Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

20 de Agosto de 2014, 10:14

Por

Meus filhos, democratizar é que nunca

o-padrinhoÉ com amargura que assisto a esta desgraça familiar que tem enlutado Portugal. Nas vivendas de Cascais e do Estoril vai um silêncio de chumbo, cortinados caídos. O jardineiro tem instruções rígidas, ninguém sai à rua, não vá um jornalista atrevidote fazer perguntas. O constrangimento é tamanho que os bailes de setembro estão comprometidos e os jovens fazem a pergunta tremenda: que país, que choldra é esta em que não se sabe onde debutar? Ou, ainda pior, quem vai ocupar os camarotes do Estoril Open, onde tantos políticos se acotovelavam para serem nossos convidados?

As revistas do coração, que adoravam quando brincávamos aos pobrezinhos na Herdade da Comporta, agora fazem manchetes sobre indemnizações por obras paradas e contratos arruinados. Cartas de conforto para dívidas de centenas de milhões são inspeccionadas como se a generosidade não fosse ouro na nossa Linha. O Luxemburgo, amizade velha de décadas, apunhalou a lealdade que nos unia e é ver uns fiscais de tribunal, mediocremente fardados num qualquer pronto-a-vestir, a invadir os nossos gabinetes na Place du Théatre.

Ao carpir esta desgraça, sobe-me um arroubo de dignidade. Afinal, são 140 anos. Somos uma dinastia por três séculos. Aprendemos, como os nossos ancestrais, para renascermos mais fortes. Se todos os regimes se nos vergaram, se nenhuma crise financeira nos beliscou, se nos erguemos à altura dos Rockefeller e dos Rotschild, não vai ser um juiz, uns pasquins e uns políticos avulsos que nos deitarão abaixo. Nem muito menos um cálculo de merceeiro sobre dívidas, apresentado por aquele que lá colocámos e que está a morder a mão que o levantou.

Ignorantes, não sabem que somos feitos da massa de Arquimedes: dão-nos um ponto de apoio e mostramos ao mundo o que é a alavancagem. Fizemos dívida a partir de nada, movemos biliões onde não havia cheta, investimos o que não existia, somos os arquitectos celestiais, haja respeito.

Mas aprendemos. Aprendemos a lição mais dolorosa. É aprendendo que a dinastia prossegue de pais para filhos, transmitindo a lição, a moral, a virtude. Ouçam bem: nunca nos podemos deixar ver ao lado de um Zé das Medalhas. Foi o nosso erro e não o podemos repetir. Podemos usar a gestão de fortunas da Akoya, o nome é digno, os directores vêm da banca suíça que é mais confiável do que a guarda do Vaticano, eles sabem os caminhos do Panamá e das Cayman até Vanuatu, toda a gente de bem faz pela vida. Agora usar o balcão de um Zé das Medalhas, isso só discretamente, ficar registado nessa contabilidade nem pensar. É asneira, atrai atenção, o nome é tão Massamá.

Foi o que os meus pais e avós me ensinaram, o segredo é a alma do negócio, mal de nós quando é descoberto.

Aprendam, meus filhos, só se deixem ver com pessoas da nossa igualha. Nunca, mas mesmo nunca democratizem, depois dá nesta desgraça.

Comentários

  1. A única coisa que me chateia a sério é que estes senhores, estes Donos Disto Tudo, Salgados e afins, vão ficar impunes, vão continuar a viver uma vida de privilégios e de muita coisa boa na vida, sem serem punidos como devem ser. Estes que atiraram a culpa da famigerada crise, para o português normal, que tinha vivido acima das suas possibilidades porque comprava uma casa e um carro, para fazer a sua vida tranquilamente. Eu, portuguesa a única coisa que não entendo é que para conseguir um empréstimo preciso de provar que tenho dinheiro para o pagar, se por acaso devo ao fisco aí vêm as penhoras, se não cumpro a lei vou presa. Não percebo, sinceramente não percebo. Este sr. Salgado devia ter ficado preso, sem um tostão furado e visto todos os seus bens frutos de actos ilícitos apreendidos e vendidos em hasta publica para com o dinheiro se pagar uma ínfima parte das ilegalidades que cometeu. É revoltante, é arrepiante pensar que no século XXI ainda se vive assim neste país.

