pouco dado a intempéries é mais ou menos. No futebol, joga-se para o mais ou menos, que é o empate. O Banco de Portugal supervisiona mais ou menos. A produtividade é, por definição, mais ou menos. No Código Penal, aumenta o mais ou menos das penas suspensas. A palavra de honra passou a ser definitivamente mais ou menos. Floresce uma plêiade de políticos do mais ou menos, sempre apreciados no palco do politicamente correcto. Que, quando lhes interessa, ficam mais ou menos calados. Só para os números do desemprego é que não contam os que estão mais ou menos no desemprego, como os inactivos desencorajados ou os que estão em acções de formação forçada.

Extremamente é, paradoxalmente, o contraponto do mais ou menos. Quase sempre é a exageração do exagero que precede qualquer vocábulo para dar uma ordem de grandeza, mesmo que exígua. Reproduz-se por todo o lado e ultrapassou, em degenerescência do seu significado, o adjectivo urgente. Quando é mesmo extremamente, que advérbio deveremos usar?

Por fim, temos o relativamente. Um advérbio muito relativo para evitar a aproximação ao absolutamente. Quase sempre para fugir à exactidão, onde não há lugar a “números relativos”. Ou maiorias relativas. Em particular no plano ético, o relativamente é perigoso e dissolvente. Por exemplo, ouve-se amiúde dizer que “aquela pessoa é relativamente honesta” como se a honestidade fosse relativa. Ou, voltando ao mais ou menos, como se balanceasse numa média entre mais honestidade nuns dias e menos honestidade noutros.

Como alguém escreveu, “tudo quanto é exagerado é insignificante”.

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