Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

13 de Outubro de 2014, 13:00

Por

No meio da mediocridade, um discurso memorável

Num dos últimos dias da campanha do referendo sobre a independência da Escócia, o ex-PM do Reino Unido e escocês Gordon Brown fez uma intervenção em Glasgow, defendendo vigorosamente o “Não”.

Já vi e revi o seu notável discurso. Que, devo dizer, me surpreendeu não pelas ideias, mas pela forma empolgante como o fez. Tive ocasião de conhecer Gordon Brown nas reuniões do Ecofin quando éramos ministros das Finanças. Já então o admirava pela sua maneira de fazer política. Estudioso, simples, metódico, rigoroso, sem alardes de fantasia bacoca ou de ilusória demagogia. Tendo sempre presente que a politics sem o conhecimento profundo das policies é completamente insuficiente. Mas, confesso, não lhe conhecia a veia discursiva que evidenciou em Glasgow.

Esta sua intervenção foi vibrante, ordenada, calorosa, genuína, numa linguagem directa e assertiva. Foi um Gordon Brown com palavras ditas sem auxiliares tecnológicos de leitura, entranhadas nas suas convicções, enraizadas no seu itinerário de vivência, inteiramente livres de condições, de restrições e de condicionalismos. Não importa se estou ou não de acordo com o que ele disse. O que mais me interessou foi este modo de comunicar que, desde os grandes estadistas do século passado, parecia ter desaparecido do mapa político.

Eis uma bela demonstração do que, nos dias de hoje, é uma excepção ao que se tornou a norma do discurso político (e de Estado) que é baço, cinzento, tresandando ao politicamente e oportunamente correcto, sem alma e convicções, manhoso, táctico, dizendo-se tantas vezes não o que se pensa mas o que se aparenta pensar.

Enfim, uma brilhante conjugação oratória de consciência, liberdade, carácter e autenticidade. A política no seu melhor.

Comentários

  1. Não vi nem ouvi o discurso, a não ser excertos; mas fiquei com curiosidade e vou procurá-lo na íntegra, na internet, em vídeo, também, claro.

  2. Apesar de ser um homem da Direita, oiço e leio com prazer o Dr. Bagão Félix, pois, para além da sua competência, sobressaem a correcção linguística, a preocupação permanente em não ofender quem quer que seja, mas nunca se coíbe de dizer o que lhe vai na alma, o que pensa. Mas nos comentários aqui postados (publicados), pareceu-me que a Srª Graça Stiglitz se enganou, pois jamais refere o nome sobre o qual Bagão Félix escreve (Gordon Brown) e fala, fala, fala… do Sr. Tony Blair !! Perdeu-se???

    1. Caro Jaime Branco. Tem toda a razão, o comentário referia-se a uma opinião do leitor Custódio Braz e não ao que escreveu o articulista.

  3. É uma barbaridade dizer que Blair é um dos melhores políticos de sempre – a não ser que se queira dizer que é um político exemplar no pior que a política pode ser. O sr. Blair deveria, na verdade, ser levado a julgamento por colaboracionismo em crimes contra a humanidade. Um julgamento justo, claro, com direito a defesa e tudo, não linchamentos e outras barbaridades semelhantes às que a sua hipocrisia de terceira via proporcionou. Ainda anda por aí uma gravação em que o cavalheiro diz para as câmaras que depois da invasão do Iraque (e de outras “primaveras”) o mundo está muito mais seguro. Parece-me que não é necessário relembrar as razões (as motivações economicistas indefensáveis) por que alinhou no que alinhou. Nem descrever a destruição de vidas e de sociedades que se seguiram e de que ele foi, parcialmente, responsável.

    1. Não refuto o que diz, pois Tony Blair e a Terceira Via foram responsáveis por muita desgraça que ainda hoje nos afecta. Foi ele, em grande medida, o coveiro da social-democracia. Foi, porém, na óptica do jogo político (política no pior sentido, para usar a sua expressão), um dos maiores políticos que conheci, e já cá ando há uns tempos. Seja como for, comparado com a desgraça dos líderes de hoje (à excepção de Vladmir Putin, que é um verdadeiro líder), Blair foi brilhante. Foi isso que eu quis dizer.

  4. Bem, o que vi do discurso na televisão foi Gordon Brown a dizer que as pessoas que queriam a independência queriam era a separação da política e da economia em relação ao Reino Unido e, bem, com isso é impossível discordar.

  5. Sucede, porém, que também Gordon Brown passou, pertence ao passado. Considero o Blair um dos melhores políticos de sempre, alguém que tinha o condão de virar toda e qualquer adversidade a seu favor, e penso que Bill Clinton foi um dos melhores presidentes dos EUA de sempre. Porém todos eles passaram, pertencem à história. Por isso, Sr. Dr. Bagão Félix, dê-me um só exemplo de um político da mesma fibra, um que seja. Nenhum. Nunhum a não ser Putin, claro, mas esse é doutra esfera.

    1. É uma barbaridade dizer que Blair é um dos melhores políticos de sempre – a não ser que se queira dizer que é um político exemplar no pior que a política pode ser. O sr. Blair deveria, na verdade, ser levado a julgamento por colaboracionismo em crimes contra a humanidade. Um julgamento justo, claro, com direito a defesa e tudo, não linchamentos e outras barbaridades semelhantes às que a sua hipocrisia de terceira via proporcionou. Ainda anda por aí uma gravação em que o cavalheiro diz para as câmaras que depois da invasão do Iraque (e de outras “primaveras”) o mundo está muito mais seguro. Parece-me que não é necessário relembrar as razões (as motivações economicistas indefensáveis) porque alinhou no que alinhou. Nem descrever a destruição de vidas e de sociedades que se seguiram e de que ele foi, parcialmente, responsável.

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