Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

14 de Outubro de 2014, 09:02

Por

Kobani morrerá em silêncio?

Kobani já caiu? Já está a arder? Já se alinham os pelotões de fuzilamento? Pergunte-se aos oficiais turcos que, ao lado da fronteira, observam com confortáveis binóculos o avanço das tropas do “Estado Islâmico”, o Daesh, por dentro da cidade curda.

kobaniDefendida pelas milícias do Partido da União Democrática Curda e por alguns voluntários árabes, com armas ligeiras, Kobani, no norte da Síria, resiste há semanas ao avanço dos tanques e armas pesadas do EI. Entretanto, o exército turco fechou a fronteira para impedir a fuga de milhares de civis, que estão por isso encurralados na cidade. O último jornalista, o sueco Joakim Medim, já saiu há uma semana. Kobani pode ser dizimada num destes dias, porque lhe sobra coragem mas enfrenta canhões. Já caiu?

Os aviões de Obama bombardearam as posições do exército ocupante desde 23 de setembro, para efeitos da opinião ilustre do Capitólio: o EI estava então a 60 quilómetros da cidade, agora já ocupa alguns bairros, a acção da força aérea foi irrelevante. Com armas norte-americanas capturadas ao exército iraquiano, com dinheiro da Arábia Saudita e do Qatar, com oficiais do exército de Saddam Hussein e com gente da Al Qaeda, o EI tem sido imparável, porque é a força forte numa região de regimes fracos e onde a população só sente inimigos e só se lembra de guerra.

Perante a ameaça, o enviado especial da ONU para a Síria faz apelos desesperados, perguntando ao mundo se Srebrenica foi esquecida, porque um novo massacre pode estar à distância de dias ou horas. Kobani já caiu?

Entre discursos tristes, só resta uma certeza: se a cidade cair, o perigo agiganta-se e milhares ficarão condenados à escravidão. Só os curdos podem salvar a cidade. É deles, e só deles, que dependemos, os que respeitamos a liberdade. Mas, como explica David Graeber no The Guardian, os curdos estão sozinhos: não são de Assad e não têm armas russas, não são de Washington e não têm o seu apoio, não são de Bagdad nem de Ancara e têm as fronteiras fechadas. Só se têm a si próprios e a quem os apoia, no desespero que são estas guerras em que a dignidade humana é o alvo principal.

Comentários

  1. Talvez o governo da Turquia tenha um laço mais estreito com EI, pois todos sabem que o petróleo que é extraído dos poços ilegais dominados pelo EI na Síria, é comprado ou distribuído dentro da Turquia. Talvez tenha mais negociações entre Ancara e o EI. Por que não intervir em uma guerra tão próximo a sua fronteira? interesses de ambos os lados ou covardia mútua. Quanto aos ataques aéreos eu digo que também são irrelevantes, pois como no Vietnã, só bombardeios não dão jeitos. A coalizão deveria organizar um enfrentamento em terra para ter resultados mais eficazes.

  2. A Turquia está a jogar num complexo tabuleiro das relações internacionais, em que o PKK lhe estava a ganhar uma enorme vantagem, não apenas táctica mas estratégica, aparecendo como a única força político-militar capaz de, comm cobertura aérea, enfrentar o EI. E isso – quer dizer, a vitória dos curdos – a Turquia não poderia aceitar de ânimo leve, pois que daí à criação de um estado Curdo seria um salto de pardar. Assim, limitam-se a colher vantagens estratégicas, mostrando aos yankies que o enorme ex+ercito turco ainda é necessário e muito na região, ao mesmo tempo que enfraquece os curdos. Penso que é uma estratégia arriscada, pois que se os curdos sibreviverem ao anunciado massacre em Kobani – o que siceramente desejo de todo o coração, pois sou um incondicional admirador deste povo ancestral – arriscam-se a «ver o tiro sair-lhes pela culatra», pois que os curdos não só podem, finalmente, ver o seu Estado como ainda passarem a ser vistos como os goog guys do médio-oriente…

  3. Eu não culpo os turcos por esta tragédia iminente. Pelo menos não tanto como culpo os americanos. Em primeiro lugar, porque estes há 11 anos invadiram o Iraque com o falso argumento das armas de destruição maciça, dando origem a este caos instalado desde então naquela região. Depois, porque me parece absurdo que, tanto eles como os europeus, se limitem a fazer o mais fácil, largar bombas inúteis da segurança dos seus aviões, e estejam a pressionar a Turquia para fazer o trabalho sujo e difícil. A este propósito, chamo a atenção para o excelente artigo de Bernardo Pires de Lima no DN de hoje (http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=4177714&seccao=Bernardo Pires de Lima).