    1. Não é seguro que fiquem impunes, mas o que nos podemos perguntar é como é que funciona um sistema que devia proteger um dos bens essenciais da democracia, a confiança bancária, e que gera sempre novos escândalos…

  2. Excelente texto.
    Tudo isto leva-nos a parar para pensar. Se principalmente os anos 70 mostraram o erro do socialismo/comunismo, esta crise veio confirmar que o capitalismo financeiro, num país sem reguladores, sem justiça, sem governos fortes, com quase todos os seus membros dependentes desses grupos, pode ser tão gangrenoso para o bem estar do povo como o foram os regimes autoritários- fascistas e comunistas.

  3. E se houve um lapso de tempo em que a fera parecia adormecida (estaria?), quando acordou ganhou maiores ambições – desmedidas ambições – envolvendo os lacaios dos locais todos, letrados e sem pudor, babados de servilismo. Quando o Padrinho aconselha “meus filhos, democratizar nunca” – pensa-se: é no que dá! Foi o que nos deu!
    Levará tempo demais a investigar, tentar resolver, julgar. Mas muito mais tempo será consumido a reparar erros, desfazer meadas, aprender novos costumes. Nessa altura, estas e outras histórias serão contadas.

  4. Como não desejo que as minhas expressões ou ideias possam dar a ideia de serem enigmáticas, quero referir o seguinte em relação à «regulação» e supervisão bancária, tema que ainda não vi debatido de uma forma assaz profunda e objetiva, que possa ser esclarecedora. Encontro-me entre os que pensam que a entidades reguladores e de supervisão devem efetivamente desempenhar o seu papel. A questão se esse papel deve ser de polícia ou de fiscalização – como tantas vezes é alardeado como forma de diversão – não o discute, mas afinal existem normas que definem a regulação, a supervisão, a atuação e o papel que cabe a cada uma das instituições que deve regular e supervisionar, neste caso, o sistema bancário. Mas atente-se no que escreveu, ainda que com uma abrangência mais geral, John Kenneth Galbraith: ” A regulamentação da actividade económica é, sem dúvida, o menos elegante e compensador dos deveres públicos. Quase toda a gente se lhe opõe; a sua justificação assenta quase sempre no pouco atraente princípio de escolher o menor dos males. A regulamentação dá origem a um debate surdo no Congresso, durante o qual os interesses dos grupos de pressão ficam por vezes postos a nu de modo quase obsceno. A promulgação e reforço de regras e regulamentos processa-se por intermédio de burocracias enfadonhas, constantemente sujeitas a críticas. Recentemente, tornou-se hábito que os responsáveis pela regulamentação confessassem a sua incapacidade, a qual, de qualquer modo, é por demais evidente.” (A Crise Económica de 1929. Anatomia de uma catástrofe financeira”, Lisboa, Publicações Dom Quixote, s/dt. pp. 70-71). Será que agora não se compreende melhor o “lavar as mãos” dos problemas de regulação, de supervisão, o “empurra”, “o diz que disse”, a inépcia, o marasmo, as acusações mútuas entre detentores de cátedras, o “chutar para o lado”? É preciso lembrar que ainda na semana passada Carlos Costa e a sua equipa colocaram-se ao fresco e passaram a bola na regulação do Montepio, que irá ser supervisionado pelo Instituto de Seguros de Portugal. Espetacular! É assim que se vai sacudindo a “água do capote” neste pobre País. Porém, quando se trata de cortar nos ordenados de quem trabalha por conta de outrem, é ver plenários extraordinários da Assembleia da República reunidos à pressa para promulgação dos cortes. Não leram os senhores que nos governam o que escreveu Paul De Grauwe, um insuspeito que se desentendeu com Barroso, sobre a austeridade na Europa, em concreto nos países alvo da armadilha da austeridade. Miserável, de facto, por parte de quem só pensa nos cortes dos que pagam ordeiramente os impostos!

    1. A referência a Galbraith é excelente e adequadissima. Era uma visão correcta, mas que foi vencida ao longo do tempo. Talvez se devesse voltar a ela.

  5. mas alguma vez houve democracia?? e o sr louçã pertence a essa dita “democracia”
    tenha vergonha na cara sr louçã, de politicos falhados esta o mundo cheio

  6. Portugal é demasiado viciante para os Donos Disto Tudo, e o Professor Louçã esta a ser demasiado optimista, quando diz que eles caíram em desgraça. É óbvio que nem caíram em desgraça, nem se curaram num qualquer grupo de Donólogos Anónimos. É demasiado viciante e fácil.

