Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

30 de Agosto de 2014, 14:25

Por

Isaac Newton, o último mágico que foi o primeiro cientista moderno

newton papers copyIsaac Newton (1642-1727) foi o mais brilhante físico e matemático do seu tempo. Aos 26 anos, era professor numa das melhores universidades do mundo; quando morreu, aos 84, era o cientista mais poderoso da Europa. Coisa rara, tinha recusado tomar ordens religiosas, ao contrário da tradição dos professores de então, e vivia em sociedade, ocupando cargos influentes.

Apesar desse poder imenso, nunca chegou a publicar metade do que escreveu: notas dispersas, cadernos, rascunhos de livros, cálculos, uma vida de trabalho. Não publicou e nem queria publicar. Um livro recente investiga esses documentos escondidos, que foram comprados pelo economista John Maynard Keynes, entre outros, e apresenta uma explicação: Newton receava a polémica (depois de um conflito desagradável com Leibniz, acerca de quem tinha inventado o cálculo diferencial) mas, sobretudo, receava a censura.

Tinha boas razões, porque os seus textos ocultos tratavam de questões religiosas sensíveis: Newton rejeitava a noção de “Santíssima Trindade” e, pior, procurava chaves secretas escondidas entre as linhas da Bíblia. Ora, era precisamente a desconfiança em relação a esse dogma e esta paixão pela numerologia que o tornava um herético perigoso. Ao mesmo tempo, dedicava-se à alquimia, e as experiências químicas que realizou secretamente durante anos a fio, bem como as especulações sobre mistérios cabalísticos, só podiam fazer perigar a sua vida, porque eram proibidas.

Newton, o primeiro dos cientistas do futuro e o último dos alquimistas e mágicos do passado, protegeu-se com o silêncio. Atravessados entre duas épocas, os seus textos escondidos testemunham tanto a ousadia como o medo.

Para compreender grandes figuras do nosso mundo, quantas vezes temos de escrutinar a contradição.

(The Newton Papers: The Strange and True Odyssey of Isaac Newton’s Manuscripts, Sarah Dry, OUP, 2014)

Comentários

  1. Li há poucos anos uma interessante história da vida de Newton num conhecido livro de divulgação científica (que considero excelente) – Breve História de Quase Tudo de Bill Bryson – que conta que este cientista era tão maluco e obstinado com as suas experiências científicas, na tentativa de melhor poder compreender o mundo e a vida, que durante a sua vida de cientista fez coisas absolutamente incríveis como: espetar uma agulha no olho para ver os seus efeitos neste e olhar diretamente para o Sol o máximo de tempo que conseguiu para ver o que isto provoca na visão humana. Será fácil de prever que passou por maus bocados no final destas experiências, mas felizmente acabaram bem (por sorte) e conseguiu recuperar.

    Gostei, e achei muito interessante, ver uma pessoa por quem sempre nutri uma especial estima a nível político escrever sobre uma das minhas paixões que é a Ciência!

    Interessante apontamento acerca de Newton.

    Melhores cumprimentos do,
    João Pedro Calafate

  2. Estou curioso, e vou ter de comprar o livro! Deixo um comentario de fisico picuinhas: foi Galileu Galilei o primeiro cientista a estabelecer um metodo de trabalho equivalente ao que hoje chamamos de ciencia moderna, e Newton levantou-se sobre os ombros de Galileu. Claro que esse metodo evoluiu muito ao longo dos tempos, principalmente no seculo XIX com discussoes interessantissimas entre cientistas e filosofos, e no inicio do seculo XX, em parte pelas grandes revolucoes que colocaram tudo o que se “sabia” em causa, e quica tambem por haverem mais pessoas a fazer ciencia. Picuices aparte, gostei do texto, levanta a curiosidade sobre o livro.

  3. Although Isaac Newton was proficient in Hebrew, most of his research into the ancient scriptures was made by using Latin (and sometimes Greek) translations of the original texts or their rabbinical interpretation..

