Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

27 de Agosto de 2014, 17:00

Por

A indiferença

Há dias, li um interessante texto no El Pais sobre a vida do notável jogador austríaco Matthias Sindelar que morreu numa fria noite vienense de Janeiro de 1939. Foi encontrado morto na cama do seu quarto com a sua mulher Camila Castagnola, uma judia de origem italiana. Sindelar, que era filho de emigrantes checos judeus, negou-se a jogar pela selecção da Alemanha nazi que passara a integrar a Wunderteam (“equipa maravilha”, assim era apelidada a selecção austríaca), como consequência de a Áustria ter passado a ser a província de Ostmark. Hitler não perdoou. Os nazis ofereceram uma recompensa pela sua captura. O cerco ao jogador apertou-se, até que um dia a polícia “informou” a sua morte. Assim terminou a vida e a brilhante carreira de um jogador que foi popularmente eleito o melhor atleta austríaco do século passado. Ficou conhecido como o Mozart do futebol.

Albert Ebossé, jogador de futebol camaronês, 24 anos, morreu no domingo. Havia emigrado para jogar na 1ª divisão argelina, na idade de todos os sonhos. Marcara até o único golo da sua equipa (JS Kabilylie), o que não impediu a derrota por 1-2. Foi barbaramente atingido por uma pedrada na cabeça quando regressava aos balneários. Adeptos – inconformados com a derrota – atiraram pedras, como se do outro lado pedras estivessem.

Eis dois exemplos dramáticos do lado mais perverso do desporto. Por um lado, o totalitarismo mais cruel e desumano a impor as regras e a esmagar a liberdade mais singela. Por outro lado, a fúria totalitária de quem vê um simples jogo de futebol como se de uma guerra se tratasse.

Curioso é que por cá, a notícia da brutal morte do jovem africano surge no “rodapé” jornalístico. Mesmo no desportivo. Esta semana, o que vai alimentar a semana noticiosa é, bem mais prosaicamente, saber se um treinador expulso vai ou não estar no banco no próximo dérbi.

A indiferença tudo banaliza. Até a própria indiferença…

Comentários

  1. Quase seríamos levados a dizer que essa história de pedradas sobre os futebolistas é coisa de 3º mundo.. (os argelinos e outros quejandos com propensão para a barbárie). Mas, não. Entre nós já morreu um adepto atingido por um foguete disparado por “jovem” que estava na bancada do Sporting. Não houve indiferença e o caso encheu os telejornais. Mas, não deixa de ilustrar a selvajaria em que se transformou assistir a um jogo de futebol. Mais uns anos e poderemos ter leões na arena para devorar os gladiadores tal qual a antiga Roma…

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo