Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

2 de Setembro de 2014, 09:42

Por

Tão liberal e tão amigo de Salazar

hayekDonald Tusk, presidente do Conselho Europeu, é um liberal, dizem os jornais de todo o mundo. Prova de liberalismo, além da não irrelevante acção como primeiro-ministro da Polónia: escreveu, nos seus anos de formação, ensaios a incensar o liberal Friedrich Hayek. Como o mundo é pequeno…

Esta genealogia de Tusk convida a que estudemos os pergaminhos do liberalismo moderno para o perceber. E Hayek é, de facto, Tusk tem razão, um dos mais qualificados guias para esse percurso: foi uma das figuras marcantes do renascimento de uma estirpe especial do neoliberalismo do século XX, muito marcada pela Guerra Fria, e aliás muito pouco liberal no que diz respeito às liberdades.

Que o liberalismo é ou pode ser pouco liberal, é um facto bem conhecido dos historiadores. Um saboroso episódio pouco conhecido em Portugal revela essa ambiguidade essencial: Friedrich Hayek, esse guru do liberalismo moderno, escreveu em 1962 uma carta a Salazar, explicando a motivação para o envio anexo do seu livro The Constitution of Liberty, que o devia ajudar “na sua tarefa de desenhar uma Constituição que previna os abusos da democracia”. Mesmo considerando o prestígio a que Hayek se veio a alcandorar mais tarde, em particular depois de ter recebido o Prémio Nobel da Economia (em 1974, ex-aequo com Gunnar Myrdal, por um óbvio efeito de balanceamento político), este episódio revela uma atitude perante a liberdade e o Estado, incluindo uma ditadura, que é mais expressiva do que qualquer distinção honorífica.

Hayek voltou a este tema numa carta ao diário The Times em 1978, registando que, na sua opinião, tem havido “muitas instâncias de governos autoritários em que a liberdade pessoal está mais segura do que em muitas democracias. Nunca ouvi nada em contrário quanto aos primeiros anos do governo do Dr. Salazar em Portugal e duvido que haja hoje em qualquer democracia da Europa Oriental ou nos continentes da África, América do Sul e Ásia (com a exceção de Israel, Singapura e Hong Kong) uma liberdade pessoal tão bem protegida como acontecia então em Portugal”. Estas relações entre várias ditaduras e Hayek, incluindo a de Salazar, foram estudadas por autores como o economista Brad DeLong ou o cientista político Cory Robin.

Das demonstrações desta virtude, há no entanto um episódio ainda mais conhecido, a relação entre Hayek e Pinochet. Tendo visitado o Chile quando a ditadura estava bem estabelecida – e os seus desmandos estavam demonstrados e eram públicos e notórios – Hayek expressou a sua adesão à nova ordem numa entrevista ao principal jornal do regime, o El Mercurio, a 19 de abril de 1981 (em que volta a falar de Salazar, para lamentar que ele não tenha prosseguido o que fora um “bom começo”). Nela declarava sem ambiguidades que “a democracia precisa de uma boa limpeza por um governo forte”. Uma boa limpeza. A sua atitude não deixou dúvidas e as palavras foram cuidadosamente escolhidas: “Como compreenderão, é possível a um ditador governar de modo liberal. E também é possível a uma democracia governar com total falta de liberalismo. Pessoalmente, eu prefiro um ditador liberal a um governo democrático a que falte liberalismo.”

Estive no Chile pouco tempo depois desta entrevista e os resistentes com quem trabalhei sabiam bem o que queria dizer Hayek: “uma boa limpeza por um governo forte” começava na tortura no Estádio Nacional e nas masmorras da Marinha. A preferência era indiscutivelmente elegante, Hayek gostava de uma “boa limpeza” à Pinochet. Nos mesmos anos, isso não impediu Margaret Thatcher, chefe do governo britânico, de considerar Hayek o seu guia espiritual (e ela governou quando o homem ainda vivia e visitou Pinochet).

Passaram décadas e, tudo esquecido, temos Tusk, homem do mundo, que começou por Hayek e agora preside ao Conselho Europeu. Merkel tem os seus peões no sítio e, sabendo que nada a liga a este passado hayekiano a não ser a ideologia económica, não deixa de ser revelador tal facilidade de identificação com quem teve sempre tanto desinteresse pelas liberdade.

Comentários

  1. Tenho pena que isto passe nos critérios editoriais do Público. Uma coisa é darmos a nossa opinião. Outra é citar excertos descontextualizados de outras pessoas para fazer delas precisamente o oposto do que são e que ainda por cima não se podem defender porque já morreram. Este senhor está a gozar com a cara e a faltar ao respeito de quem já lê realmente o Hayek há muitos anos. Um mau economista que vive à custa das “questões fraturantes” e de “épater le bourgeois.”

    1. Tenho muito gosto em que me insulte. Mas percebo com mais dificuldade a sua recusa em discutir factos documentados.

    2. Francisco. Foi para mim uma surpresa terem colocado o comentário e que tenha respondido, apesar de perceber, no seguimento deste artigo, que pelo menos aqui ser o seu procedimento habitual. Só por isto acolheu agora o meu respeito. Não consigo é aceitar (intelectualmente) o seu percurso intelectual e a sua má-visão em relação aos liberais como o Hayek – um grande humanista, uma pessoa que sempre procurou ser equilibrada e perceber todos os pontos de vista. O Sentimento não é monopólio da esquerda. Leia mais o Hayek e menos o Ragnar Frisch e saberá que é assim. Só fiz um comentário agressivo porque o Francisco o fez (indiretamente) antes de mim. Em relação a factos documentados, como diz, comece por ler, do Hayek, “The Counter-Revolution of Science”. Mas, antes de tudo, o “Caminho para a Escravidão”. Não vou discutir excertos (descontextualizados) do Hayek que são minudências no meio de uma obra de 70 anos que fala por si a quem se dar ao trabalho de a ler.

  2. “Democracy is two wolves and a lamb voting on what to have for lunch. Liberty is a well-armed lamb contesting the vote.” – Benjamin Franklin

    Suponho que Pinochet tenha sido a ovelha armada.

  3. Quando as diferenças entre um doutorado em economia e um prémio Nobel da mesma se resumem a uma interpretação póstuma e unilateral de uma carta está tudo dito – há doutrina pelo meio e conteúdo nicles.

  4. Bastante engraçado que este artigo surja da típica fábula marxista chilena …
    De maneira inexplicável, homens malvados e sórdidos aparecem do nada e, sem nenhum motivo aparente, se opõem aos inocentes marxistas, espancam-nos e matam-nos, como fizeram os soldados de Pinochet no Chile em resposta à tentativa dos marxistas de socializar a economia daquele país. O horror! Que afronta contra bons e inocentes marxistas! Tal tipo de maldade certamente merece ser severamente punida!
    Fim da fábula. Agora, a realidade.

    O Allende aplicou um programa socialista de confisco e estatização de minas, bancos e indústrias estratégicas; divisão e repartição de grandes propriedades rurais em fazendas comunais e controle absoluto de preços.
    Nem é preciso ser-se inteligente para saber que levou a um declínio na produção, escassez absoluta de bens de consumo e inflação explosiva.
    Centralizou e nacionalizou a educação e o sistema de saúde, distribuiu benefícios para seus aliados políticos e inflacionou de modo psicopata a oferta monetária, o que levou ao colapso de toda a economia e ao endividamento maciço seguido do calote.

    Curioso que para quem fala de liberdade não sabe que o direito à vida, à liberdade e a não ter sua propriedade confiscada, o qual todos os homens possuem, também carrega consigo o direito à autodefesa que inclui matar aqueles que representam uma ameaça iminente à vida de uma pessoa.

    Ao contrário do que muitos intelectuais tendencialmente esquerdistas pensam os comunistas não têm o direito de matar dezenas de milhões de pessoas inocentes e mais ainda, eles não têm o direito de reclamar quando as vítimas do seu golpe reagem, impedindo as suas acções e, nesse processo, matam alguns comunistas.

    Se os marxistas que foram torturados e morreram no Chile quisessem evitar tal destino, eles bem que podiam simplesmente ter ficado em casa a escrever livros e artigos, ou fazendo palestras, ou organizando marchas e protestos pacíficos. Mas é óbvio que eles não fizeram isso eles preferiram fazer planos para saquear a propriedade de terceiros.

    O Pinochet era um assassino porém, numa batalha para evitar a imposição de uma ditadura comunista aka expressão máxima da liberdade, é incontestável que a maioria daqueles que morreram ou sofreram torturas estavam preparados para infligir um número excepcionalmente maior de mortes e numa escala bem maior maior de sofrimento aos seus conterrâneos.
    Exemplos desse tipo de festival democrático? USSR, Mao, Tito, Pol Pot, Hoxha, Castro e Che etc etc… Tudo boa gente.

    Ao menos dou algum crédito ao Pinochet, como o homem que impediu que seu país se tornasse o segundo satélite soviético no Ocidente, após a Cuba do Fidel. Tal como Cuba e a URSS, uma ditadura totalitária com uma população empobrecida e a morrer á fome.

    Concluindo, parece-me é óbvio que o professor ao defender gente desse calibre já está por si só definitivamente a promover as liberdades, enfim.

    1. Argumentos senhor professor?

      E não me viu a certamente a defender o Pinochet o que lhe consegue entrar na cabeça é que os que lá estavam antes do Pinochet eram tão ou mais assassinos que o Pinochet.

    2. Hugo Morão, ficamos por aqui. Não tenho interesse em discutir a comparação entre Allende, eleito pelo povo, e Pinochet, golpista militar que instaurou uma ditadura. Não me leve a mal, mas não discuto isso.

    3. Muito bem refere que o Pinochet instaurou uma ditadura,correcto.
      Esquece-se que por outra mão que o Allende tinha ideias bastantes claras em instaurar um regime igualmente totalitário com um bonito historial de mortes digno de registar.

      E o facto de ter sido eleito por cerca 36% do povo não significa que não seja tenha ideias totalitárias e que tenha legitimidade para arrasar com uma nação porque basta como Hitler e mais uns quantos foram a parar ao poder.

  5. De facto – ao invés da subliminaridade do exposto – Hayek está correcto no que a Oliveira Salazar concerne. E também quando diz: “é possível a um ditador governar de modo liberal. E também é possível a uma democracia governar com total falta de liberalismo”.

    Ser liberal não é ser libertino. É também não ir em conversas dos bem-pensantes que adoram a “elefantíase deste monstruoso estado moderno” (como sabiamente Salazar definiu).

    Basta ver o que fizeram do que era um País: um Sítio/Protectorado da Europa! E ainda se ufanam… – podem continuar a limpar as mãos à parede…

    1. Apesar de anónimo, é de notar que um salazarista pode escrever aqui (mas um democrata não podia dar a sua opinião em público durante o salazarismo).

  6. “muitas instâncias de governos autoritários em que a liberdade pessoal está mais segura do que em muitas democracias. Nunca ouvi nada em contrário quanto aos primeiros anos do governo do Dr. Salazar em Portugal e duvido que haja hoje em qualquer democracia da Europa Oriental ou nos continentes da África, América do Sul e Ásia (com a exceção de Israel, Singapura e Hong Kong) uma liberdade pessoal tão bem protegida como acontecia então em Portugal”

    Francisco, e refutar este parágrafo? és capaz disso. É engraçado que Hayek tenha falado expecificamente em Israel, Singapura e Hong Kong em 1978. E ainda há quem não perceba que a razão está do lado dele. Realmente não aprendem

    1. Acho o parágrafo um disparate sinistro. Um governo autoritário (à Pinochet) que protege a liberdade pessoal? e é apresentado em contraponto às democracias?

  7. Caro Professor Francisco Louçã, ainda que não tenha lido de longe todas as obras de Hayek e que me falte demasiado conhecimento de causa para falar do Chile, penso que o que Hayek queria dizer com esse tipo de afirmações é que a democracia por si só não é garante de liberdade. Aliás, em “Law, Legislation and Liberty”, penso que o seu grande projecto era restringir o poder do Governo de modo a que não fosse possível ele interferir com a liberdade individual, mas sempre dentro do contexto da democracia. Muito dentro de uma linhagem vinda dos Pais Fundadores. Não acha que as citações que faz não podem ser vistas à luz disto? Do que li de Hayek, seria bastante incoerente que ele apoiasse uma ditadura por si só. Via é que a democracia, se não fosse controlada, não protegeria a liberdade individual – tome-se como exemplo não só Venezuela, mas essencialmente a França do final do século XVIII, início do século XIX. Claro, falo da liberdade individual em que ele está a pensar; não será certamente aquela que o Professor considera a verdadeira liberdade…

    1. É excessivo pensar, Miguel Santana, que conhece a minha concepção de “verdadeira liberade”. Quanto à sua tentativa de defender Hayek, o problema é que Pinochet era mesmo Pinochet, havia milhares de pessoas assassinadas e o mundo inteiro tinha conhecimento disso. Visitar o país a convite dessas autoridades e prestar declarações apoiando-as não pode ter duas leituras, pois não?

  8. “Tusk refere-se a Hayek como seu inspirador intelectual. A escolha é dele, não é minha. ”

    A sua foi Trotsky… E entre Hayek e Trotsky, não tenho dúvidas de qual foi o responsável directo por mais atropelos à liberdade.

    1. Parece uma defesa de Hayek com pouca convicção: andar à procura de outros pecados ajuda a redimi-lo?

    2. Apenas acho irónico que um apoiante de Trotsky ache que os pecados de Hayek desacreditam o liberalismo, mas continue a ser trotskyista apesar dos (bastante maiores) atropelos de Trotsky liberdade :-)
      Não li o texto de Hayek, mas convém recordar que democracia e liberdade não são sinónimos: uma maioria iliberal pode oprimir democraticamente uma minoria.. A democracia não garante liberdade, apenas possibilita a substituição regular de governantes de forma pacífica.

    3. realmente uma democracia legal não grante a liberdade
      só canhões e bolachas com sal

      por esse tanto é que Trostky era pasteleiro

  9. Hayek foi um dos grandes pensadores do século XX que lutou toda a vida pela liberdade. Em “The Road to Serfdom” fala sobre o perigo da tirania que inevitavelmente resulta do controle por parte do Estado da economia e da restrições que impõe à liberdade económica. A evidência empírica disso mesmo é abundante como se poderá verificar pelos casos da China, URSS, Cuba, etc. A liberdade económica é condição absolutamente essencial para a liberdade política.

    1. Professor Francisco Louça, sabe a que refiro quando digo lutou. Mas aceito a crítica e altero para defendeu. Mas não responde ao essencial do meu comentário. A restrição da liberdade económica implica a coerção. A utilização da força e a consequente limitação da liberdade.

    2. Vá dizer isso à China
      lá o povo tá admoestado…. no Reich tambem

      o polaco ficou à secretária. mais nada
      boom dá o gás – e pancada levam os mexicanos quando querem passar a barreira

  10. Não posso concordar com a lógica da culpa por associação presente crónica. O Tusk na juventude terá elogiado Hayek que na velhice teria enviado um livro a Salazar que por sua vez quase que semi-apoiou Hitler e oprimiu a liberdade. Conclusão: os liberais são todos uns fascistas. Acho seriamente muito pouco construtiva (e estranhamente comum) esta reductio ad hitlerum sempre que politicamente se quer falar de ideias liberais. O liberalismo está nos antípodas do fascismo – todos sabemos – e os méritos e deméritos do liberalismo enquanto ideologia política e económica não se medem por aqui.

    Hayek (que presumo que já não fosse nada para novo…) ter-se referido a Pinochet com tudo o que não fosse a mais absoluta repulsa foi obviamente um erro e ainda que a previsão de que a ditadura chilena eventualmente iria evoluir para uma democracia se tenho provado correcta, o regime de Pinochet não merecia, e não merece, menos que a total condenação de todas as pessoas que prezam a liberdade. E Hayek era sem dúvida (e ao contrário de muitos) uma dessas pessoas.

    Agora o que é certo é que nada disto afasta a questão: é o liberalismo enquanto modelo de organização económica o melhor caminho para Portugal e para a Europa? Discutir a premissa com calma e sem pruridos ideológicos é porém mais complicado – mas mais essencial.

    1. A conclusão é superficial. Mas João Moreira, que é um dos intelectuais portugueses mais empenhados em defender Hayek, podia ter uma palavra mais consistente sobre o episódio do apoio de Hayek a Pinochet, em vez de profissões de fé segundo as quais Hayek seria “uma dessas pessoas” que condenaria Pinochet… quando não foi, foi antes um dos seus apoiantes. A desculpa de “não ir para novo” é bem triste.

  11. Francisco Louçã,

    É pena que um professor universitário perca a cátedra e use mera panfletagem para denegrir a imagem de alguém. É pena ou é sintomático de algo pior.

    Hayek alertou Salazar para algo muito óbvio, que é estudado desde os tempos de Burke: a democracia é a ditadura das maiorias, e como tal pode ser usada para oprimir as minorias. Minorias essas que V. costuma defender em bailaricos de causas. Hayek, e tantos outros liberais, advertiam para a opressão do indivíduo.

    Quanto ao Chile, acho curioso que pegue no que um intersindicalista revolucionário Chileno lhe disse para retratar a opinião de Hayek.

    Por fim, é interessante recordar a todos os leitores que a ideologia que V. defende gerou a USSR, a China de Mao, a Jugoslávia de Tito, Cambodja de Pol Pot, Albânia de Hoxha, Cuba de Castro e Che, entre tantos outros paraísos comunistas que mancham a história da humanidade com centenas de milhões de mortes. Se o seu melhor rebate é uma carta de Hayek a Salazar, estamos conversados.

  12. N é o objetivo primordial de qualquer Constituição exactamente o de prevenir os abusos da democracia, nomeadamente do poder do Estado e das maiorias circunstanciais sobre os indivíduos e as minorias?

  13. Grande homem, o Hayek. Digo-o sem ironias. Até teve a humildade de reconhecer que se enganou em relação a Salazar. De resto, este tipo de prosa, desta ponta que liga com aquela, dá para tudo e para nada. Peço no Louçã, ligo-o ao P.e Max (ou a outra qualquer amizade de o Tempo e o Modo, por exemplo) e tenho logo duas derivações, uma para a Inquisição e outra para os gulags e as grandes marchas. Será justo? Penso que não.

    1. Não conheço essa afirmação de Hayek revendo a sua atitude sobre Salazar e muito gostaria de a conhecer. Em todo o caso, a visita ao Chile de Pinochet é indesmentível, bem como a entrevista a apoiar o ditador.

    2. Teve a humildade de reconhecer que se enganou em relação a Salazar porque, como o Francisco Louçã afirma, Hayek lamenta no El Mercurio de 19 de abril de 1981 que Salazar não tenha prosseguido o que fora um “bom começo”. Podemos discutir se houve ou não bom começo, mas tenho ouvido dizer que muitos portugueses gostaram da ascensão de Salazar porque ele pôs fim à barafunda da I República. Eu não vivi nesse tempo e sinto-me profundamente democrata, mas não me admira que muitos portugueses estivessem fartos daquela democracia pouco amiga da estabilidade democrática. Hayek apoiou Pinochet como o admirável Borges? Não chega a ser tanto como Marx, que nunca pôs os pés numa fábrica e consta que nunca pagou um ordenado mínimo que fosse à criada de décadas lá de casa. Se eu fizer um elogio ou um estudo sobre Marx já não sirvo para sindicalista, político ou presidente do Conselho Europeu?

    3. Reconhcer que Salazar não “foi bem” não é distanciar-se dele, ainda menos numa entrevista em que apoia … Pinochet.

  14. francisco, é assim, estes liberais são liberais do bolso, também Friedman foi ao Chile, levou o pacote de reformas que seus alunos de Chicago implementaram, que permitiram o contexto de milagre económico de que muito se fala com orgulho pela direita e os iluminados rendidos ao livre mercado, mesmo contra a evidencia empírica, o PIB cresceu de 1974-1988 menos que as décadas anteriores, muito menos que no regreso a democracia, Friedman foi pago a peso de ouro, Grandes lições para os nosso liberais, para os ajustes actuais; reforma laboral, segurança social, privatização ate das aguas, entrega da mineria do cobre em licitação, PPP para infraestruturas, as empresas a servirse-se do estado, contando con o apoio de uma classe politica que faz o jogo..Chile é hoje um pais de castas cristalizadas, contra isso se revoltaram os sectores medios, os estudantes e o governo da Bachelet procura responder a varios frentes de demandas sociais e sobretudo de uma, que é mudar a constituição. pinochtista, que permite . aos grupos económicos ter quase 60% do PIB nas suas maos, sem mudar isso tudo continua igual, Eu não acredito na separação entre liberais económicos e liberais políticos, tudo depende de estado dos conflictos socias e das soluções necessárias para eles, das transições de modelo económico.. Toda a reforma da segurança social no Chile se fez pelo Estado , que deu os fundos as empresas privadas de SS, as privatizações de empresas publicas foram uma dádiva muito genrerosa aos grupos, e mesmo quando o sistema privado financeiro colapsou foi o Estado a salvar. Para a burguesia chilena ter um dictador ou um parlamento favorável é so uma questão de contexto. Gostei muito do artigo, muito oportuno, abc,

  15. eu pessoalmente sou a favor da abolição dos camisas castanhas, e dos seus sucedâneos nas chancelarias europãs,
    que são o seu outro pós-moderno domado.
    tambem sou a favor do fim da europa do euro e portanto da soberania dos estados, que é como todo o mundo se regula excepto este quadrado à beira mar plantado, que agora tem que trocar missivas com o sujeito polaco como se fossemos grandes indefectiveis camaradas.
    poiis, não somos – já vais sendo tempo de perceber isso
    e consultar o manual

  16. Após a crise de 2007-2008, e a consequente falência do “Lehman Brothers”, recuperaram-se as ideias de Keynes e Hayeck, e desacreditou-se a economia das “expectativas racionais”. Desde os anos trinta do século passado, afinal, as premissas não se alteraram assim tanto – as questões permanecem no essencial as mesmas: o que provoca o colapso das economias de mercado? Quais as medidas a implementar em face de um colapso da Economia? E como evitar futuros debacles catastróficos do tecido económico?
    Meu Caro, nesta época em que se fala tanto do novo “caminho da servidão”, em que se edita e comenta a controvérsia Keynes-Hayek – este último terá reclamado vitória, contando a História a seu modo, porque viveu mais quarenta anos – , há uma concentração de poder nas mãos de um limitado número de pessoas. É um perigo! E será tanto mais perigosa essa apropriação de poder por poucos, quanto sabemos hoje em dia que quem na verdade detém a maior parte da riqueza no Mundo é, igualmente, um reduzido número de plutocratas. Errou Friedrich von Hayek, na medida em que só quis ver o que viu nas “democracias populares” do Leste. Foi pouco, foi redutor, de facto. O seu compatriota Karl Polanyi veio dizer-nos de uma forma premonitória que os mercados sem controlo é que minam a ordem social e criam, dessa forma, uma ruptura na ordem económica que abre o caminho para o surgimento de ditaduras. Espanta-me que se fale tanto nos “corredores” da Europa, e se traduza, Hayek e Milton Friedman – outros dos “monstros sagrados” do Neo-Liberalismo da escola de Chicago – e não se discuta, nem se traduza para a língua de Camões, outro Prémio Nobel da escola austríaca-alemã: Joseph Shumpeter (1883 — 1950). Não se andará muito longe da verdade, se se disser que se discute muito pouco, hoje em dia, os “ciclos de inovação e de negócio” ou o “empreendedorismo”. O que nos propôs Shumpeter certamente que nos possibilitará uma outra panóplia de conceitos para entendermos a actual realidade económica, social e política, porque caso contrário: “Ou queres governar ou serás sempre governado”.

  17. Os “economistas” da actual idade média são o equivalente aos alquimistas da anterior idade média. Os alquimistas não conheciam física e inventavam teorias ad hoc em função desse analfabetismo base que é não saber que a física existe. Os “economistas” hoje são essas figuras que não sabem que “regras da casa” quer dizer que a casa tem regras. O facto de não distinguirem uma casa da sua antítese, o mercado, mostra bem o grau de absurdo que reina neste tempo de barbárie.

    Convém saber que a barbárie saiu (teoricamente) da pré-história no séc.IV. Os germânicos (desde a escola Austríaca a Marx e a Smith) mostram o atraso cultural milenar da cultura germânica. É necessário perceber que os germânicos eram nómadas, o conceito de casa não existe numa cultura nómada. O valor da propriedade da terra é algo estranho a uma cultura nómada. Os gregos tinham a propriedade da terra mas não tinham a propriedade da colheita, algo absurdo para a barbárie que não dava qualquer valor à terra e davam à colheita, porque eram nómadas.

    A economia faz parte de uma cultura do sul da europa, sedentária, onde viviam em casas e como tal tinham regras dentro das casas. A barbárie desconhecia até a arquitectura. Convém saber que a cidade é a casa de uma sociedade, e que sem sociedade não há cidade. A estrutura social que assenta no civismo (o comportamento dos que vivem na civitas) é a antítese da cultura da barbárie que era nómada e vivia em matilha (a antítese da sociedade). Casa e regras são a antítese do nomadismo ao acaso da delinquência que caracteriza a base cultural da barbárie.

    A piada é esta coisa de termos bárbaros a versar sobre economia, quando não têm qualquer suporte cultural para o fazer, e pior, têm uma “cultura” anti económica. Para o bárbaro entrar no domínio da economia teria de abandonar os seus próprios valores culturais que assentam na delinquência, na anti economia.

    Economistas germânicos 😀 😀 Viva o analfabetismo.

    1. Essa é uma inferência que o texto não permite. O que o texto conta são factos sobre a relação de Hayek com Salazar e com Pinochet. São claros e indesmentíveis.

  18. de volta em volta o francisco louçã lá tem que emitir posts sobre gente mentalmente incapacitada
    é… a europa central é um berbicacho

    1. Tratar Tusk ou Hayek como mentalmente incapacitados é uma subvalorização e errada, na minha opinião.

  19. e de vez em quando surgem estes gurus seguidos pela irracionalidade do ser humano. Com a devida distância, faz-me lembrar o fenómeno que foi Hitler. Ontem estava a ver um dos inúmeros documentários sobre a vida deste ser. E não há uma só vez que não pense: como foi possivel um povo, aparentemente civilizado e evoluído para a altura, bajular e seguir cegamente a figura?!.
    Com Hayek o paralelismo pode ser formulado com uma questão parecida: como é possivel que tantos teóricos, políticos, académicos, todos pretensamente intelectuais, pudessem ser inspirados por essa ideologia económica e social?
    A propósito, lembrei-me de Jorge Palma
    “há tantos pensadores que nunca aprendem
    e há quem insista sempre em aprender
    mas não quer pensar”

  20. Analogia (muito) forçada entre Tusk, por um lado, e, via Hayek, Salazar e Pinochet, por outro. Seria o mesmo que dizer que Francisco Louçã, por exemplo, gostava da música dos KISS nos anos 70, e que continuou a ouvir quando o guitarrista foi acusado de pedofilia, pelo que não se opõe à pedofilia. Um disparate, portanto. Eu, ainda que condenando Pinochet e Salazar, concordo com Hayek: consigo lembrar-me de vários governos “democráticos”, em especial na Europa de Leste, muito pouco recmendáveis em matéria de liberdades.

    1. Não é nenhuma analogia. Tusk refere-se a Hayek como seu inspirador intelectual. A escolha é dele, não é minha. E de Hayek a relação com Salazar é muito pouco conhecida, aqui fica suficientemente documentada.

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