    Particularly significant is his partiality to the vast works of the medieval theologian and cosmologist Maimonides who synthesized biblical religion with the philosophy of Aristotle. It is also probable that Newton had studied the tenets of Arian Christianity, the forerunner of Unitarianism, which was the creed of the Visigoths in Iberia until their conversion to Roman Catholicism in 589 CE.

    In effect, Newton was a Judaic monotheist who rejected the notions of atonement and salvation through the expiatory sacrifice of Jesus. He saw no conflict but, indeed, a symbiosis between science and theology to support the theory of the providence of God (the creator of a finite Universe) existing within and endless cosmos.

    At the public auction in 1936 the bulk of Newton´s secret cache was acquired by Keynes ( who later donated to Kings, Cambridge), Professor Avraham Yahuda (later passed to the Jewish National and University Library in Jerusalem) and the Babson family of the U.S.A (donated to M.I.T and various colleges) But about one quarter of the papers was sold to private collectors and, tragically, many have been lost to public scrutiny.

  4. De quem é que Newton tinha medo? Dos do costume: as figurinhas do analfabetismo instalado, respectivamente os analfabetos que mentem (clero) e os analfabetos que agridem (servilismo/poder).
    O analfabetismo é a base da barbárie. A barbárie não conhece as regras da ordem humana (regras da saúde global da espécie humana) e põe-se a inventam regras (teologias e ideologias) e a impor essas regras da desordem inventada aos outros, pela agressão física (guerra) ou agressão psíquica (mercado: chantagem mercantil).
    As figurinhas do analfabetismo – os analfabetos que mentem organizam-se em cleros, os analfabetos que agridem organizam-se em nobrezas (oligarquias) – são os delinquentes do costume. Clero e nobreza são a invenção da ameaça e a concretização da ameaça sobre todos.

    E é para ter medo, a história da religião/poder é a história da desumanidade. São os boçais do poder (trabalhador/patrão são os nomes dos servilismo/poder feirante) que executam a delinquência inventada pelos mentirosos do clero. Os cleros são sempre iguais: mentem. E mentem seja com um deus tradicional (a “peta” do ser do outro mundo), seja com o deus moderno (a “peta” do deus “progresso científico”, dizem os boçais do clero científico que devemos sacrificar os ecossistemas no altar do seu deus progresso).

    E hoje, Newton teria razões para ter medo? Claro, o clero científico e a nobreza feirante são ainda mais delinquentes e insalubres que o clero cristão e a nobreza bélica da primeira idade média. A actual idade média feirante é composta maioritariamente por trabalhadores (plebe feirante). Essas figurinhas servis, que se dedicam a destruir ecossistemas e extinguir espécies às ordens dos seus donos feirantes e do seu clero científico, não têm qualquer pudor em agir para envenenar não só um indivíduo como toda a região onde ele habitar. Executar crimes contra a vida na terra é a especialidade dos trabalhadores, envenenar populações humanas inteiras é algo subalterno às “necessidades dos trabalhadores”.

    Têm-se medo dos analfabetos e das formas de analfabetismo (cleros, nobrezas e plebes: invenção de regras de abuso e imposição desses abusos), dos sábios espera-se o conhecimento das regras da saúde da vida. O poder detesta a ordem e odeia quem se puser a descobrir as regras da ordem. Um sábio sabe disso. Um analfabeto não mete menos nojo a um sábio que o contrário.

