Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

29 de Agosto de 2014, 09:19

Por

Semba, samba: os escravos também dançam

A escravidão é uma prisão da alma? É. Subjuga o escravo? Nem sempre, nem para todo o sempre. Roger Bastide conta a história do samba, mergulhado nas raízes da miséria e da desesperança da escravatura, a invenção de africanos arrastados e acorrentados para o Brasil e que conseguiram vencer o seu dono.

“Nos festejos de Bom Jesus de Pirapora, tinham os negros, ainda há poucos anos, o hábito de formar ‘cordões’, espécie de desfiles carnavalescos, com seus músicos, seus estandartes, que se encaminhavam dançando para a igreja e, à noite, após haver cumprido seus deveres religiosos, na barraca onde lhes permitiam dormir, entregavam-se com paixão aos prazeres do samba”, escreve Bastide sobre uma festa de 1937 (só há nove anos havia desfiles de samba, até então sambar convocava repressão).

Neste “As Religiões Africanas no Brasil” conta-se como o semba, uma palavra quimbundo para indicar “separação”, era dançado dentro de rodas de participantes, uma e depois um no meio de todos. O samba, hoje show de passadeira, começou assim: choro de escravos que dançavam a sua alegria, todos juntos.

Comentários

    1. É difícil entender o que há de genético nesta relação de poder e de escravidão.

    2. Creio que reside na relação senhor-servo da era feudal e que infelizmente é muito marcante na atitude comportamental da sociedade portuguesa o que permitiu ao projecto do Poder Central disseminar-se sem obstáculos cuja finalidade reside em implementação a ditadura dura, imprescindível a este projecto.
      A estratégia que está a ser utilizada, mantém uma democracia de fachada deslocando o poder real para novos centros, porque se suspendessem a democracia provocaria uma revolução.
      Hoje, os cidadãos continuam a votar, mas o seu voto é esvaziado de qualquer conteúdo, porque os dirigentes tanto da esquerda liberal como da direita liberal não têm mais poder real, em virtude de se terem vendido ao programa da NOM.
      Por conseguinte o prato servido pelo Estado é a escravidão desavergonhada e o cidadão escolhe de forma ilusória o molho: esquerda apimentada ou direita agridoce.
      Infelizmente, existe três categorias de pessoas: as que produzem os acontecimentos sendo uma pequena %; as que velam à sua execução sendo uma % considerável; as que não sabem nunca o que se produziu realmente sendo uma grande %.
      No meu entender, considerando a atitude comportamental no modelo de governação em Portugal, a proposta de refundação que o Governo de PPC quer fazer com o PS, partido político de oposição mas que concordou com o Memorando da Troika e a expressão do PPC ao dizer “deve ser preservado custe o que custar”, baseia-se na implementação da estratégia do Poder Central para melhor sincronizar as acções de realização:
      1.Enfraquecimento do Estado e do poder político, a desregulamentação e a privatização dos serviços públicos.
      2.Fragmentação total da economia, incluindo sector da educação, da saúde, da investigação, e os pilares da segurança pública (PSP, GNR, Exército) estão destinados a tornarem-se sectores exploráveis por empresas privadas.
      3.Dívida do Estado através, por exemplo, da corrupção, dos trabalhos públicos inúteis, das subvenções dadas às empresas sem contrapartida, cuja finalidade consiste em acelerar as privatizações para que os actores económicos empresariais internacionais possam se apropriar dos sectores promissores e geoestratégicos.
      4.Precarização dos empregos e manutenção de um nível de desemprego elevado, mantido graças às deslocalizações e à mundialização do mercado de trabalho. Isto aumenta a pressão económica sobre os assalariados, pois estão prontos para aceitar qualquer salário ou condições de trabalho, tornando-se assim os escravos do século XXI.
      5.Redução das ajudas sociais, para aumentar a motivação do desempregado aceitar qualquer trabalho a qualquer salário.
      6.Impedir a subida das reivindicações salariais com o apoio do regime corrompido. Lembrem-se que a famosa crise asiática de 1998 foi desencadeada com o objectivo de preservar este ferrolho estratégico.
      Evelyn MCH

  1. O texto e o comentário, fazem-nos pensar. E, desde logo, pensamos nos milénios e milénios, abarcando toda a Antiguidade Clássica, cujo modo de produção assentou no esclavagismo, isto é, numa sociedade dividida entre senhores e escravos. Tucídides, na História das Guerras do Peloponeso, fala-nos de cidades tomadas pelos inimigos, em que os seus cidadãos eram de imediato feitos escravos pelos vencedores. Era a maior das provações no Mundo Antigo. No interlúdio feudal havia senhores e vassalos, senhores e servos; servos da gleba, assalariados e escravos; corveias; os domínios do senhores; mas igualmente os locais insalubres onde permanecia uma força humana que vendia o seu trabalho a troco de segurança e de proteção, recolhendo da terra aquilo que na sua maior parte teria de entregar ao seu senhor. Porém, com o aumento dos excedentes dos produtos da terra, os espaços urbanos ganharam autonomia e poder. O burgo foi o local para onde convergiu o mercado e uma determinada força de trabalho. Nasce uma economia de troca, com base nos metais preciosos e na moeda. Surge uma das maiores acumulações de riqueza da História Humana. O capitalismo comercial, industrial e financeiro, sucedem-se . O novo modo de produção e as respetivas relações de produção alteraram a estrutura social, jurídica e o aparelho de Estado é o grande “troféu”, que vale a pena controlar. É jovem, muito jovem este modo de produção, no qual a mais-valia e o controlo dos meios de produção estão na posse de um senhor ou de uma sociedade de capitais. Questão:dois homens lutam entre si. Um deles, com muita coragem, aceita arriscar sua vida no combate, mostrando assim que é um homem livre, muito superior à sua vida. O outro, que não quis arriscar a sua vida, acaba vencido. O vencedor não mata o prisioneiro, ao contrário, conserva-o cuidadosamente como testemunha, como prova da sua vitória: é o escravo, o “servus”, aquele que se encontra dominado. O senhor domina o escravo, enquanto goza os prazeres da vida. porém a situação tende a alterar-se, de uma forma dialética, em face da posição do senhor abrigar a uma contradição interna: o senhor só o é em função da existência do escravo, que condiciona, por sua vez, a sua vida. O senhor só o é porque é reconhecido como tal pela consciência do escravo, vivendo do trabalho desse “sub-humano”. Nesse sentido, o senhor é uma espécie de “escravo” de seu escravo. Este, mais escravo da vida que do seu senhor, por medo de morrer submeteu-se. Transformado pela realidade, pelas provações e pelo árduo trabalho ensina ao seu senhor que a verdadeira liberdade é o “domínio de si”. Contudo, a História dos Homens nesta Terra, e a da sua condição, vai muito para além dessa atitude estoica e submissa.

  2. A escravatura é um sistema arcaico e pouco eficiente de parasitar humanos. Com a crise do séc.III o imperador Dioclesiano teve uma ideia para baixar os custos da escravatura e tornar mais eficiente a parasitagem: domesticar os escravos – inventaram o trabalhador. Um escravo é um ser livre que está preso contra a sua vontade, coopera pouco e foge. Um animal doméstico é um animal que perdeu a sua sanidade mental e colabora com quem abusa dele, não só não foge, como ainda procura quem abusa dele. Um animal doméstico é um lixo de si mesmo: um cão é um lixo de lobo, ataca os da sua própria espécie para defender a espécie alheia que o explora e abusa. Domesticar escravos deu no animal que perdeu a sanidade mental, que colabora com quem abusa dele. Chamar trabalhador a um escravo é ofender o escravo. Um escravo não é um lambe botas servil, que actua contra os seus iguais para servir o seu dono. Mais tarde, já durante a barbárie instalada na Europa vieram os mais analfabetos dos bárbaros defender a condição do trabalhador (a condição de lixo humano) e o regime do trabalho – o regime da domesticação de pessoas aos feirantes. Os sonsos chamam economia à feira (mercado) para ludibriar a plebe analfabeta convertida em animais domesticados, e o resultado não são rodas de samba, são as rodas de desumanidade, miséria e mau viver que caracterizam a europa bárbara.

    1. O seu texto está bem escrito, mas a conclusão que dele decorre é que o sistema da escravatura era mais perfeito do que o da domesticação operada pela barbárie…
      Recordo-lhe apenas que os escravos estavam e estiveram domesticados durante muitos milhares de anos e só tiveram ocasião de se revoltar em períodos muitíssimo curtos quer em Roma, quer muitíssimo mais tarde nas telenovelas brasileiras… e que Portugal foi um dos primeiros países a abolir a escravatura na metrópole e na Índia portuguesa (1761) e mais tarde nas colónias (1869). A França só o fez em 1848, os EUA em 1863, e o Brasil em 1888.

    2. Estranha conclusão que o texto nem sugere nem autoriza. Conta simplesmente a história de uma dança, tal como foi investigada pelo livro referido.

    3. Caro Louçã, o texto conta a história de uma dança de escravos “na barraca onde lhes permitiam dormir”. Os trabalhadores se quiserem barraca para dormir têm de a pagar ao feirante, senão dormem na rua. Um escravo era comprado, um trabalhador não é comprado, é dado, ele próprio oferece-se ao dono a troco de restos, como acontece com qualquer cão vadio.
      A história da dança de escravos mostra um tempo em que os escravos dançavam, restavam-lhes força, vontade e meios para dançar e inventar danças. Hoje os trabalhadores dormem na rua, vadiam pelas cidades à espera que um feirante lhe dê restos a troco de uma qualquer submissão servil (trabalho). Chama-se a isto barbárie feirante, o tempo em que todos andam de trela financeira ao pescoço e não têm sequer discernimento para exigir a sua libertação. O texto não autoriza a conclusão, mas mostra a diferença que demonstra a conclusão: a condição de trabalhador é muito pior, e ainda mais inadmissível, que a condição de escravo.

      Abolição do regime de trabalho (onde o indígena é obrigado a pagar aos feirantes para sobreviver à chantagem mercantil) é ainda mais necessária e importante que a abolição da escravatura. Como o texto demonstra os escravos tinham mais razões para dançar e inventar danças, que os trabalhadores têm hoje para apenas dormir.

      É óbvio que não é com as teorias de analfabetismo económico da barbárie (confundem economia com delinquência mercantil) que o regime do trabalho vai ser abolido.

    4. Continuo a achar a comparação muito estranha. A abolição da dependência do trabalho assalariado é “ainda mais necessária” do que a da escravatura? Porquê colocar as formas de exploração numa cadeia de avaliação?

    5. Sim, a abolição do regime de trabalho é ainda mais necessária que a abolição da escravatura. Os exércitos de escravos são menos eficazes que os exércitos de trabalhadores na produção de uma ameaça pública. Um exército de trabalhadores é uma ameaça pública pior que um exército de escravos. Não conheço exércitos bem sucedidos formados apenas por escravos (nos exércitos bélicos eram incorporados e passavam à condição de soldado). Já exércitos de trabalhadores (empresas mercantis) são uma ameaça comum e omnipresente. Quando falam em poder financeiro não estão a falar do poder do dinheiro, mas sim do poder daqueles que obedecem ao dinheiro – os trabalhadores, os cães de feira. São concretamente essas criaturas que vão agir no terreno e obrigar todos os outros a obedecer às ordens dadas pelo poder feirante.

      É inadmissível a condição de trabalhador não só pela condição de sub humano ao acaso das vontades de um feirante, como também, e principalmente, por serem os cães de feira que formam e impõem o poder feirante a todos os outros.

      Caro Louçã, assalariado? Um humano é algum animal adestrado a quem se atiram amendoins pelas habilidades que agradam aos feirantes? Qual é a sua noção de humano? Um humano é um imbecil que faz habilidades para os delinquente da feira lhe atirarem amendoins? Ainda por cima amendoins que ele próprio sacou dos seus iguais e entregou ao feirante.

      Caro Olisipone o facto de Portugal ter sido dos primeiros países a abolir a escravatura não é alheio ao facto de Portugal ter sido um dos principais instauradores do regime mercantil na europa bárbara. O feirante acha os escravos muito caros, prefere os trabalhadores que são cães de feira, não precisa de os comprar, pode mantê-los a restos ou abandoná-los sem lhe dar sequer comer (não perdem nada porque não pagaram nada por eles), e eles atacam os seus iguais, e até dão a vida por quem abusa deles.

    6. lol-
      mas Epicurp não se expõe por completo
      acaba-se com o trabalho assalariado.. mas depois somos o qê, Diamantes em bruto??

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