  4. Talvez fosse um grande erro, não tentar perceber o que leva tantos ocidentais a engrossar estas fileiras. O que gera tal ódio, raiva e violência. Por outro lado, a baixa do preço do petróleo é curiosa ….. Como a primavera Líbia, que agora tem uma Guerra civil,e entre viver numa ditadura ou numa zona de Guerra….. Estatisticamente a ditadura é mais saudavel. Mas o petróleo fica mais caro. Neste caso,do ei, não, daí o fingimento da intervenção. Esta Guerra tem petróleo muito barato

  5. A instabilidade na região traz lucros imensos para os EUA. Países que se tentam reconstruir ou financiar para a guerra vendem o petróleo a qualquer preço para ter o máximo lucro imediato, acabando com a cartelização da OPEP. Como resultado, o preço de petróleo tem vindo a descer e assim irá continuar. Os eternos defensores da paz e da justiça só actuam quando têm algo a ganhar.

  6. Após acompanhar este conflito sírio desde inicio chego à conclusão que a melhor solução para a Síria é Assad. Não é a solução perfeita pois é um ditador, contudo, dos mais moderados que o mundo viu. Tudo o resto que digam não passa de maquilhagem de joguetes geoestratégicos e geopoliticos. Certa propaganda (sim, propaganda!) contra Assad chega a ser vergonhosa. Sobre Kobani, discordo do escrito. Os ataques aéreos regulares começaram quase 24 horas após a entrada do EI na cidade (esse atraso foi a grande falha da coligação), todavia, desde então jamais podem ser catalogados de irrelevantes. Se os curdos de Kobani ainda estão de pé devem aos ditos ataques aéreos e neste momento estão inclusivamente a recuperar terreno.

    1. Creio que está errado: os ataques aéreos começaram dia 23 de setembro, o EI estava a 60 kms. E uma guerra nunca se ganha com ataques aéreos. Quanto a Assad, registo a sua opinião, mas o destino do regime sírio é um pouco marginal ao que agora se passa em Kobani.

    2. A área de kobani foi bombardeada pela primeira vez dia 27 de Setembro e os ataques até dia 6 de Outubro (já com o EI dentro da cidade) foram raros. Os protestos curdos em grande escala na Turquia e cidade europeias começaram exactamente no dia 6, inicialmente pedindo ataques aéreos e ajuda por parte da coligação que posteriormente (nos dias seguintes) resultaram em confrontos na Turquia devido tanto à inacção daquele país como por tentarem dificultar as operações aos curdos. Os ataques regulares àquela região começaram dia 7 de Outubro. Nos primeiros dias houve alguma descoordenação o que permitiu ao EI avançar no terreno, contudo, desde então os curdos estão a recuperar território.

    3. “Curdos recuperam importante colina em Kobani ao Estado Islâmico” -> http://observador.pt/2014/10/14/curdos-recuperam-importante-colina-em-kobani-ao-estado-islamico/

      Sigo desde inicio o twitter de diversos jornalistas internacionais que estão perto do local e que contam com fontes dentro da cidade. Posso-lhe adiantar também que o monte (não é a colina da noticia anterior) onde foi hasteada a primeira bandeira do EI no local foi tomada hoje e que de momento os curdos controlam 90% da cidade (deve sair em portugal uma noticia semelhante amanha ou depois), Os ataques aéreos foram uma ajuda fundamental para esta reviravolta (que poderá não ser definitiva), contudo, sou obrigado a concordar consigo, guerras não se ganham a partir do ar.