  5. Caro Francisco,
    Ninguem duvida da genialidade de Isaac Newton, mas como ser humano inteIigente, tem no entanto as mesmas limitações de qualquer outro. E embora a inteligencia humana deva ser estimulada, sobretudo ma procura da perfeiçao, da verdade, que é o que leva a ciência a aer cada vez mais rica, tentar explicar o mistério da Santíssima Trindade, é e será sempre impossivel. Só pela Fé. Talvez o texto sobre Santo Agostinho outro génio, ajude:
    SANTO AGOSTINHO E O MISTÉRIO DA SANTÍSSIMA TRINDADE
    Certo dia o grande conhecido doutor da Igreja, Santo Agostinho, estava passeando pela praia procurando entender o mistério da Santíssima Trindade. Deparou então com um menino apanhando água do mar num baldinho , que depois despejava numa cova que fizera na areia à beira mar .
    Agostinho perguntou ao menino :
    -Que estás a fazer?
    Ele respondeu:-Estou a procurar encher esta cova que aqui fiz com água do mar
    Santo Agostinho riu-se e disse, acarinhando a criança:
    – Ó meu menino, isso é impossível!
    O garoto respondeu: – É mais fácil eu encher a cova com água do mar, do que o senhor compreender o que quer descobrir!
    Dito isto, a criança desapareceu.
    Santo Agostinho apercebeu-se que estivera na presença dum Anjo e foi embora , cada vez mais convencido de que o mistério da Santíssima Trindade é um dos grandes mistèrios de AMOR, que tem a Deus por Pai.

  6. Foi John D. Bernal que, num dos seus volumes da “História Social da Ciência”, escreveu, aquando da morte de Newton, compareceram em peso no seu funeral os burgueses londrinos, que lhe prestaram uma grande homenagem pelas descobertas e serviços prestados à Ciência. Desse forma, a conclusão era óbvia: Newton havia facilitado as actividades e ação daqueles que lhe prestavam uma última homenagem.

    1. É um gosto ver alguém a citar Bernal, um dos mais brilhantes cientistas ingleses do século passado e que tende a ser tão esquecido.

    2. John (aka “Sage) Bernal FRS era cientista irlandes não inglês, com antecedência paternal Português-Sephardi-Italiano (familia Ginasi) e Maternal Irlandese/Americano (familia Miller)

  7. Sabe-se, atualmente, que o nascimento da Ciência Moderna não foi um processo linear, que obedecesse a um processo “lógico” e “racional”. Para romper com a “ciência normal”, como nos exemplifica o percurso de Isaac Newton, houve saberes “místicos” que contribuíram para uma nova visão do Mundo e para a instauração de um novo Paradigma. O que é a verdade? Só por aproximação se pode construir a realidade. A descoberta de novos elementos e factos, que conduzam à ruptura, desde que convoque argumentos lógicos, faz tanto sentido como a “ciência normal”.

  8. Interessante este “apontamento” de Louça acerca de Isaac Newton. É que o dizer da ciência parece tornar claro o sombreado dum dizer dogmático e, por isso, estranhíssimo nos dias que correm. E um dizer acerca de um certo dizer que faz perigar a vida e que a torna num sofrimento e infelicidade, parece fazer sobressair, por um lado, a coragem, e, por outro, o medo. E a opção é o silêncio e, com ele, há tentativa de se buscar a proteção em que a pobreza é manifestamente provocada por quem se assume como sendo inteligente a nível político. E não é hoje também assim?! É que há pessoas que são hoje vítimas de uma política que é extensiva na EU e igualmente ostensiva que tão só as põe numa situação de desorientação e tristeza e mesmo de medo. E a contestação pertinente e certamente legítima parece ser compulsivamente substituída pela necessidade do silêncio, perplexamente porque se teme perder mais do que ganhar o quer que seja do ponto de vista da humanização ou dos direitos humanos e sociais. E hoje também parece ser esta uma das contradições que se vivencia sentidamente num ambiente que é indubitavelmente configurado pela ciência moderna.

    1. O paralelismo é ousado, discutível e interessante. Pelo menos em parte da Europa, já não existe esse interdito religioso, e portanto o silêncio não tem fundamento. Já para as condições sociais, elas são piores do que nunca, no que tem razão.

  9. Newton considerava que as suas investigações e os seus escritos religiosos eram superiores aos escritos científicos. Por outro lado, registe-se que “tomar ordens religiosas” já não era assim tão comum. Antes dele, Galileu era católico, mas não padre nem frade, tal como Kepler, que julgo que era protestante, ou Leibniz, que também era luterano, mas escreveu pela união das confissões católica e protestante.

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