    1. Eu acho que o Chico tem razão!
      É o princípio do fim do “Feudalismo” em Portugal…
      Acabou de certa maneira o “reinado espírito santo” digo eu…
      O Rei vai nu!
      E assim vai o meu País…

  7. Ôra béie, us curtinadus tãoe pra vaixo purque a famelga é muitu pribada, num paça cartãoe a ninguém, num liga a mal bestidos nem a puliticus que só bufam pur causa da demucrassia. Se num foçe a demucrassia bocêses num avriam a voca e num tinhamus que paçar pur istu. Mas deicha tare, quando o tribunale cunstitucionale ganhare juízo, habemos de pedire uma indenizassãoe ao Istado, que o vom nome bale dinhêru e a famelga já é famelga há muito tempo. Inbejosos, a meteremçe cum uma famelga de béie. Bocêses bãoe a bere, o adbogadu háde cunbocare uma assemvleia cum gente de béie, cum a telebisãoe pra dizerem béie da famelga, e istu háde prescrebere. Paçamos uns dias nas obchore e bolta tudo ao mesmo e o padrinho háde recevere a cumenda de cristu, háde ir pró bancu de portugale ensinare a fazere dinhêro e háde ser cuncelheiro do Istado prás questõese ecunómicas.

  8. é caso para dizer que
    o mercado votou – e um sujeito de toga no luxemburgo apurou o resultado

    isso se us juizes de paraiso fiscal ainda usam essa barbariedade

  9. Tenho vindo aqui a comentar, com o interesse que uma cidadania ativa deve mover, alguns dos seus posts, sobretudo no que à falência do GES e do BES diz respeito. Na minha simples ótica, esta(s) falência(s) seriam bom um pretexto para analisarmos a sociedade portuguesa, os seus meandros mais cinzentos e dúbios, e refletirmos sobre a forma como nos desejamos organizar como comunidade. Nicolau Santos, num excelente artigo de opinião intitulado “Duas ou três coisas sobre Salgado” (Expresso, 26 de Julho, 2014, Caderno de Economia, p. 05), menciona quem é que verdadeiramente, antes da crise do GES rebentar, ousou enfrentar Ricardo Salgado e toda a sua “máquina poderosa”, entre os que tinham e têm poder, tribuna para comunicar e meios para atuar. Extraordinário: só um ou duas instituições e uma ou duas pessoas! Bem, depois é só constatar como o Sr. Ricardo Salgado, o grande chefe do clã falido, brindava grupos de interesse, comunicação social e outra gente, com férias na Suíça ou em França, em estâncias de lazer de esqui, no Inverno; ou no Verão a bordo de um luxuoso iate nas águas azuis e calmas do Mediterrâneo, acompanhando a Regata do Rei, onde se encontrava o “Rei”, o verdadeiro “Rei” que reinava sobre um império, vasto e poderoso, com muito dinheiro para distribuir. Segundo relata aquele jornalista, após esses mimos e presentes, de Inverno e Verão, lá chamava a toque de rebate, para uma conversa descontraída sobre economia e finanças bancarias, os jornalistas e demais séquito que o acompanhava. Inacreditável! O GES, com a sua joia de coroa – o BES- foi anos a fio um polvo com muitos tentáculos que, como se tem vindo a referir, se estendia da política à própria Banca, do jornalismo ao futebol, dos opinion makers aos mais avisados e impolutos (que se faziam passar) cidadãos que tinham tempo de antena. É difícil acreditar que não houve crime, perjúrio, ilícitos criminais na falência das holdings e do Banco, sobretudo com todos factos que têm vindo a lume, sabendo-se das maldades efeutuadas, de falsas declarações fiscais, de dinheiros na Akoya, de lavagem de dinheiros em offshores, de crimes ambientais (tentativa de abate de milhares de árvores), da drenagem de milhares de euros através da compra pelo Estado português de navios de guerra, do financiamento de partidos, de inside trading, do mensalão (como nos revela Nicolau Santos), do desvio de milhões do BESA, da venda de papel comercial do GES, aos balcões do BES, com muitos dos indivíduos de top do Grupo, quer do BES, quer da Tranquilidade, quer da PT e de outras empresas a forçarem todo um o esquema tipo “Pirâmide Ponzi” há uns anos a esta parte. É impossível não haver em tudo isto crimes para julgar!
    Só mais uma palavra em relação em relação à regulação, ao Banco de Portugal e à Cmvm, como instituições reguladoras, às acusações mutuas que têm vindo a terreiros e aos comentários que se têm feito na comunicação social sobre regulação. Seja-me permitindo um conselho: por favor pare-se de dizer asneiras e enganar as pessoas, simples cidadãos, e leia-se Kenneth Galbraith, The Great Crash of 1929.

    1. Tem toda a razão e foi por isso que, ao longo dos últimos quinze anos, tenho vindo a criticar o facilitismo e a ocultação em relação aos casos sucessivos do BES…

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