Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

2 de Setembro de 2014, 14:00

Por

Ucrânia: a arma do frio

PutinO presidente-czar Putin, ex-chefe do KGB, e que certamente ocupará o poder na Federação Russa até quando quiser com a colaboração (nos intervalos constitucionais) do “factótum” Medvedev‎, não consegue esconder a sua nostalgia soviética. Depois da Abecázia, da Ossétia do Sul e da Crimeia, prossegue, com indisfarçável cinismo, o apoio à desagregação da Ucrânia. Diz, com incomensurável desplante, que não interfere com Kiev, nem manda tropas para o leste do país, nem financia as armas dos beligerantes pró-russos. Mas lá vai deixando cair o que lhe vai na alma, como, nestes últimos dias, ao falar num “Estado no Leste da Ucrânia”, ou exprimir todo o poderio militar com a ameaça de “tomar Kiev em duas semanas”.

Bem sei que a Ucrânia (que, curiosamente, quer dizer “fronteira”) é uma expressão, como muitas na Europa Central e Oriental, de frágeis poliedros étnicos, linguísticos, religiosos, históricos, culturais. E historicamente há que reconhecer que há duas partes bem distintas na Ucrânia: a ocidental (com um passado ligado ao império austríaco, reino da Polónia e da Prússia) e a oriental (russófona).

Nestas situações logo me recordo da ficção hiperbólica da ex-Jugoslávia: seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um partido.

Também olho para o espectro político da “rua ucraniana” com alguma desconfiança, numa mistura onde radicalismos perversos e perigosos ganharam poder.

Por seu lado, a Europa revela, mais uma vez, a sua incapacidade para lidar com este perigoso conflito. Não apenas pelas suas contradições (veja-se, por exemplo, a diferença como viu a questão da Crimeia em comparação com o Kosovo), como pela sua incapacidade diplomática de falar a uma só voz.

Putin, entre palavras de circunstância pacifistas e ameaças de poderio arbitrário, vai certamente limitar-se a esperar pelo “general Inverno”. Um quarto das necessidades da União Europeia em gás natural chega da Rússia através da Ucrânia. Isto para já não falar da totalmente dependente Ucrânia… Haverá melhor arma?

Comentários

  1. Se a expansão no século passado foi feita através do território, no novo milénio é feita através dos mercados, e a Ucrânia tem as características certas para se tornar num negócio muito proveitoso. O Ocidente viu a oportunidade e fez os seus aliciamentos, num país que está culturalmente dividido em dois, com uma parte que tem ressentimentos históricos muito profundos contra Moscovo (alguns relativamente recentes) e outra que se vê e declara como Russa.
    Os acontecimentos que se sucederam podem sempre ter interpretações diversas. Quando é um golpe de estado legítimo? Qual a diferença entre terrorista e revolucionário? A História acabará por decidir a favor do vencedor, mas no momento temos esta dualidade.
    A Rússia, como superpotência, reagiu quando viu a sua influência na Ucrânia ser ameaçada. Não esperar tal evento é equivalente à ingenuidade que anteceu as duas grandes guerras mundiais, quando cada uma das partes pensava que os restantes não iriam entrar num conflito.
    Somos um mundo em que os poderosos puxam a manta cada um para o seu lado e quem sofre são os pequenos. Cada um tem as suas armas, e se a História se repetir, o Inverno decidirá novamente a favor da Rússia. Esperamos que a manta não fiquem todos destapados.

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