  7. Enquanto os curdos aproveitaram a guerra na Síria para ensaiar uma experiência de organização democrática e secular, favorável à igualdade de género, tolerante com as várias etnias e religiões, esta nova Turquia imperialista dos neo-otomanos de Erdogan aproveitou a oportunidade para ajudar o ISIS a crescer militarmente na zona. Jogaram um jogo triplo: fingiram negociar a paz com o PKK (aliado do Partido Democrático do Curdistão Sírio e das Unidades de Resistência Popular), usaram o ISIS para atacar os curdos na Síria e o governo de Assad, para entretanto começarem uma campanha de repressão da população curda secular na Turquia. Eis a política de Erdogan para os curdos: Polícias turcos a entoar slogans do ISIS enquanto atacavam os manifestantes curdos, prisão de membros das Unidades de Resistência Popular (YPG/YPJ) que regressavam de Kobane, declarações de que o PKK é pior de que o ISIS e agora ataques aéreos ao PKK na Turquia. O processo de paz na Turquia está morto e os curdos têm nas mulheres e homens que combatem por Kobane – uma cidade rodeada em três lados pelos fanáticos do ISIS e a norte pela Turquia – um exemplo daquele heroísmo que se presta à mitologização e que os vai alimentar muitos anos na trágica guerra civil que infelizmente se avizinha no país graças à política desastrosa de Erdogan.
    Os curdos eram os únicos que aparentemente podiam dar alguma sanidade ao conflito de enormes proporções que se estende desde o Iraque à Síria: o exército iraquiano é uma rede clientelar, as milícias xiitas não se importam de matar civis sunitas que depois vão pedir protecção ao ISIS, o regime de Assad já conhecemos e a oposição síria é em geral composta por islamitas de diferentes vertentes que ora combatem ora se aliam ao ISIS.
    Em geral os ataques aéreos têm tido péssimo resultado (são até um grande motivo de recrutamento de jihadistas) mas em Kobane os curdos dizem que têm ajudado ligeiramente. O que se impunha era riscar o PKK das organizações terroristas e apoiar logisticamente as Unidades de Resistência Popular por via aérea mas isso no actual emaranhado geopolítico “EUA & monarquias absolutas do golfo & Israel vs Irão vs Turquia vs Assad & Russia” é impossível. Uma boa ajuda pelo menos era os turcos democratas encontrarem uma solução aos dois neofascismos que dominam o país, o militar e o religioso.

    Vale a pena ver estes sites:

    Organizações de resistência curda
    http://ypgrojava.com/en/
    http://www.pkkonline.net/en/

    Notícias
    http://www.independent.co.uk/biography/patrick-cockburn
    https://twitter.com/jenanmoussa

    1. O que em todo o caso parece certo é que só a resistência curda pode salvar aquele povo.

  8. vamos todos ajudar aquela gente,,,,,,,,,,,,,,,,, nao ha petroleo,,,, nao interessa,,,, porra o que é que se passa,as pessoas sim todo o mundo,nao sabem o que se passa? ATROCIDADES+ ATROCIDADES TEMOS QUE POR FIM A ISSO MT RAPIDO

  9. Ironia Suprema..
    Os “nossos” amigos(Qatar; Arábia Saudita), amigos também dos nossos inimigos…
    Tudo porque os interesses ($), estão ao virar da esquina….

    1. Pensou bem? uma ogiva nuclear não selecciona a religião da vítima – mata todos os que vivem na zona.

    2. Não há nada de verdadeiramente islamico no EI, da mesma forma que não há qualquer consistência ideológica em todos os movimentos radicais, desde os Anarquistas Anti-Globalização, aos grupos de extrema direita, passando pelos radicais islâmicos.
      Há apenas o gosto pela violência e tudo o que de ideológico e religioso é apresentado como argumento legitimante das suas acções não passa de um pretexto, por vezes verdadeiramente interiorizado – como dogmas – por mentes sujeitas a lavagens cerebrais, mas na maioria das vezes apenas adoptado “pela rama” como auto-acalmamento/racionalização fácil, como de resto acontece com todos nós em tantos campos da nossa vida (mas com consequências menos nefastas).

    3. O Corão não fundamenta esta violência, mas o sectarismo sim. É no entanto possível que a base de massas do EI seja mais forte do que a que decorreria de simples “lavagens cerebrais”, há um problema social criado pela desagregação das comunidades e Estados da região, ou pela tragédia que foi a destruição dos regimes laicos.

    4. Eu disse:
      “…por vezes verdadeiramente interiorizado — como dogmas — por mentes sujeitas a lavagens cerebrais, mas na maioria das vezes apenas adoptado “pela rama” como auto-acalmamento/racionalização fácil, …”
      Não vejo que seja difícil de depreender do meu texto que eu afirmei que os aderentes ao EI que são vítimas das “lavagens cerebrais” são uma minoria e que a maioria são massas que usam do Islão como pretexto para exercer violência.
      De resto, creio que a popularidade do Islão “radical” se funda em algo muito mais simples do que a agressão exterior: a opressão da mulher e gosto pela violência em si.
      A agressão exterior (torpe por erroneamente motivada ou por simplesmente mal pensada) existe, não há dúvida, mas tem apenas um papel despoletador, contudo, sei que você prefere olhar para o rastilho por razões ideológicas.
      Seria interessante debater mais em profundidade, mas acreditar que este fenómeno existe por causa dos “americanos”, não deixando de ser certo até um certo ponto, é também muito redutor.

      (como os aderentes a qualquer outro grupo radical islâmico desta natureza)

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